A Virgem de Vladimir e o risco de uma guerra

| 20 Fev 2022

O Patriarca Ecuménico Bartolomeu entrega o Thomos de autocefalia da Igreja Ortodoxa da Ucrânia ao metropolita Epifânio, primaz da Igreja Ortodoxa da Ucrânia, em 6 de Janeiro 2019. Foto © President.gov.ua, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

 

Num panorama de guerra entre a Rússia e a Ucrânia, a atenção mundial tem estado virada para a política envolvente destas dinâmicas, tentando procurar um contexto histórico-político e social de origem desta conflitualidade.

É óbvio que, para os leitores, o título deste artigo poderá parecer um pouco desajustado, porque hoje já não se fazem guerras em torno de ícones religiosos e da própria confissão religiosa de sociedades. Pelo menos, para nós, europeus, o conceito de guerra santa é muito distante, quer no tempo, quer no espaço. No entanto, o tom provocatório deste título abre um enorme espaço, deveras, uma “caixa de Pandora”, que nos poderá permitir perceber melhor o que está por detrás das relações que, desde tempos primordiais, tem tido um impacto importante na formulação das sociedades e dos países da Europa de Leste.

Para além de um conflito armado já existente no leste da Ucrânia, e o risco de uma invasão russa, existe um outro conflito: trata-se da concorrência entre as Igrejas Ortodoxa Russa e Ucraniana.

Em 2019, a Igreja Ortodoxa Ucraniana tornou-se oficialmente autocéfala, através do Thomos (“Decreto”) patriarcal, do Patriarca Ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu I. No entanto, conforme ditam os cânones ortodoxos, a autocefalia de uma Igreja Ortodoxa, para se considerar completa, deve ser reconhecida por todas as outras Igrejas Ortodoxas. Neste panorama, a Igreja Ortodoxa Ucraniana não teve o reconhecimento do Patriarcado de Moscovo, que continua a ter a adesão de algumas das principais paróquias da Ucrânia e uma comunidade aderente numerosa, não sendo, ainda assim, superior à da Igreja Ortodoxa Ucraniana.

Obviamente que para a Rússia, país com um poder político baseado em valores conservadores e religiosos e onde a ligação entre a Igreja e o Estado é muito presente, haver uma Igreja autocéfala na Ucrânia, país do qual Moscovo precisa como seu aliado próximo e totalmente alinhado com as suas conceções, é um perigo. Um perigo para Moscovo que para os ucranianos representa uma oportunidade de reforçar a sua luta constante para a autodeterminação da sua nação.

 

Ícone da Virgem de Vladimir

Por detrás das razões puramente políticas nesta situação, existe também um conjunto de fatores culturais e religiosos. Assim, neste espaço, tentarei acrescentar uma envolvente religiosa a uma conflitualidade evidente e permanente em duas sociedades (a ucraniana e a russa), partindo de um evento histórico, ocorrido em meados do séc. XII: o sequestro do Teótoco de Vladimir (ou Nossa Senhora de Vladimir), que estava exposto em Kyiv [Kiev].

No séc. XII, a Europa de Leste era dominada por um poderoso império Rus (ou Ruteniano, conforme a tradução latinizada da palavra), que se prolongava desde o Mar Báltico até ao Mar Negro e servia de comunicação entre os povos nórdico e a poderosa capital bizantina, Constantinopla.

Internamente, tratava-se de uma aliança de ducados, sob a hegemonia do grão-ducado de Kyiv, que era escolhido de entre os vários duques por uma assembleia (Vitche). Este esquema político, onde não havia propriamente o direito de sucessão hereditário, levava a que os momentos de escolha do novo grão-duque levassem a muitos confrontos e guerras civis.

Em 1149, o trono do grão-ducado de Kyiv é tomado por Jorge I de Kyiv, também conhecido por Jorge Longímano (Iuri Dolgorukii) que ocupa o lugar de grão-duque até 1150 e depois, desde 1155 até 1157, ano em que morre. Nesse ano, é escolhido um novo grão-duque, Izaslav III, que fica no poder até 1169, ano em que o filho de Jorge Longímano, André I de Vladimir, conhecido por André de Bogoliubovo, duque de Vladimir-Susdália, um ducado muito longínquo (até essa altura, considerado como uma colónia do Império Ruteniano) ataca Kyiv, destrói grande parte da cidade e sequestra o Teótoco de Vyshgorod  (Nossa Senhora da Cidade Alta de Kyiv), de onde este vai para Vladimir, a capital do Ducado de André I, onde passa a ser denominado e mundialmente conhecido como Teótoco de Vladimir.

Será pertinente contextualizar de que se trata o Teótoco de Vladimir. A própria palavra “Teótoco”, do grego, significa “Portadora de Deus” ou “Mãe de Deus” e o ícone em questão é, de acordo com as crenças cristãs ortodoxas, o primeiro ícone a ser feito na História, desenhado pelo apóstolo Lucas Evangelista, numa placa retirada de uma mesa sob a qual Nossa Senhora e Jesus Cristo se sentavam.

Por volta de 450, este ícone viajou de Jerusalém para Constantinopla e já por volta de 1156, o Patriarca de Constantinopla, Lucas Crisoberges, enviou o ícone ao grão-duque Jorge Longímano.

 

Ilustração: Klavdiy Lebedev, Baptismo da Rus’ de Kiev (Ruténia), pintura do final do séc. XIX (Public domain, via Wikimedia Commons).

 

Traçado o caminho feito pelo ícone, que atualmente está na Galeria de Tretyakov, em Moscovo, é importante explicar a sua importância para a Rússia e para a Ucrânia.

