A cobertura nos meios de comunicação social portuguesa da visita de Leão XIV a África, em especial a Angola, contou com os contributos de várias perspetivas: a da crónica social e política dos países que o Papa visitou; a dos vaticanistas; a das tensões entre a pastoral religiosa, os processos económicos e os poderes políticos. A esta última perspetiva não faltaram frases a suscitar comentário, com especial destaque para as declarações de Leão XIV contra a «lógica extractivista» e a necessidade de superar um modelo de «desenvolvimento que discrimina e exclui».
No entanto, creio que houve algum défice de análises da viagem no Papa numa perspetiva de memória histórica, défice que contrasta com o espaço que têm ultimamente ocupado no espaço público questões como as implicações da identidade católica, o legado do colonialismo e o que podemos fazer com a memória histórica da escravatura promovida pelos portugueses. Não li ou vi muitos comentários sobre a conexão entre todas estas questões e uma visita de Leão XIV tão densa no seu simbolismo.

Aclamações de fiéis ao Papa Leão XIV em Saurimo, Lunda Sul (Angola), na missa ali presidida pelo Papa em 20 Abril 2026. Foto reproduzida da página do FB do Governador Gildo Matias José.
A dificuldade portuguesa em ver a visita de Leão XIV a Angola na perspetiva de uma memória histórica contrasta com a forma como foi reportada e comentada a mesma visita nos Estados Unidos. Na imprensa católica deste país (por exemplo, no National Catholic Reporter que tem vários artigos sobre o tema online), onde o Papa nasceu, foi lembrado que, quando Joe Biden visitou Angola em 2024, declarou que a escravatura era o «pecado original» da América. Vários artigos foram publicados sobre um facto que tem passado quase despercebido nos meios de comunicação social portuguesa: Leão XIV é um afrodescendente. Os seus bisavós maternos casaram em 1887 em Nova Orleães e estão classificados nos arquivos como «crioulos» ou «negros» do Louisiana. Foi em 1910 que os avós de Robert Prevost foram para Chicago, onde o atual Papa nasceu em 1955.
Não só a proveniência familiar de Robert Prevost o liga a África, como o seu percurso de vida reforçou esses laços. Ingressou na ordem dos Agostinianos, uma ordem religiosa que tem a sua referência em Santo Agostinho (554-430), nascido na Numídia, uma província romana africana e bispo de Hipona, uma cidade do Norte de África. Como prior geral dos agostinianos, Robert Prevost já visitou bastante África, onde os missionários desta ordem trabalham em diversos países. A escolha do nome Leão XIV foi, obviamente, relacionada pelos comentadores com o legado do Papa Leão XIII (1810-1903), que ficou conhecido pelo impulso que deu à Doutrina Social da Igreja com a encíclica Rerum Novarum, de 1891. Nesta encíclica o Papa procura responder às questões sociais criadas pela Revolução Industrial. É legítimo pensar que Leão XIV pretende atualizar a Doutrina Social da Igreja defendendo a dignidade do trabalho num contexto de grandes transformações económicas. Mas esta interpretação pode ser complementada por outra: Leão XIII foi o primeiro Papa a condenar explicitamente a escravatura nas encíclicas In Plurimis (1888) e Catholicae Ecclesiae (1890).
A recitação do terço por Leão XIV no santuário mariano de Muxima, em Angola, foi comentada em Portugal de um ponto de vista religioso e de crítica às chocantes injustiças da sociedade angolana. Na imprensa católica norte-americana, as análises não se ficaram pelo presente, remontaram ao passado, lembrando que Muxima era um posto de tráfico de escravos. A Igreja de Nossa Senhora de Muxima, construída por portugueses no final do século XVI, era onde os escravos eram batizados antes de serem enviados para Luanda e colocados em barcos que os levavam para a América. Dado Leão XIV ser um afrodescendente, que eu saiba, não se pode excluir a hipótese de um dos seus antepassados ter sido batizado em Muxima. Penso que o comentário teológico mais apropriado a esta hipótese é uma frase da sabedoria popular: «Deus escreve direito por linhas tortas».

Antes do discurso do Papa, os testemunhos da realidade local (@Vatican Media)
A lógica extractivista que discrimina e exclui, criticada pelo Papa, não surgiu ontem; tem uma longa genealogia, indissociável da esperança dos discriminados e dos excluídos. A escravatura foi uma das aplicações mais brutais da lógica extractivista e é espantoso que, apesar da violência psicológica das conversões, a fé tenha sobrevivido, continuado e crescido. Hoje, a África é um continente onde vive um quinto dos católicos e, tudo o indica, uma parte ainda maior dos jovens católicos. A demografia indica-nos que o futuro do catolicismo passa por África e a memória histórica permite-nos descortinar um sentido nesse futuro.
João Miguel Almeida é professor auxiliar convidado da Universidade Aberta, investigador integrado do Instituto de História Contemporânea (IHC/NOVA) e investigador associado do Centro de Estudos de História Religiosa (UCP – Universidade Católica Portuguesa).
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