Leituras de Páscoa (4)

A Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023: os sentidos do corpo e da alma

| 29 Mar 2024

 

Nas últimas semanas, o 7MARGENS publicou um “Diário de Caminho” de Cláudio Louro, como peregrino de Santiago, e iniciámos a publicação do “Diário de um jejuador”, da autoria de Khalid Jamal, como propostas para a reflexão a propósito de tempos fortes para os cristãos (a Quaresma) e para os muçulmanos (o Ramadão) respectivamente. Ontem, 28 de Março, os cristãos celebraram a Quinta-Feira Santa, o início do Tríduo Pascal que culmina no Domingo de Páscoa.

Tendo em conta a centralidade e importância da Páscoa no calendário cristão (os ortodoxos celebram-na, este ano, apenas no início de Maio, uma vez que seguem o calendário juliano), o 7MARGENS pediu a colaboração de duas editoras, Editorial AO e Paulinas, no sentido de podermos publicar excertos de algumas obras que ajudem à reflexão para e sobre estes dias, sempre na relação com o tempo histórico que estamos a viver. Em resultado da escolha feita, aqui reproduziremos diariamente excertos de dois livros, até Domingo, agradecendo desde já a disponibilidade das editoras para esta iniciativa. 

A capa de Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023

A capa de Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023

Com o coração nas mãos

Esta é uma Via-Sacra sem paralelo com as habituais edições em livro das tradicionais “estações” que compõem esta forma de devoção tão popular e frequente, sobretudo durante a Quaresma. É diferente porque procura trazer para o formato de livro a experiência extraordinária vivida por milhares de pessoas, sobretudos jovens, durante a celebração da via-sacra, que marcou um dos momentos altos da Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023.

Se a Via-Sacra da JMJ 2023 aliou a beleza do texto à força expressiva da imagem, o livro que recolhe este momento, e que acaba de ser publicado, não podia deixar de tentar fazer o mesmo. Assim, os textos breves das “estações” aparecem enquadrados pelas imagens que preencheram o cenário no qual as mesmas “estações” aconteciam. Trata-se, portanto, de uma edição da Via-Sacra para rezar sentindo e sentir rezando, sem que nenhuma destas dimensões ganhe primazia, pois a oração sem sentimento é oca e o sentimento que não reza é vazio.

 

Como usar o livro

via sacra jmj final, foto JMJ Lisboa 2023

Imagem da Via-Sacra na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Foto © JMJ Lisboa 2023.

 

A forma como o livro se apresenta diante de nós expressa um cuidado e uma intenção: que o caminho percorrido pelo Senhor possa ser reconhecido e encontrado na história contemporânea das nossas vidas. 

Veremos que esta peça pressupõe, portanto, um ritmo como se as páginas gerassem sobressaltos, desequilíbrios ou eventualmente uma queda no percurso da leitura. Tanto as escritas como aquelas isentas de palavras deixarão uma entrada e um convite para o silêncio. Um silêncio instalado e demorado, feito morada, para dispor o olhar para o exercício novo da contemplação. 

O próprio percurso da leitura exige que algumas das páginas sejam amplamente abertas ao ponto de extravasar o lugar que habitualmente um livro ocupa nas mãos de um leitor. Há um aumento de forma. Somos ultrapassados por algumas das páginas, aquelas cujas estações se referem ao aparato de uma queda. É o excesso do amor que ultrapassa a capacidade generosa das nossas mãos.

Neste sentido, o livro, para se tornar naquilo que pretende ser (seja com proveito individual ou comunitário e, por isso, de uso pastoral) necessita de uma oração lenta, cuidadosa e tecida a partir das feições artísticas. É o cuidado estético, lembrado na Via-Sacra da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa, que serve como preciosa porta de entrada para o arrebatamento da vida humana. Exaltada e extasiada, para sair de si e deixar-se levar pela passividade do próprio Deus que abraça a ferida e anuncia sem medida o desfecho da ressurreição. 

Somos, portanto, convidados a um gesto de simplicidade. Deixarmo-nos tocar pelos sentidos do corpo e da alma porque só assim, e como não se cansa de nos lembrar o apóstolo João, o «que vemos e ouvimos disso daremos testemunho». 

