[À volta do 1º de Maio] É tempo de resgatar o trabalho digno

| 2 Mai 21

1º DE MAIO 2017 Lisboa

“Democratizar a gestão das empresas, valorizar o trabalho humano e reconhecer que o trabalho é fonte de vida, (…) é um imperativo do presente e do tempo pós-pandemia.” Foto: 1º de Maio 2017, Lisboa. © Rui Ornelas / Wikimedia Commons

 

O respeito pela dignidade humana e pelo bem comum universal, são princípios fundamentais do Ensino Social da Igreja e devem prevalecer na organização do trabalho. As empresas têm a responsabilidade de criar empregos, de partilhar a riqueza, equitativamente, e favorecer a prosperidade de forma sustentável. Trata-se de uma responsabilidade social e ambiental, que nestes tempos de pandemia assume contornos ainda mais emergentes.

Democratizar a gestão das empresas, valorizar o trabalho humano e reconhecer que o trabalho é fonte de vida, de doação, de autonomia financeira e de humanização universal, é um imperativo do presente e do tempo pós-pandemia.

Tensões e incertezas

Este tempo de pandemia, presente nas nossas vidas há mais de um ano, revelou-nos como algo pequeno e invisível aos nossos olhos pode afetar a confiança no imediato e no futuro. Esta nova realidade alterou profundamente a normalidade da nossa vida de trabalho e do nosso ambiente familiar. Parou economias a nível mundial. Obrigou-nos ao confinamento, a obedecer às regras de distanciamento entre pessoas, ao uso de máscaras e forçou o teletrabalho para milhões de trabalhadores em todo o mundo. Se considerarmos que o trabalho humano, para além do sustento económico, é promotor das relações humanas, dos laços sociais e da organização coletiva, poderemos constatar que o teletrabalho afetará a dimensão da sociabilidade e da solidariedade entre os trabalhadores.

Nesta pandemia podemos antever que muitas das angústias e das fragilidades sentidas pelos trabalhadores e suas famílias, derivaram de mutações verificadas no mundo do trabalho nas últimas décadas, principalmente, nos retrocessos em direitos laborais, desregulamentação da organização do trabalho e na falta da uma proteção social mais robusta e universal. Os trabalhadores com baixos rendimentos, com vínculos instáveis, com empregos periféricos no sector informal da economia, de trabalho não declarado, foram os primeiros a ficar sem qualquer rendimento ou apoio, porque muitas destas atividades são executadas à margem da proteção social e da legalidade laboral. Mas estas atividades laborais tão precárias, são, quase sempre, o resultado de vidas inteiras de trabalho, marcado pela incerteza, pela insegurança e pela imprevisibilidade do futuro.

 

Realidade laboral galopantemente precarizada

É difícil, num mundo globalizado e complexo, equacionar todas as dimensões e problemas que se colocam aos que persistem em acreditar que é possível um mundo mais justo, mais solidário e sustentável para todas as pessoas. As mudanças profundas, no mundo do trabalho e na sociedade, provocadas pelo desenvolvimento científico e pela tecnologia digital, trouxeram muitos novos benefícios para as populações. Mas trouxeram, igualmente, novas tensões na organização do trabalho, provocando mais precariedade, redução nos salários, instabilidade e insegurança nos vínculos e nos direitos laborais.

Os custos reais desta pandemia nas relações afetivas e na sociabilidade ainda não são bem conhecidos. Mas os custos sociais e económicos, na vida dos trabalhadores e das suas famílias, esses, são já bem visíveis entre nós. As situações de desemprego e o aumento muito significativo da pobreza está mais generalizado, são bem reais e podem ensombrar o nosso futuro e o futuro das próximas gerações.

Necessitamos de pensar como queremos ou como vamos sair desta pandemia: Mais próximos e solidários uns dos outros, local e globalmente? Mais comprometidos com as estruturas associativas, políticas e sindicais que fortaleçam o diálogo social, a inclusão e equidade sociais? Penalizando o poder financeiro e a economia de mercado, que desregulamenta e mercantiliza os direitos laborais e os trabalhadores e se apodera impunemente das riquezas geradas pelo trabalho? Ou conformados e indiferentes, deixando os outros decidirem e realizarem por nós?

 

Audácia na reorganização do trabalho
Direitos Reservados

Cartaz do MMTC para o 1º de Maio: “As nossas convicções humanas e cristãs impelem-nos a sermos audazes e a exigir uma nova organização, assente na dignidade e no respeito dos direitos laborais”. 

