A partir desta sexta-feira, 21, e até ao Domingo de Páscoa, estará na Zet Gallery (rua do Raio, 175), em Braga, uma exposição do artista italiano Giancarlo Pavanello dedicada ao tema da Via-Sacra do Logos. Uma das versões está atualmente na exposição do Dicastério para celebrar o Jubileu dos artista e cultura. A outra é a que será exposta em Braga durante este tempo, incluída num conjunto de mais de 300 obras do artista, expostas em três lugares: Zet Gallery, Museu Pio XII e Biblioteca Municipal Lúcio Craveiro da Silva.
O músico Pedro Abrunhosa compôs expressamente para a exposição um lied (cantado pela soprano Sofia Marafona), sobre o poema “Sexta-Feira Santa”, de José Tolentino Mendonça. O catálogo da exposição conta com um texto crítico sobre o autor, da autoria de Teresa Bartolomei, uma via-sacra escrita pelo poeta Carlos Poças Falcão e ainda um texto do padre e poeta Mário Rui de Oliveira, de apresentação de Giancarlo Pavanello, que o 7MARGENS reproduz a seguir.
“O que é Deus? Ele é comprimento, largura, altura e profundidade”
[São Bernardo de Claraval]
I. A caligrafia: o corpo visível da Palavra divina

‘Para a mística judaica, a escritura e as letras do alfabeto são “santas”, uma vez que foram traçadas pelo dedo de Deus nas tábuas da Lei.’ Foto: DR
Para a mística judaica, a escritura e as letras do alfabeto são “santas”, uma vez que foram traçadas pelo dedo de Deus nas tábuas da Lei. Uma das obrigações dos judeus era copiar os Rolos do Pentateuco, segundo normas rígidas que impediram reformas e inovações significativas na grafia. Esta “interiorização” da escritura era ritualizada pela tradição de fazer com que as crianças comessem, no primeiro dia de escola, doces em forma de letras do alfabeto.
Nesta mesma linha, no mundo árabe e no islão, a caligrafia é a mais nobre das artes, e a beleza é percebida apenas sob a forma de recitação poética do texto sagrado ou de contemplação da sua caligrafia. Para o islão, a caligrafia é, segundo Titus Burckhardt, “o corpo visível da Palavra divina”.
Se olharmos para o Ocidente, devemos reconhecer que também na Europa e em Itália, no início da Idade Média, o nascimento da caligrafia sobrevém sob o signo do Sagrado e do Corpo: os monges copistas eram inspirados pelo désir de Dieu e pelo amour des lettres. À caligrafia juntavam-se as miniaturas ou iluminuras. Quando um monge exercia o ofício da escritura e amanuense, no scriptorium, este mester [verdadeiro ministério] era, ao mesmo tempo, uma atividade estética, criativa e ascético-penitencial: a transcrição dos textos sagrados era uma forma de ascese [pelo ritmo de trabalho, pela necessidade de manutenção, pela duração do tempo, pela postura corporal] e nunca estava longe da oração.

