[À volta do 1º de Maio] Resiliência, auto motivação e adaptabilidade (crónica)

| 30 Abr 21

“Há 13 anos imaginar-me-ia hoje com uma carreira, mas não a tenho…” Foto de arquivo © Christina Wocintechchat/Unsplash

 

Lembro-me de receber a última nota que faltava para concluir a licenciatura. Foi em Junho de 2007. Fiquei com sentimentos de alegria, alívio, orgulho e, de repente, muitas dúvidas. Quanto vale o meu trabalho? Por onde devo começar? Na altura com 22 anos, tracei um plano exequível que culminava no meu auge profissional aos 35 anos. Ora, chegada aos 35, vamos lá ver como tem corrido…

Entre a Hotelaria e a Gestão, após a licenciatura, concluí um mestrado e um MBA. Fiz também outros cursos menos densos. Entre Portugal, Brasil, Inglaterra e EUA, trabalhei como consultora, gestora, formei equipas, construí departamentos inteiros de vendas e Recursos Humanos, ajudei a transformar sonhos de empreendedores em empresas concretas, passando pela via crucis de desenvolver um plano de negócio – que só Deus sabe o trabalho que dá. Contratei pessoas, despedi, ajudei empresas em processos de downsizing, tive sociedade em duas pequenas empresas. A lista é longa e bastante feliz mas, como era de prever, aos 35 anos eu não sou a business badass que defini naquele plano, há uns 13 anos atrás…

Tenho uma carga genética que à partida me ajudaria sempre. Sou filha de uma portuguesa resiliente e de um brasileiro doce, ambos licenciados, empresários e professores, com uma vida intensa de trabalho até hoje. A família da minha mãe exilou-se na América do Sul após a revolução de 1974 e lá a minha mãe conheceria o meu pai, de uma família do nordeste, com sangue bandeirante, índio e de senhores de engenho. Nasci no Brasil, mas vim fazer todo o meu percurso académico a Lisboa. Voltei ao Brasil para casar em 2013. Lá também trabalhei sempre e fui mãe ao mesmo tempo.

Decidi regressar a Portugal com o meu marido e filha em Janeiro de 2018. Mesmo antes disso, já andava entre candidaturas e entrevistas para voltar a viver em Lisboa. Desde que cheguei, levei oito meses até começar a trabalhar num cargo administrativo do departamento comercial de um complexo hoteleiro. Era um cargo compatível com a minha formação académica de base que, embora tivesse um ordenado pequeno, dava óptimas perspectivas de futuro, porque a empresa era sólida e estava bastante agradada com a minha prestação. Eu também gostava do trabalho, das chefias e dos colegas. Infelizmente, como consequência da pandemia mundial que enfrentamos, não renovaram o meu contrato ao fim do primeiro ano.

Hoje trabalho em part time como administrativa no departamento comercial de uma empresa multinacional, fora da minha área académica, onde não exerço funções compatíveis com os graus que possuo, nem me dá perspectivas de melhoria a médio prazo. O meu ordenado é insuficiente, mas fundamental para ajudar a fazer face às despesas do meu agregado. Conto apenas com o meu marido, cuja situação profissional, também determinantemente abalada pela pandemia, é semelhante à minha em termos de precariedade e de falta de perspectivas.

Há 13 anos imaginar-me-ia hoje com uma carreira, mas não a tenho. Com património, que também não tenho. Com mais filhos, que dificilmente no meu horizonte fértil, por motivos económicos, chegarei a ter.

Tenho amigos a trabalhar nas suas áreas, felizes com aquilo que fazem, a enfrentar desafios profissionais interessantes e a serem adequadamente remunerados. São poucos mas existem. Conheço, por outro lado, advogados, psicólogos, historiadores, gestores e hoteleiros a trabalhar na construção civil, como secretários, assistentes administrativos, operadores de telemarketing, empregados de mesa (muitas vezes sem contrato). Na geração a que pertenço, eu não sou a única numa má situação – muito infelizmente – mas o facto de não estar só não me deixa melhor. Na realidade até aumenta o problema.

Há uns tempos, conversava com amigos sobre a luta que tem sido a procura por um trabalho compatível com as nossas competências. Este tema rendeu horas de conversa, de ponderações. Lembro-me que uns dias depois eu ainda andava a “ruminar” algumas questões que tínhamos então levantado. Espalhei umas folhas brancas sobre a mesa de jantar e fui escrevinhando tudo o que eu considerava relevante a respeito deste assunto. Criei um sistema de pontos para definir um ranking de importância e fui “brincar” com as ferramentas de gestão que nos últimos anos me têm servido. Os escolhidos para este tema foram os seis chapéus do pensamento (técnica do Edward de Bono) e, claro, a nossa boa e velha análise SWOT (ferramenta muito útil para situações da vida pessoal – fica a dica!). É importante não deixarmos de ter uma meta SMART e é importante planear o caminho sempre ajustando os detalhes. Afinal a vida acontece no processo. As conclusões confirmaram o que eu já sabia.

Hoje, mais do que há uns anos atrás, o “fator sorte” tem um peso substancialmente maior no desafio de encontrar um trabalho adequado às competências dos candidatos. Em conversa com recrutadores ouço sempre a frase: “tenho recebido candidaturas de mestres para cargos onde se pretende alguém com ensino médio”. Esta é nossa realidade. Eu não consigo considerá-la positiva, mas não é possível fugirmos dela. Logo, a atitude é nunca desistir. E talvez seja mais consequente esforçarmo-nos por um maior foco na nossa auto motivação. Por fim, sermos tão adaptáveis quanto conseguirmos, para que daqui a uns tempos possamos olhar para o que nos está a acontecer hoje e nos orgulharmos da forma como superámos um desafio tão difícil.

 

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