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Capela do Rato, Memorial, Arte, Escultura, Cristina Ataíde, Guerra Colonial

Escultura de Cristina Ataíde inaugurada

A vigília que “despertou consciências” já tem um memorial em Lisboa

| 25/03/2024

Capela do Rato, Memorial, Arte, Escultura, Cristina Ataíde, Guerra Colonial

O memorial da vigília da Capela do Rato, da autoria de Cristina Ataíde: “Um acontecimento importantíssimo.” Foto © Cláudia Teixeira/Comissão Comemorativa 50 anos 25 Abril

 

Foi “um acontecimento importantíssimo para despertar consciências” aquele que passou a estar evocado de forma permanente num memorial que nesta segunda-feira foi inaugurado no Jardim das Amoreiras, em Lisboa, neste início da Semana Santa dos cristãos: há cinco décadas, um grupo de católicos (e também não-crentes) juntou-se numa vigília de oração contra a Guerra Colonial na Capela do Rato. A vigília acabou depois da invasão do lugar pela PIDE, polícia política do regime, mas contribuiu para a “mudança de um regime opressivo” e para sensibilizar as pessoas contra a guerra, afirmou a criadora da escultura, Cristina Ataíde.

Perante cerca de duas centenas de pessoas – entre as quais a presidente da Comissão Comemorativa 50 anos 25 de Abril, Maria Inácia Rezola, bem como vários participantes na vigília de há 50 anos – numa tarde chuvosa mas que se manteve seca enquanto durou a cerimónia, a escultura mostra dois muros em mármore branco de Vila Viçosa, empurrados por vários êmbolos de aço, simbolizando as forças que querem derrubar os poderes opressores; no pavimento que envolve as duas paredes, dezenas de palavras significativas para os católicos que naquela altura se opunham ao regime, muitas delas proferidas na vigília do final do ano de 1972, a propósito do Dia Mundial da Paz: mudança, democracia, liberdade, direitos, justiça, diversidade, união, esperança, paz… Palavras que estão a lembrar direitos mas também os deveres de todos, recordou ainda Cristina Ataíde.

Capela do Rato, Memorial, Arte, Escultura, Cristina Ataíde, Guerra Colonial

Palavras que evocam direitos e deveres, disse a artista sobre as inscrições no pavimento. Foto © Cláudia Teixeira/Comissão Comemorativa 50 anos 25 Abril

A iniciativa de Dezembro de 1972 foi “um elemento catalisador para a mudança”, afirmou o presidente da Junta de Freguesia de Santo António, Vasco Morgado. E, se “há momentos em que os sinais de mudança se tornam perceptíveis, a vigília da Capela do Rato foi um deles”, acrescentou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas. Esse final de 1972 foi um “momento único” numa altura em que o país tinha “medo”, estava “amordaçado”, para usar a expressão de Mário Soares – e “os que fizeram a vigília disseram que não tinham medo”, acrescentou o autarca.

Moedas afirmou ainda que o memorial agora inaugurado dá a “importância e dignidade” que a vigília merece e inscreve “a audácia de derrubar” muros: “Aos católicos [que organizaram a vigília] juntaram-se outros”, tornando claro que a liberdade era um anseio “de todos”, disse, para acrescentar vários episódios importantes na luta de grupos católicos contra o regime: o manifesto de 1959 denunciando a violação de direitos humanos, os padres de Moçambique que contestaram a cumplicidade da hierarquia com o regime, a Cantata da Paz (“Vemos, ouvimos e lemos”) na vigília de São Domingos, a mensagem do Papa Paulo VI que dizia que a paz é possível e obrigatória – uma mensagem que se deve repetir num tempo em que a guerra voltou à Europa, sublinhou o presidente da Câmara.

 

Deus na democracia

O ministro Pedro Adão e Silva afirmou ser com uma “enorme satisfação” que participava naquele que era um dos últimos actos públicos das suas funções governativas. Recordando também as palavras do Papa Paulo VI na mensagem do Dia Mundial da Paz para 1 de Janeiro de 1973, evocou também a audiência que o papa de então concedeu aos líderes dos movimentos de libertação que lutavam pela independência das então colónias portuguesas. Um gesto que mostrou que era possível ser-se católico e opositor do regime.

Pedro Adão e Silva leu ainda o poema de Ruy Belo, Nós, os vencidos do catolicismo:

Nós os vencidos do catolicismo
que não sabemos já donde a luz mana
haurimos o perdido misticismo
nos acordes dos carmina burana 

Nós que perdemos na luta da fé
não é que no mais fundo não creiamos
mas não lutamos já firmes e a pé
nem nada impomos do que duvidamos

Já nenhum garizim nos chega agora
depois de ouvir como a samaritana
que em espírito e verdade é que se adora
Deixem-me ouvir os carmina burana


Nesta vida é que nós acreditamos
e no homem que dizem que criaste
se temos o que temos o jogamos
“Meu deus meu deus porque me abandonaste?”

Concluiu o ministro: “Para os crentes, 50 anos passados, Deus não nos abandonou na democracia que temos e na paz que é possível.”

O memorial da vigília ali fica, à vista de todos, para tornar presentes essa presença.

 

Capela do Rato, Memorial, Arte, Escultura, Cristina Ataíde, Guerra Colonial

O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, e o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, a descerrarem a lápide de inauguração do memorial. À esquerda, a presidente da Comissão Comemorativa 50 anos 25 Abril, e a artista, Cristina Ataíde. Foto © Cláudia Teixeira/Comissão Comemorativa 50 anos 25 Abril

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