Que difícil é entender a simplicidade do que escreveu o Papa Francisco na sua autobiografia, “Esperança” (2025), à luz das imagens da televisão do Papa Leão XIV, na sua missa inaugural, mas não só, rodeado por tantos cardeais, bispos, padres, todos homens.
”A Igreja é mulher, não é homem. Nós, clérigos, somos homens, mas nós não somos a Igreja. A Igreja é mulher porque é esposa. E é o santo povo fiel de Deus: homens e mulheres em conjunto. Por isso, identificar critérios e modos novos para que as mulheres sejam cada vez mais plenamente participantes e protagonistas nos vários âmbitos da vida social e eclesial, para que a sua voz tenha cada vez mais peso e a sua autoridade seja cada vez mais reconhecida, é um desafio cada vez mais urgente. Devemos avançar.” (p. 216)
Dá depois exemplos de cargos de responsabilidade que foram atribuídos a mulheres por ele no Vaticano, incluindo no dicastério para a escolha dos novos bispos de que era responsável o Papa Leão XIV, agora eleito, e acrescenta ainda:
”Se nós, clérigos, não conseguimos perceber o que é uma mulher, o que é a teologia de uma mulher, nunca perceberemos o que é a Igreja. Um dos grande pecados que cometemos foi ‘masculinizá-la’. Devemos, por isso, ‘desmasculinizar’ a Igreja. Sabendo, porém, que ‘masculinizar’ a mulher não seria nem humano, nem cristão, pois o outro grande pecado é, certamente, o clericalismo.” (p.216)
E continua afirmando que Maria é mais relevante do que Pedro, sublinhando que o carácter místico da mulher é mais importante do que o ministério.

A invisibilidade das mulheres nestas celebrações da Igreja é impossível de esconder: entra-nos pelos olhos dentro, pela alma dentro. Um gigante paradoxo. Fica um vazio frio e incompreensível, o da exclusão, desta “grande tenda de campanha”. Não basta uma leitura feita por uma irmã. Não basta uma irmã nos cumprimentos. Não bastam os casais no ofertório.
Esse já é um filme muito antigo e de outros tempos. É imprescindível continuar a abrir os caminhos iniciados pelo Papa Francisco, com coragem e uma clarividência inspirada. É urgente valorizar e dar visibilidade aos papéis que muitas mulheres, nos mais diversos domínios da Igreja, desempenham. Dos estudos teológicos e da evangelização em zonas recônditas aos cuidar dos mais necessitados, passando pela catequese, pelo serviço comunitário e do altar. Já acontece em muitas outras Igrejas cristãs com mulheres ordenadas como bispos, padres ou diáconos, mas não só. Também nas sinagogas há atualmente mulheres rabinas. Todas verdadeiras profetas de um novo tempo que já aí está.
Escreve ainda Francisco:
“(…) em outubro de 2024, no documento do encerramento do Sínodo sobre sinodalidade, (…). considerando-o imediatamente operativo, não há razões que impeçam as mulheres de assumir papéis de liderança na Igreja: não se poderá parar aquilo que vem do Espírito Santo. Até a questão do acesso das mulheres ao ministério diaconal, em relação à qual convém prosseguir o discernimento, fica aberta ao estudo.” (p.217)
Sem que a Igreja saiba dar continuidade ao caminho de abertura, de equidade e de inclusão de TODOS! TODOS! TODOS!, inspirada pelo legado do Papa Francisco, muitas mulheres como eu, vamo-nos sentindo cada vez mais postas à margem, excluídas.
A urgência da continuidade do caminho de abertura começado pelo Papa Francisco impõe-se a cada dia que passa com maior clareza.
Para o Papa Leão XIV e para a Igreja, desejo sinceramente que seja inspirado pelo Espírito Santo, pelo legado do Papa Francisco e por uma “Igreja que a todos – e todas – acolhe a abençoa”, especialmente aqueles e aquelas em situação de maior vulnerabilidade.
Referência:
Francisco (2025). Esperança: A Autobiografia. Penguim Random House Grupo Editorial, Unipessoal, Lda
Margarida Belchior é professora, Sociodramatista e Investigadora.










