A verdade não é tudo, mas é um bom princípio

| 4 Abr 20

Imagem do filme J’Accuse, de Roman Polanski.

 

O affaire Dreyfus, que abalou a França no final do século XIX, foi um momento provavelmente decisivo, por ser um marco – alguns dizem que um farol – do empenhamento público e político dos intelectuais. O Manifesto J’Accuse, do escritor e intelectual Émile Zola, publicado no jornal L’Aurore de 13 de Janeiro de 1898, é a maior referência dessa relevância e desse empenhamento capaz de denunciar aquela que continua a ser uma das grandes vergonhas da Justiça francesa.

Alfred Dreyfus era um oficial exemplar do exército francês. Mas tinha um problema, era judeu. E foi falsamente acusado de espionagem em favor da Alemanha, acabando por ser condenado a prisão perpétua na ilha do Diabo.

O caso Dreyfus, em França, naquela viragem do século XIX para o século XX, como se veio a provar 12 anos mais tarde, foi um tremendo erro judiciário, que provocou um tumulto político e revelou também o germinar do antissemitismo. Sendo um dos maiores exemplos de como a autoridade do Estado pode esmagar uma pessoa boa e inocente.

São impressionantes e impressivas as primeiras imagens do filme: uma praça imensa e aparentemente vazia para onde é levado o oficial Dreyfus; entram depois na imagem as figuras inquisidoras e solenes do aparelho militar encarregado da execução da sentença; e assistimos, como que acompanhados por um metrónomo, à cerimónia mais do que humilhante do arrancar dos galões e dos botões e ao partir da espada. Dreyfus fica ‘despido’ e exposto à turba que grita, para lá das grades, contra o seu próprio grito a clamar inocência.

É daqui que o grande realizador Polanski parte para um belíssimo filme, centrado afinal não em Dreyfus, mas noutro oficial, Picquart, que tinha sido professor de Dreyfus e tinha até pouca simpatia pelos judeus. Mas é precisamente este oficial que, quando é colocado no Serviço de Informações Militares, quase por acaso, ao perceber que havia algo de errado, começa a escavar nos documentos oficiais, vai percebendo o que tinha sido tramado e não descansa enquanto não consegue provar a inocência de Dreyfus.

O filme, por ser do mestre Polanski, acaba então por ser construído não como uma sucessão de factos – como uma normal ficção histórica – mas muito mais como um thriller, onde nem sequer falta o affaire d’amour entre Picquart e Pauline. O “aguilhão” do filme é precisamente mostrar o difícil e longo caminho para chegar à reintegração, apesar de todas as armadilhas e alçapões, de toda a máquina montada para manipular e esconder a injustiça cometida (as cenas em tribunal são exemplares).

O filme é uma história onde os riscos e as surpresas abundam, capaz de envolver o espectador, mesmo que este já saiba o fim da história, que não é completamente feliz: Picquart e Pauline, ao contrário do que esperávamos, não ficam juntos; e Dreyfus, declarado inocente, vai ter com o novo Ministro da Guerra, Picquart precisamente, para lhe ser reconhecido o tempo em que esteve preso e recuperar o posto hierárquico correspondente, mas sai de mãos vazias.

A verdade não é tudo, mas é um bom princípio.

“Ao olhar para o final do século XIX e início do século XX e para a catástrofe que o ‘affaire Dreyfus’ anunciou, Polanski, como Clint Eastwood em O Caso de Richard Jewell, mostra-se profundamente céptico em relação ao nosso mundo de hoje em que a verdade é inventada, em que a xenofobia e o antissemitismo não precisam de se esconder”. (Vasco Câmara, Público, ípsilon, 31 de Janeiro de 2020).

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar); o texto foi inicialmente publicado na revista Mensageiro de Santo António, de Abril de 2020.

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