“Se olharmos para o Ocidente, devemos reconhecer que também na Europa e em Itália, no início da Idade Média, o nascimento da caligrafia sobrevém sob o signo do Sagrado e do Corpo: os monges copistas eram inspirados pelo désir de Dieu e pelo amour des lettres.” Foto: DR
Mas com o surgimento dos escribas “leigos”, empregados da nova burguesia mercantil, e sobretudo com o nascimento da tipografia, ocorreu uma verdadeira revolução. A caligrafia tornou-se um momento precursor do processo de produção do livro, e o calígrafo, ao longo do tempo, tornar-se-á o designer de tipos, o gráfico. Nesse sentido, pensemos no que a invenção da máquina de escrever, do telefone, da televisão, dos computadores, da internet e, mais recentemente, da inteligência artificial, representou em termos de transformação do espaço e significado para a caligrafia, com a ameaça de destruição ou até mesmo de morte da escritura…
Mas será que a situação é assim tão dramática? Talvez não. E para demonstrar que a relação hoje entre quirografia, caligrafia e novas ferramentas tecnologicamente avançadas de escritura não é (ainda) tão dramática, eis os experimentos de Giancarlo Pavanello.
A propósito da sua obra apresentada na exposição Ecbtana, Immagini e scritture da uma città invisibile [Ecbtana, Imagens e escrituras de uma cidade invisível, 1993], o comissário Enzo Biffi Gentili escreveu que Giancarlo Pavanello “parte da copiatura, da transcrição, tal como o escriba e o monge, para chegar a uma caligrafia pessoal, autónoma, ascética e estética, ilegível, numa verificação consumada e excecional da afirmação de Michel Butor: ‘A legibilidade mostra-se, pois, como a crista de uma onda, um momento claro, por vezes enganadoramente claro, precedido de toda uma série de esforços, e prestes a ser engolido por um mar de rasuras ou de sobreposições’”.
II. O percurso verbo-visual de Giancarlo Pavanello [1944]

“No início dos anos setenta, 1971-1975, a solução das grafias enfáticas amadurece em sentido definitivo, com os textos caligráficos, uma espécie de pintura a tinta com semelhanças às linguagens ideográficas, do ponto de vista ocidental, como experiências verbo-visuais, uma síntese com a escritura literária em busca da possibilidade de um ecletismo delimitado.” Foto: DR
Mas quem é Giancarlo Pavanello? É um artista-poeta, um ensaísta, um amante do Logos, nascido em Veneza, a 4 de abril de 1944, e transferido para Milão em 1978. Tem um pseudónimo [não será antes um heterónimo?] com o qual assina muitos dos seus [numerosos] livros em exo-edição: Carlo Pava.
Na sua página pessoal podemos ler uma sua pequena biografia. Os primeiros poemas resgatados da destruição remontam a 1960, como os desenhos à imagem da art brut de Jean Dubuffet. Uma produção instintiva e a-técnica como expressão de um carácter adolescente e juvenil: a pré-história pessoal.
No início dos anos setenta, 1971-1975, a solução das grafias enfáticas amadurece em sentido definitivo, com os textos caligráficos, uma espécie de pintura a tinta com semelhanças às linguagens ideográficas, do ponto de vista ocidental, como experiências verbo-visuais, uma síntese com a escritura literária em busca da possibilidade de um ecletismo delimitado. Esta delimitação é enquadrada com maior rigor terminológico e crítico nas apresentações de Rossana Apicella: a “singlossia” [união de linguagens diferentes], a “escrita semântica”, a “escrita assemântica”, a “escrita pseudo-assemântica” [uma espécie de palimpsesto em que um texto verbal se sobrepõe a outro texto verbal, tornando-o incompreensível, em parte ou no todo, mas que, na verdade, reflete a clareza das formulações mentais do autor neo-amanuense]. Além disso, não faltam páginas puramente semânticas, antecipando a escrita assemântica dos anos Noventa, um género que se confunde com o letrismo: a gráfica e a pintura abstrata, especialmente dos anos Cinquenta e Sessenta.

‘Giancarlo Pavanello sai do anonimato e vê-se incluído no contexto internacional da “poesia concreta”, da “poesia visual”, da “poesia total”, da “nova escritura” (…)’ Foto: DR
Assim, a primeira referência editorial é o volume “epigramas escritos com uma pena de pavão”, Geiger, janeiro de 1976, 250 exemplares numerados. Com esta espécie de editio princeps dos primeiros textos caligráficos, Giancarlo Pavanello sai do anonimato e vê-se incluído no contexto internacional da “poesia concreta”, da “poesia visual”, da “poesia total”, da “nova escritura”, segundo as fórmulas de outros autores, mas distinguindo-se por se centrar no texto poético, visualizado, breve, lacónico, não sem alusões ao haiku japonês, desenvolvendo-se pouco a pouco em direção ao cromatismo, sempre preferindo um percurso pessoal e desvinculado de agrupamentos rígidos, para poder explorar a liberdade dos repensamentos e das inquietações das suas próprias pesquisas.
Em particular, além disso, desde o início insistiu na intuição e na escolha, acolhida com exclusividade, do volume em exemplares únicos e encadernados, em substituição da pintura, que depois foi genericamente definida como “livro de artista”, e dos objetos, desde a primeira exposição pública em 1975 até à exposição pessoal, “exibição bibliográfica”, em Milão, Avida Dollars, em 1989, quando decidiu mudar apresentando também alguns desenhos e grafismos juvenis, emoldurados na parede.