Antes de atacar e destruir Kyiv, em 1162, André de Bogoliubovo enviou uma embaixada a Constantinopla, capital do Império Bizantino, com o objetivo de obter o direito de criar a sua própria sé metropolitana independente em Vladimir, com o reverendo Teodoro como metropolita, algo que lhe foi negado. Após ter atacado Kyiv, André não permaneceu na cidade, mas proclamou-se grão-duque e voltou para Vladimir, querendo, desta forma, tornar Vladimir na capital do imenso Império Ruteniano e, assim, fazer com que o metropolita de Kyiv tivesse que ir para Vladimir, tornando a cidade no centro religioso do cristianismo ortodoxo Ruteniano.

É perfeitamente legítimo questionar a ligação consequencial de um acontecimento do séc. XII, num país que hoje só existe na memória e em relatos literários, com o risco da escalada de uma nova guerra global entre a Ucrânia e a Rússia. E de facto, esta situação não o explica. O que realmente aqui se traz à discussão é o momento chave em que se formularam as pretensões políticas de uma sociedade (diga-se russa) face ao pensamento político de outra (neste caso, evidentemente, a ucraniana).

Contudo, este impacto não se vê só na construção política de uma sociedade, mas também na formulação das estratégias de expansão que a Igreja Ortodoxa Russa tem na Ucrânia. A Igreja Ortodoxa Russa, contrariamente à sua própria retórica, nasceu no século XVIII, quando Pedro I da Rússia venceu uma guerra contra o Império Otomano e obrigou o sultão a pressionar o Patriarca de Constantinopla para este emitir o Thomos, através do qual a própria obteve a autocefalia. Porém, assume a sua formulação com o Batismo da Ruténia, em 988, pelo grão-duque de Kyiv, Volodymyr, o Grande. Assim, Moscovo procura uma retórica civilizacional contínua no espaço e no tempo, de uma sociedade russa moderna que tem as suas raízes numa sociedade cita, ainda do período pré-Clássico (no séc. VIII a.C.), passa pelo período Ruteniano, formula-se na Rússia Imperial, na URSS e, finalmente, renasce com a Federação Russa.

Através de uma interpretação deste facto histórico, das suas consequências e do seu impacto, segue-se uma questão importante que pode ser colocada como conclusão deste artigo: Serão as nossas crenças, crenças humanas, fortes o suficiente para nos fazer entrar em conflito com outros homens simplesmente pela busca da verdade absoluta?

 

Vitaliy Venislavskyy nasceu na Ucrânia, vive em Portugal e estuda no mestrado Interuniversitário de História Militar, em Lisboa.

 

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total”

Diretor d'A Economia de Francisco, em Assis, ao 7M

Luigino Bruni: “Se organizarmos a JMJ Lisboa como há dez anos, será um falhanço total” novidade

Professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma, e consultor do Dicastério para os Leigos, Luigino Bruni é um apaixonado pela Bíblia e pelo cruzamento entre disciplinas como a Ética e a Economia. No final do encontro global d’A Economia de Francisco, que decorreu entre os passados dias 22 e 24 de setembro em Assis, falou ao 7MARGENS sobre o balanço que faz desta iniciativa, e deixou alguns conselhos aos organizadores da Jornada Mundial da Juventude 2023, que irá realizar-se em Lisboa.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

Índia

Carnataca é o décimo Estado a aprovar lei anticonversão

O Estado de Carnataca, no sudoeste da Índia, tornou-se, no passado dia 15 de setembro, o décimo estado daquele país a adotar leis anticonversão no âmbito das quais cristãos e muçulmanos e outras minorias têm sido alvo de duras perseguições, noticiou nesta sexta-feira, 23, o Vatican News, portal de notícias do Vaticano.

Neste sábado, em Lisboa

“Famílias naturais” em convívio contra a ideologia de género

Prometem uma “tarde de convívio e proximidade”, um concerto, diversão e “múltiplas actividades para crianças e adultos: o “Encontro da Família no Parque” decorre esta tarde de sábado, 24 de Setembro, no Parque Eduardo VII (Lisboa), a partir das 15h45, e “pretende demonstrar um apoio incondicional à família natural e pela defesa das crianças”.

Gratuito e universal

Documentário sobre a Laudato Si’ é lançado a 4 de outubro

O filme A Carta (The Letter) será lançado no YouTube Originals no dia 4 de outubro, anunciou, hoje, 21 de setembro, o Movimento Laudato Si’. O documentário relata a história da encíclica Laudato Si’, recolhe depoimentos de vários ativistas do clima e defensores da sustentabilidade do planeta e tem como estrela principal o próprio Papa Francisco.

Prémio D. António Francisco homenageou pediatria e Serviço Nacional de Saúde

Ala pediátrica do São João e Centro Materno Infantil

Prémio D. António Francisco homenageou pediatria e Serviço Nacional de Saúde novidade

A ala pediátrica do Centro Hospitalar Universitário de São João e o Centro Materno Infantil do Norte (CMIN) receberam, ao início da tarde desta segunda-feira, o Prémio D. António Francisco correspondente à edição deste galardão para o ano de 2020. Em virtude da pandemia, o prémio só agora foi entregue, em cerimónia que decorreu no Palácio da Bolsa, no Porto. Ambas as entidades foram consideradas pelo júri como cumprindo “de forma exemplar os valores do Prémio”, que com esta atribuição fqaz também um “reconhecimento público ao Serviço Nacional de Saúde, pelo esforço desenvolvido na resposta à pandemia”.

Agenda

Fale connosco

Autores