A viagem do vestido de casamento

| 19 Abr 2021

Noiva africana

Uma noiva africana (neste caso, nos Camarões): o vestido ainda é “o cerne das cerimónias de casamento”. Foto © Freddy Nzalli Mambou / Wikimedia Commons.

 

O cerne da questão das cerimónias de casamento, na minha sociedade, é o vestido de noiva.

A existência do vestido de noiva é antecedida pelo anúncio do casamento, que traz felicidade a alguns familiares, tanto da noiva, quanto do noivo. Digo alguns, porque um casamento, para além da graça que carrega, reúne em torno de si muita agrura. Casar e ter filhos ainda é das coisas mais importantes na minha sociedade. Existe muito pouco deleite acima disso.

Após o anúncio de casamento, a noiva, acompanhada ou não de sua madrinha ou de uma amiga ou quem quer que seja que ela escolha, compra ou manda fazer o vestido. A selecção não envolve o noivo, para quem o vestido será uma surpresa. O vestido é comprado ou mandado costurar. E aí inicia a sua primeira viagem. O próprio já feito ou os seus panos, fazem a sua primeira viagem, antes de serem entregues à sua dona. Depois, há uma segunda viagem para casa dela. Mais tarde, deverá ser entregue às irmãs ou madrinha da noiva, que deverá ir entregá-lo à família do noivo. Este último é excluído do evento. A família, deverá, na véspera do casamento, realizar a cerimónia de entrega do vestido de casamento à família da noiva. Independentemente de quem pague o vestido este, supostamente, “foi comprado pelo noivo”. E assim é que deve ser.

Segue-se a viagem de entrega do vestido, na casa dos pais da noiva; antes disso, há um ritual em casa do noivo: numa esteira, coloca-se um mucume, uma capulana específica. Depois, por cima deste, são expostas todas as coisas que a noiva irá usar no dia do casamento. Do conjunto, constam o vestido, a roupa interior, outros objectos como joias, por exemplo. Segue-se uma oração de agradecimento e pedem-se bênçãos para que a cerimónia de casamento corra bem. E aí o vestido segue para casa dos familiares da noiva. Há quem diga que é nesse momento que os invejosos lançam azares ou feitiço sobre o vestido. Mas isso é pano para outras mangas.

No dia seguinte, a viagem segue os diferentes locais de realização do acontecimento, nomeadamente: de casa à igreja, da igreja ao palácio dos casamentos ou notário, de lá para um jardim, onde os noivos e a sua família e amigos tiram fotos, depois seguem para o salão de festas, para o copo de água. Depois deste, segue-se para o local onde terá lugar a lua de mel. O vestido descansa e no dia seguinte a sua dona vai com ele ao xiguiane, cerimónia de entrega de prendas à noiva.

Em alguns momentos, a viagem tem uma pausa mais longa, em casa da noiva-recém-casada ou numa lavandaria, para depois, em alguns casos, voltar a ser usado, numa segunda cerimónia, na terra ou junto à família de um dos noivos-recém-casados, por esta não ter podido estar presente na primeira cerimónia.

Geralmente, esta segunda cerimónia é feita junto à família do noivo, porque esta tem muita necessidade de ver a sua nora e é obrigação desta ir de vestido de noiva, para ser vista tal como esteve nas cerimónias iniciais. O vestido faz depois uma curta viagem, antes do seu repouso: lavandaria e mala da dona. Nesta última, fica a aguardar pelo dia da sua última viagem. O “ser vista” deve ter a ver com algo difícil de explicar, mas cuja ilação pode ser feita, de entre outros modos, com o que já narrei aqui no 7MARGENS.

A última viagem que o vestido faz é a da tristeza. Vai para a morgue e finalmente para a sepultura, juntamente com a sua proprietária, que o tem de usar, ainda que já não lhe sirva. Se for o caso, há técnicas para tal: abre-se dos lados e arranja-se na parte de frente, colocando-o de modo a que fique bem vestido na sua dona. Ela é enterrada bonita. Razão pela qual ela é obrigada a guardar o vestido de casamento após a cerimónia. Não interessa o quão (in)feliz ela possa ter vivido. A verdade é que nós não alugamos vestidos de noiva, porque dá azar. E, por consequência, não o vendemos após o casamento.

Quem infringe a regra, paga por isso. Conto uma das histórias que conheço relativamente ao facto. Certo dia, um familiar meu separou-se da esposa e foi viver com a sua amante. Passados anos, quis se casar com ela e como não tinha posses, foi à casa da antiga esposa buscar o seu vestido de noiva. Após muita luta conseguiu levá-lo. Entretanto, o seu casamento com a outra acabou não se realizando, por razões nunca explicadas à família. A verdade é que a primeira mulher acabou morrendo e a sua família foi ter com ele, para uma prestação de contas. A cerimónia fúnebre não deveria ser realizada sem que o vestido aparecesse. O homem teve de o devolver. E lá se foi o vestido em viagem para o além. Voltou à sua dona.

Nisto das penalizações ligadas ao casamento, há muito que se lhe diga. Lembro-me também de uma outra história, que se pretende breve neste texto. Num outro casal de familiares meus, a senhora viveu maritalmente cerca de vinte anos. Quando faleceu, a família determinou que, por tradição, ela não deveria ser sepultada, sem ser lobolada. O lobolo é um dote que a família de um noivo paga à família de uma noiva e simboliza, também, o casamento tradicional. Abro um parêntese, para dizer que, depois disto, podem-se seguir outros actos oficiosos como os narrados acima: casar pela igreja e pelo registo civil. Então, interromperam-se os preparativos para o funeral e foram se fazer as compras do quite-lobolo, para que este fosse entregue aos familiares da senhora, ao que se seguiu o seu enterro.

 

Sara Jona Laisse é docente de Cultura Moçambicana na Universidade Politécnica (Maputo) e integra o Graal – Movimento Internacional de Mulheres Cristãs. Contacto: saralaisse@yahoo.com.br.

 

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