‘Com o impasse das neo-vanguardas, a partir do final do século XX dedica-se com firmeza técnica a uma série de outras experimentações, considerando-as em sintonia com o novo milénio, sem renegar as décadas passadas, resultando, com os “graffitis domésticos” (…)’ Foto: DR
Com o impasse das neo-vanguardas, a partir do final do século XX dedica-se com firmeza técnica a uma série de outras experimentações, considerando-as em sintonia com o novo milénio, sem renegar as décadas passadas, resultando, com os “graffitis domésticos”, na mistura de formas e materiais compositivos até mesmo contrastantes: desenho, contrafummetti [banda desenhada não convencional], abstracionismo, figurativo, simbologia cromática, vinhetas digitais, fotografias, arte conceptual, arte narrativa, pintura, escritura, texto literário impresso, sendo na sua maioria técnicas mistas. Documentadas, nomeadamente, na exposição pessoal “grafittis mentais e grafittis domésticos – o percurso verbo-visual de Giancarlo Pavanello”, Biblioteca Cantonal de Lugano [Suíça], 2022.
III. A via-sacra de Logos

“Apesar de se considerar agnóstico, Giancarlo Pavanello quis aceitar o desafio de preparar uma via-sacra do Logos para celebrar o seu 80º aniversário [4 de abril].” Foto: DR
Neste contexto, ousei propor ao artista a criação de uma Via-Sacra do Logos, que logo foi acolhida com entusiasmo. A escolha operativa orientou-se para a abstração, eliminando as formas figurativas tradicionais. Uma preparação preliminar: o ditado de fragmentos bíblicos e evangélicos em latim para serem inseridos sob a forma de manuscrito nas quinze telas previstas, redigidas sob a forma de anotações e com observações e esboços ou estudos minimalistas em páginas A5 destinadas a serem encadernadas sob a forma de caderno. Giancarlo Pavanello afirmava a sua inadequação para reproduzi-las, dado o mutar das sensibilidades e as problemáticas entre o século XX e XXI, marcados pelas experimentações vanguardistas até raiar o tema da morte da arte.
O projeto dirigiu-se, assim, para a criação de telas redondas, com um diâmetro de 40 centímetros, que, se adaptavam, pela sua natureza imediata e sem moldura, a uma espécie de neo-primitivismo imaginado nos grafittis das modernas catacumbas, refúgios de uma desumanização distópica, que se espera apenas imaginária. Previa-se uma exceção para a XIIa estação, com dimensões de 40×40 cm, porém, Giancarlo Pavanello teve uma nova intuição: completar a obra com cinco partes quadradas, sublinhando uma pausa no final do crescendo de humilhação, escárnio e sofrimento de Cristo, vivido com heroísmo e dissidência.

