
“Descobrimos, com espanto, que somos “os mais velhos” em muitos locais que frequentamos.” Foto: Ampulheta velhice / Pixabay
Sabemos, desde sempre, que havemos de envelhecer. Mas nunca acreditamos verdadeiramente que isso nos irá acontecer a nós.
E, de repente, um dia olhamo-nos ao espelho e perguntamos “mas quem é esta pessoa?” Sentimo-nos como sempre, mas a imagem que vemos é completamente outra.
Assim começa a velhice, a nossa.
À nossa volta as reações variam. Há quem desvalorize e nos queira fazer acreditar que estamos “iguaizinhos”, mas não podemos ignorar os olhares de comiseração e/ou de espanto de tantos que se cruzam connosco.
É certo que já há algum tempo o corpo dava sinais de alerta. Sentíamos dificuldade em lembrar “sei tão bem quem é, estou mesmo a vê-lo, mas o nome…”, procurávamos por toda a casa os óculos postos na cara, a rapidez de gestos diminuía, uma pontinha de dor surgia aqui e ali, ouvíamos e víamos menos claramente, mas nada de muito importante… até aquele momento em que tudo para e nos olhamos e vemos que estamos mesmo velhos.
Descobrimos, com espanto, que somos “os mais velhos” em muitos locais que frequentamos.
Há uma linguagem que nos escapa, à nossa volta falam com abreviaturas e siglas que temos vergonha de estar sempre a perguntar o que significam.
Surgem palavras novas e outras adquirem novos sentidos (como fofo/fofinho que antes se aplicava a tapetes ou almofadas, agora aplica-se a quase tudo: bebés, animais, casas, vestuário, decorações … e aos velhinhos.)
É-nos desconfortável a música que entusiasma multidões e desconhecemos os seus intérpretes.
A moda e os costumes sociais muitas vezes surpreendem-nos.
Tentamos seguir as novidades tecnológicas, mas evoluem tão rapidamente que um dia desistimos.
Apercebemo-nos que as nossas opiniões são desnecessárias e enquanto falamos já as conversas seguiram para longe dali. Estamos a ficar “fora”.
No meio disto recebemos dezenas de memes, vídeos, mensagens, anedotas, orações, poemas sobre a velhice, ora brincando com as suas falhas e limitações, ora enaltecendo esse tempo supostamente cheio de plenitude e de sabedoria.
Mas, nós, sentimo-nos cheios de dúvidas e de interrogações.
Que fazer?
Talvez
Respirar fundo e aceitar, tentando manter o bom humor, sem qualquer amargura.
Procurar a beleza que pode haver em tudo.
Lembrar que “a vida é mais tempo alegre do que triste” (Adélia Prado).
Fazer nossa a oração de São Bernardo:
Inclina para ti, Deus, o pouco que quiseste que eu fosse
Toma o tempo que me resta
Não desprezes meu pranto
Em mim não há senão o desejo da tua sabedoria
Meu coração é agora minha única oferta.
E, enquanto estamos vivos, vivamos!
Lucy Wainewright