 

As nossas convicções humanas e cristãs impelem-nos a sermos audazes e a exigir uma nova organização do trabalho, assente na dignidade e no respeito dos direitos laborais, a saber:

  • Que redistribua justa e equitativamente a riqueza proveniente do trabalho; comporte horários compatíveis com a vida pessoal e familiar; reforce a proteção social e a universalize; aproxime as necessidades de produção com as reais necessidades do consumo das pessoas e das comunidades.
  • Que estimule empresas e líderes empresariais a reconhecerem o valor ético e democrático na gestão e na responsabilidade empresarial. A pensar a empresa como comunidade de pessoas, onde se manifestam, com normalidade, o respeito pela dignidade e humanidade de cada trabalhadora e trabalhador. Apostar no diálogo social, na escuta das propostas dos trabalhadores e dos sindicatos e adotar a contratação coletiva como meio de equilibrar as forças entre o trabalho e o capital.
  • Que exija um sistema tributário mais justo e equitativo, como um dever cívico das pessoas, de responsabilidade social e ética das empresas e de todos os sectores económicos e financeiros do Estado. Beneficie e reforce os serviços públicos essenciais como a saúde, a educação e a proteção social, entre outros. Combata a fuga aos impostos e os paraísos fiscais em nome do compromisso cívico e ético, da responsabilidade civilizacional e do bem comum universal.
  • Que fortaleça os sindicatos e o movimento sindical, valorizando o seu papel decisivo na defesa dos direitos e nas conquistas laborais. Os mesmos tenham a força e confiança dos trabalhadores para reivindicar empregos com segurança e direitos; para exigir a eliminação do trabalho precário e sem vínculo; para negociar uma transição para a era digital mais justa, que implique educação e aprendizagem ao longo da vida, universal e inclusiva. Se reafirmem nas lutas, nas reivindicações e nas negociações a centralidade da pessoa humana e o direito a um trabalho digno, priorizando o trabalho sobre o capital e as finanças e o combate às gritantes desigualdades sociais entre países e continentes.

 

Desafios emergentes

No seu livro Sonhemos Juntos, o Papa Francisco alerta e desafia-nos, ao afirmar: «O mercado é uma ferramenta para o intercâmbio e a circulação de bens, para estabelecer relações que nos permitem crescer e prosperar e para ampliar as nossas oportunidades. Mas os mercados não se governam a si mesmos. Precisam de estar cimentados em leis e regulamentações que assegurem o seu desempenho em função do bem comum. O mercado livre é tudo menos livre para inúmeras pessoas, principalmente para os pobres que, na prática, acabam por ter poucas ou nenhumas opções…a solidariedade não é partilhar as migalhas da mesa, mas fazer com que, na mesa, haja lugar para todos. A dignidade dos povos é um chamamento à comunhão: partilhar e multiplicar os bens e a participação de todos e para todos».

Por isso, contra o conformismo, o individualismo e as desigualdades, os desafios passam:

  • Pelo compromisso com mais justiça social, mais e melhor aplicação dos direitos laborais.
  • Pela reafirmação da centralidade da pessoa humana e do direito a um trabalho digno.
  • Pela prioridade do trabalho sobre o capital e o mercado financeiro.
  • Pelo combate às gritantes desigualdades sociais entre países e continentes.

 

Em nossas mãos encontra-se a oportunidade para fazer prevalecer e recriar estilos de vida e de compromisso universais, favoráveis à justiça, à fraternidade, e à comunhão. Podemos, por isso, dizer que “este é o tempo favorável, este é o dia da salvação” (2 Cor 6,2).

 

Fátima Almeida é copresidente do Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos; este texto é publicado também, neste dia 1 de Maio, na revista Notícias Obreras, das Hermandades Obreras de Acción Católica, de Espanha

 

Jorge Sampaio, um laico cristão

Jorge Sampaio, um laico cristão novidade

Já tudo, ou quase tudo, foi dito e escrito sobre a figura do Jorge Sampaio. Assinalando a sua morte, foram, por muitos e de múltiplas formas, sublinhadas as diversas facetas definidoras da sua personalidade nos mais diversos aspetos. Permitam-me a ousadia de voltar a este tema, para sublinhar um aspeto que não vi, falha minha porventura, sublinhado como considero ser merecido.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja

Inquérito sobre o Sínodo

Escutar todos, com horizontes para lá das “fronteiras” da Igreja novidade

O Papa observava, no encontro sinodal com a sua diocese de Roma, no último sábado, 18, que escutar não é inquirir nem recolher opiniões. Mas nada impede que se consultem os cristãos sobre as “caraterísticas e âmbito” que “entendem dever ter a escuta que as igrejas diocesanas são chamadas a realizar, desde 17 de outubro próximo até ao fim de março-abril de 2022. Era esse o terceiro ponto da consulta feita pelo 7Margens, cujas respostas damos hoje a conhecer.

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro

União Europeia

Nova estratégia de combate ao antissemitismo será apresentada em outubro novidade

A União Europeia (UE) deverá divulgar, no próximo mês de outubro, uma “nova estratégia de combate ao antissemitismo e promoção da vida judaica”. A iniciativa surge na sequência da disseminação do racismo antissemita em inúmeros países da Europa, associada a teorias da conspiração que culpabilizam os judeus pela propagação da covid-19, avançou esta quarta-feira, 22, o Jewish News.

Livrai-nos do Astérix, Senhor!

Livrai-nos do Astérix, Senhor! novidade

A malfadada filosofia do politicamente correcto já vai no ponto de apedrejar a cultura e diabolizar a memória. A liberdade do saber e do saber com prazer está cada vez mais ameaçada. Algumas escolas católicas do Canadá retiraram cerca de cinco mil títulos do seu acervo por considerarem que continham matéria ofensiva para com os povos indígenas.

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This