” (…) porém, Giancarlo Pavanello teve uma nova intuição: completar a obra com cinco partes quadradas, sublinhando uma pausa no final do crescendo de humilhação, escárnio e sofrimento de Cristo, vivido com heroísmo e dissidência.” Foto: DR
Com a XIa Estação, na abordagem típica dos ilustradores na fase preparatória dos desenhos, com a leitura, pareceu-lhe entrar, ele próprio, numa atmosfera oposta, de máxima penumbra, como do dia para a noite [de facto… a hora tertia…]. O silêncio. A solidão. A escuridão. Enquanto antes imaginava uma multidão cacarejante, o riso de uns, o choro de outros, uns de alegria e outros de luto, em direção ao local do suplício. O cumprimento de uma tragédia e, ao mesmo tempo, a fundação de uma denominação religiosa e de uma igreja.
Quanto às escolhas artísticas, a abordagem verbo-visual alinhou-se com a pintura abstrata, um género que ressurgiu no final do século XX com a pintura analítica. Este estilo foi reinterpretado num período definido por Giancarlo Pavanello entre 2000 e 2030, um ecleticismo que incorpora tradições abandonadas, evocando o Angelus Novus de Paul Klee e Walter Benjamin. No entanto, com algumas aclarações: na especificidade da via-sacra, parecia essencial concentrar-se nos valores simbólicos do grafismo geométrico e do cromatismo, para evitar a superficialidade decorativa em sentido pleno, que se pretendia banir.

“O silêncio. A solidão. A escuridão. Enquanto antes imaginava uma multidão cacarejante, o riso de uns, o choro de outros, uns de alegria e outros de luto, em direção ao local do suplício. O cumprimento de uma tragédia e, ao mesmo tempo, a fundação de uma denominação religiosa e de uma igreja.” Foto: DR
Vejamos, a título de exemplo, o que escreveu o autor sobre a estação central, a morte de Jesus, o Logos encarnado: “XIIa Estação. A única inscrição: a palavra λόγος, na aceção cristã, afastando-se apenas parcialmente do significado grego de “discurso”, identificando-se com a palavra, com o Verbo, mas a ponto de assumir uma valência física, segundo o prólogo do Evangelho de João, ou seja, um acontecimento humano e corporal concluído com a Crucifixão. Pois uma vontade divina inescrutável submeteu o Filho a uma violência extrema, com os três cravos do painel anterior, previamente alinhados para a execução, a serem cravados numa direção mais direta e a partir de cima. Do ponto de vista do artista, numa imagem fantástica, num véu rasgado.”
O resultado é uma via-sacra extraordinária, comovente e excecional, repleta de paixão e amor, com uma escrita inquietante e bela, profundamente mística, na qual o Logos é o Verbo, a escritura, a poesia, a arte e a beleza, finalmente, que salvará o mundo.

“O resultado é uma via-sacra extraordinária, comovente e excecional, repleta de paixão e amor, com uma escrita inquietante e bela, profundamente mística, na qual o Logos é o Verbo, a escritura, a poesia, a arte e a beleza, finalmente, que salvará o mundo.” Foto: DR
A Via-sacra do Logos na sua primeira versão pode ser vista e contemplada na exposição Global Visual Poetry, organizada por Raffaella Perna, dentro do Dicastério para a Cultura e a Educação, presidida pelo cardeal José Tolentino Mendonça, no Vaticano.
A segunda versão da Via Sacra do Logos e todo o percurso artístico e literário de Giancarlo Pavanello pode ser visto agora em Braga, capital Portuguesa da Cultura, a partir do dia 21 de Março de 2025 até à Páscoa, 20 de Abril de 2025.
A exposição reúne mais de 300 obras do artista poeta italiano em três locais representativos da fé e cultura bracarense: Zet Gallery, Museu Pio XII e Biblioteca Municipal Lúcio Craveiro da Silva.
A organização é da inteira responsabilidade da Zet Gallery e conta com o apoio e patrocínio da Comissão Organizadora da Semana Santa de Braga e do Museu Pio XII e da Biblioteca Municipal Lúcio Craveiro da Silva. A curadoria da Exposição deve-se a Helena Mendes Pereira e o momento inaugural será assinalado com uma procissão poética protagonizada pela CTB – Companhia de Teatro de Braga.
Mário Rui de Oliveira é padre, autor de O Livro da Consolação, e trabalha em Roma; é postulador da causa de beatificação de frei Bernardo de Vasconcelos e chanceler do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica.
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