E para sermos testemunhas precisamos mais da visão do que do entendimento.

Que este livro possa ser benéfico e que a oração que daí advenha nos assemelhe às feições de Deus.

P. Nuno Branco, sj

 

Sempre me espantou a beleza que encontro na fragilidade

 

Via Sacra JMJ, Lisboa. Foto Miguel Cardoso

Via-Sacra na JMJ, Lisboa. Foto © Miguel Cardoso

 

É bonita e curiosa a expressão portuguesa «com o coração nas mãos». O coração é absolutamente vital e, ao mesmo tempo, frágil. Talvez por isso o criador o tenha desenhado tão bem defendido na caixa toráxica. Trazê-lo nas mãos seria um gesto de uma tremenda insensatez.

E de uma tremenda vulnerabilidade. E no entanto, é uma experiência humana que todos conhecemos. Por mais que nos façamos indiferentes, em muitos momentos, sabemos como a condição humana é frágil. Cada um de nós sabe como é feito de feridas e fragilidades.

Partilhamos essa humanidade, e talvez por isso seja tão fácil ver naquele que sofre um irmão, alguém igual a mim. Ainda que o seu sofrimento seja singular, conseguimos partilhá-lo por sabermos tão bem como é ter o coração nas mãos. E reconhecemo-lo no que está sozinho, no que é perseguido, na mãe que chora um filho, no que sofre com a violência, no que é escravo de uma dependência, em todos os Davides que lutam com Golias.

Sempre me espantou a beleza que encontro nas feridas e nas fragilidades. Na vulnerabilidade.

Leonard Cohen, numa das suas canções, diz que em tudo há uma fenda ou uma falha, e que é assim que a luz entra – there is a crack in everything, thats how the light gets in. A ferida e a esperança não são realidades distantes, pelo contrário. Tal como o medo e a coragem. 

A coragem nasce do medo, a luz brilha na escuridão e a esperança nasce nos corações que têm de aprender a conjugar o verbo recomeçar.

E a história de amor narrada na Via-Sacra pode guiar todos os que sofrem, todos os que recomeçam uma e outra vez. O amor de Jesus atravessa a dificuldade e ultrapassa-a, ilumina-a. A adversidade passa de ponto final a vírgula. A queda dá lugar ao levantar. Jesus cai connosco para se levantar connosco. E por isso nas XIV estações encontramos as nossas vidas, ao mesmo tempo que somos continuamente desafiados a deixar Jesus levantar-nos com Ele e a abrir sempre novos horizontes. Talvez fosse bom deixarmos que seja Ele a levar o nosso coração nas suas mãos.

Sursum corda.

Matilde Trocado
(direção artística JMJ Lisboa 2023)

 

Primeira estação
Jesus é condenado à morte

 

via sacra JMJ. Foto JMJ Lisboa 2023

Via-Sacra na JMJ, Lisboa. Foto © JMJ Lisboa 2023

P. – Nós te adoramos, ó Cristo, e te bendizemos.

R. – Porque com a tua santa cruz remiste o mundo.

Senhor, Pilatos assinou o decreto. Assinou o decreto de extinção do teu futuro. 

«Este ser humano deve morrer; ele não terá mais futuro».

Muitos jovens sentimos isto hoje, Senhor, que o futuro nos está a ser tirado. Dizem-nos que a vida está cheia de oportunidades, mas é difícil ver onde estão essas oportunidades quando o dinheiro não chega, quando não se consegue arranjar trabalho e quando ter acesso à educação é, na prática, impossível.

Senhor, mesmo quando te condenaram à morte, Tu não te deixaste ir abaixo. 

Explicaste a Pilatos que ele não teria nenhum poder sobre ti se Deus não o permitisse. E, com Deus a teu lado, seguiste em frente, confiando no futuro. 

Ensina-nos a fazer o mesmo.

Pai nosso…

 

Via-Sacra da JMJ Lisboa 2023, de Vários Autores
78 pág., Editorial AO

 

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