A visita do Papa Leão XIV a Espanha tem recebido, sobretudo desde o fim de Maio, uma enorme atenção da imprensa do país. As páginas dos jornais passaram, sem interrupções, da abundante informação sobre a encíclica Magnifica Humanitas aos inúmeros textos de antecipação da visita e do que ela pode vir a representar. O último domingo de Maio foi particularmente fértil em notícias e reflexões sobre Leão XIV e os efeitos da visita que está desde sábado, 6, a fazer a Madrid, a Barcelona e às ilhas Canárias.
O diário madrileno El Mundo, por exemplo, ofereceu aos leitores um suplemento de 48 páginas.

O diário madrileno El Mundo ofereceu aos leitores um suplemento de 48 páginas.
A visita papal proporcionou destaques algo imprevisíveis, O suplemento cultural Babelia, que o diário El País inclui nas edições de sábado, tinha, no dia 30 de Maio, como tema principal “o imaginário crítico e histórico sobre a figura papal”, socorrendo-se da literatura, do cinema e das artes plásticas, “de Dante a Gide, de Velázquez a Bacon ou de Dan Brown a Sorrentino”. A ocupar toda a primeira página, a obra “Estudo para um retrato II”, que o pintor Francis Bacon executou em 1956. Ocupando um amplo espaço na página 2, surge a ilustração de Gustave Doré para a Divina Comédia que mostra Dante a repreender o Papa Nicolau III. Neste exaustivo recenseamento da presença dos papas na cultura, há uma referência a Francisco, considerado como o Papa que mais gostou de literatura, tendo-a ensinado na Argentina. Os papas que se corresponderam com grandes escritores e os que escreveram poesia – como João Paulo II – também são mencionados.
Sobre Leão XIV, também há reportagens inesperadas, como a que, para o diário ABC de domingo, Beatriz L. Echazarreta fez em Isla, na Cantábria, por ser o lugar onde viveram os antepassados maternos mais antigos de Robert Francis Prevost. A notícia de que eles eram de Isla, no município cantábrico de Arnuero, tinha sido dada pelo diário The New York Times. A seguir, foi confirmada localmente nos livros paroquiais. Agora, os habitantes da povoação situada entre o mar e a montanha anseiam por que o Papa os visite um dia, assim como à “pia baptismal onde os antepassados do sucessor de Pedro receberam o primeiro sacramento”, exibida numa das imagens que acompanha o trabalho jornalístico.
Um olhar estrangeiro
O ABC não ignorou a comunidade com a qual o Papa partilha a nacionalidade e foi apurar o que os peruanos de Madrid pensam da vinda a Madrid do antigo bispo de Chiclayo. Uma das pessoas inquiridas disse, previsivelmente, que “é como se viesse um familiar ou um amigo próximo”.

O suplemento cultural Babelia, que o diário El País inclui nas edições de sábado, tinha, no dia 30 de Maio, como tema principal “o imaginário crítico e histórico sobre a figura papal”.
As dez páginas que o jornal dedica à visita oferecem abordagens diversas, incluindo uma entrevista com Juan Vicente Boo, autor de um livro sobre Leão XIV, intitulado O Papa da nova era. “Este é o Papa que chega com maior conhecimento do planeta porque esteve em quase todo o lado”, diz o entrevistado, lembrando que, enquanto prior geral da Ordem de Santo Agostinho, Robert Francis Prevost esteve em 46 países. “Sob a aparência de serenidade, há uma actividade intensíssima e uma capacidade de viajar enorme”. Juan Vicente Boo refere que Leão XIV viajava de avião durante a noite e trabalhava durante o dia. Mas a noite também podia ser aproveitada para escrever relatórios ou homilias. E também gostava de conduzir. “Deslocava-se, sem secretário, sem ajudantes, no seu veículo, aparecendo nos lugares, quase como o enviado especial de um jornal a lugares difíceis”.
“Uma viagem imensa para falar ao mundo inteiro”, diz o título do extenso suplemento do jornal El Mundo de 31 de Maio sobre a visita de Leão XIV a Espanha. As 48 páginas incluem matérias variadas: desde infografias com os principais actos presididos pelo pontífice até análises sobre as eventuais consequências políticas, sociais e religiosas da “viagem histórica num momento decisivo”.
A findar, há um olhar estrangeiro. Aldo Cazzullo, jornalista e subdirector do diário italiano Corriere della Sera, constata a profunda transformação religiosa de Espanha. O país passou “de uma terra profundamente católica a um lugar descristianizado”. Passou-se o mesmo em Itália, mas aqui, diz o jornalista, “a Igreja continua a ter relevância, incluindo na política”. Nota Aldo Cazzullo que nenhum político italiano se declararia ateu, como o fez o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez. “Não porque todos os políticos italianos creiam em Deus, mas porque declarar-se ateu é inapropriado.”
O subdirector do Corriere della Sera acrescenta, todavia, que, também em Espanha, se verificam “indícios de um despertar espiritual”, sumariados na reportagem intitulada “Uma epifania cultural em Espanha”.
A viagem do Papa coincide com a publicação de Magnifica Humanitas, afirma Aldo Cazzullo, convencido de que a encíclica “se situará entre as mais importantes da História, juntamente com Pacem in Terris, de João XXIII, e Humanae Vitae, de Paulo VI”. Espera, por isso, que “as palavras do pontífice prevaleçam sobre os interesses dos seus (poucos mas muito poderosos) compatriotas. O que está em jogo hoje é a dignidade da espécie humana; amanhã, a sua própria sobrevivência”.
A encíclica mostra devidamente que, como escreve Roberto Benito, subdirector do jornal El Mundo, o Papa “não virará as costas a nem um só dos grandes debates da sociedade actual. Os espirituais, claro, mas também os culturais, os políticos, os sociais e os económicos”. Para os jornalistas, é uma boa notícia.










