[À volta do 1º de Maio] Encruzilhadas da vida

| 2 Mai 2021

Ilustração de Rui Aleixo

“Sou trabalhadora precária, mas sou feliz no que faço. Não me arrependo da mudança de área quase a chegar a um quarto de século de existência.” Ilustração de Rui Aleixo

 

Tenho 45 anos e sou trabalhadora precária. A precariedade tem sido uma constante na minha vida desde que entrei no mercado de trabalho. Talvez esta situação seja fruto de decisões tomadas no passado. Da busca de realização profissional e pessoal em diferentes áreas do conhecimento. Ou será que não?

A minha primeira licenciatura foi em Engenharia do Ambiente pelo Instituto Superior Técnico (IST). Foram cinco anos cheios de aprendizagens numa área relativamente nova, em 1993. Fiz parte do pontapé de saída dessa licenciatura. Em simultâneo terminava o curso secundário na Escola Artística do Conservatório Nacional de Lisboa, em flauta transversal, ao qual se seguiu o canto, em simultâneo com o estudo de órgão. Era uma das pessoas com mais páginas preenchidas na caderneta do aluno!

No final do percurso académico no IST candidatei-me a algumas posições em empresas diversas relacionadas com o ambiente, câmaras municipais, Serviço Nacional de Proteção Civil, mas sem sucesso. Assim, comecei a virar a minha atenção para a investigação. A primeira remuneração que recebi foi através de uma bolsa. Fiz parte de dois projetos no IST, um dos quais com bastante impacto a nível nacional na altura: Engenho e Obra – Engenharia em Portugal no século XX. O projeto era liderado pelo atual ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Prof. Manuel Heitor, e pelos Prof. José Maria Brandão de Brito e Maria Fernanda Rollo, da NOVA FCSH. Curiosamente, a NOVA FCSH viria a fazer parte da minha vida académica e profissional.

Após a participação nesses projetos, tentei esporadicamente candidatar-me a empregos na área do ambiente, mais uma vez sem sucesso. Lembro-me, aliás, de uma entrevista em que terminámos a falar de música, porque a neta de um dos responsáveis da empresa tinha iniciado o estudo do piano. Possivelmente também teria sido feliz como engenheira do ambiente. Não chegarei a saber.

Decidi mudar o curso da minha vida e ingressei na licenciatura em Música na Comunidade, em 2007. Também este era o primeiro ano de uma nova licenciatura criada em parceria pela Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx) e Escola Superior de Música de Lisboa (ESML). Já estava casada, tinha uma filha. Paralelamente, comecei a trabalhar a tempo parcial no secretariado e produção de uma associação musical, sendo paga por recibos verdes, ao mesmo tempo que lecionava música como atividade extracurricular em algumas escolas, também a recibos verdes.

Foi uma temporada de muito trabalho e aprendizagem. Mas, definitivamente, senti que a minha realização passaria pela área da Música. Em 2011, e durante o mestrado em Ensino de Educação Musical no Ensino Básico na NOVA FCSH, encontrei uma escola privada em Lisboa para dar aulas, mas com um horário parcial. Tinha finalmente um contrato, e lembro-me de sentir felicidade por receber, pela primeira vez, subsídio de férias e de Natal. O que parece ridículo tendo em conta que a remuneração mensal correspondia a cerca de 400 euros. Mas, para quem nunca tinha recebido um subsídio, esta regalia parecia uma fortuna.

No seguimento de um pequeno trabalho de investigação que fiz no estágio do mestrado, senti (ou redescobri) que a minha realização profissional teria de passar pela investigação. Inscrevi-me no doutoramento em Ciências Musicais, especialidade em Ensino e Psicologia da Música na NOVA FCSH, em 2014. Candidatei-me a uma bolsa, que recebi desde 2015 a 2019. Sabia já que, em terminando a bolsa, teria de procurar outro meio de subsistência. Foi, na verdade, algo angustiante, especialmente porque a bolsa terminava no final de Março, altura do ano em que não seria possível começar como professora numa escola.

Na altura, colaborava já com a ESELx como professora na unidade curricular de Psicologia da Música, lugar que ainda hoje ocupo. Mais tarde, viria a ser convidada para lecionar uma unidade curricular na NOVA FCSH, no mesmo mestrado que frequentei, em parceria com a minha mentora e amiga, prof. Helena Rodrigues. Trabalhar no Ensino Superior é um privilégio e um enorme desafio. A possibilidade de ter um contrato sem termo é muito baixa, pelo menos na próxima década. São as vicissitudes do sistema, dos financiamentos, das prioridades.

No final das férias de verão de 2020, comecei à procura de outro trabalho. A remuneração auferida no trabalho no Ensino Superior não era suficiente para pagar as minhas despesas correntes, nem de perto, e não seria sustentável continuar a usar o “pé-de-meia” para subsistir. Felizmente, consegui ocupar o lugar deixado vago por uma professora de música que se havia mudado porque o marido ficou colocado noutra zona do país (uma precariedade gritante na profissão professor). Trabalho, atualmente, com crianças dos 3 anos aos 12 anos de idades, no ensino geral e especializado da música.

Quanto à investigação (que adoro), existem algumas oportunidades de financiamento, como por exemplo através do concurso de estímulo ao emprego científico individual (Fundação para a Ciência e Tecnologia, FCT), das bolsas Marie Skłodowska-Curie, dos Projetos I&D da FCT. As perguntas que faço são: e quando terminar o período afeto à bolsa? Procuro outra, ou seja, salto de bolsa em bolsa? Tento novamente o mercado de trabalho enquanto professora (o contrato de uma bolsa exige dedicação exclusiva)? Ao fim de cinco, seis anos de bolsa, terei mais de 50 anos de idade. Outros profissionais dedicados, válidos, e mais novos estarão também disponíveis no mercado. Enquanto a carreira de investigador não for uma realidade e uma possibilidade em Portugal, será sempre complicado optar por situações temporárias no emprego científico.

Sou trabalhadora precária, mas sou feliz no que faço. Não me arrependo da mudança de área quase a chegar a um quarto de século de existência. Com essa mudança chegou (ou continuou?) a instabilidade laboral. Mas essa instabilidade trouxe-me desafios, aprendizagens, redes de contactos. Novas possibilidades, novos caminhos. Verei o que o futuro me reserva em termos laborais.

 

O vídeo Dorme, dorme, meu menino, de Ana Isabel Pereira, pode ser visto a seguir:

 

 

Ana Isabel Pereira é professora de música

 

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