A violência doméstica

| 22 Jan 20

No início da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, e em boa hora, a Comissão Ecuménica do Porto – diocese do Porto da Igreja Católica Romana, Igreja Lusitana (Comunhão Anglicana), Capelania Inglesa da Igreja Anglicana do Porto e igrejas Metodista, Evangélica Luterana, Ortodoxas dos Patriarcados de Moscovo e Kiev –, decidiu invocar que a violência doméstica não entre “nas nossas casas e todos vivam em paz”, por um amor livre e comprometido, gratuito e que sabe receber, intenso e equilibrado, apaixonado e consciente, mais entregue do que pedido, mais doado do que um direito.

A decisão de em todos os templos se referirem os casos de “violência doméstica” é perfeitamente oportuna, tendo também em consideração que muitas vítimas da violência doméstica – normalmente mulheres –, serão cristãos e quem a executa também. Mesmo que não o sejam, é urgente que em unidade ecuménica todos se coloquem de acordo e façam ora+ação. Daí a pertinência e a urgência de concertadamente se dar visibilidade à posição das várias tradições religiosas de que não estão alheias ao “situado” histórico.

A família é um agregado de pessoas unidas por um querer comum, exatamente como a Igreja, agregado, que em nome de Jesus, reparte o pão e o vinho, às mulheres e aos homens. Assim a Igreja também é uma família, onde pode existir “violência doméstica”, dado que esta contém muitas formas de se observar. Não se pode traduzir “violência doméstica” só em maus tratos ou mortes corporais, mas ela tem uma latitude que pode não passar por tribunais ou hospitais ou cemitérios. Quanta violência doméstica é psíquica ou moral, o “colocar de lado”, o pensar que a mulher é estruturalmente disforme e, portanto, tem diferentes funções ditas “menos qualificadas”.

Sendo a Igreja, a comunidade cristã, uma grande família, sou levado a pensar se dentro dela não haverá discriminação negativa no referente às mulheres, e logo uma contínua e continuada “violência doméstica”. Não o digo em todas as confissões signatárias da oração dirigida a Deus, na semana da unidade contra a “violência doméstica”, mas posso referir-me muito concretamente à Igreja Católica Romana.

Colocando de fora as mulheres do diaconado, presbiterado e bispado, não existirá uma clara “violência doméstica” dentro da Igreja e que nunca Jesus sufragou? Antes pelo contrário: é só ler a cena de Marta e Maria. E, nos primórdios da Igreja, temos tantos exemplos como Ana, Teodora, Ausónia, Sigolena, Emengaud, que foram ordenadas. Mas mesmo que não fossem, estamos numa outra história situada num tempo onde o Espírito do Senhor atua, e não quer “violência doméstica”.

Há – digo eu, que nada sou –, violência doméstica psíquica, que também é corporal, e talvez mais dura, à recusa da ordenação das mulheres e só por uma questão disciplinar – não é bíblica, nem teológica, nem doutrinal, nem do “baú da Igreja”. Nunca poderemos evangelizar se não nos deixarmos evangelizar. É de uma importância vital acabarmos com esta “violência doméstica” dentro da Igreja Católica Romana, no que diz respeito às mulheres, para falarmos à humanidade na ignomínia que é a “violência doméstica”, sobre as mulheres. As mulheres e os homens de hoje nunca compreenderão a nossa mensagem se não alterarmos a nossa forma de proceder.

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

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