[À volta do 1º de Maio] Sozinhos nos querem? Solidários nos terão

| 4 Mai 21

 

A tecnologia pode revitalizar os sindicatos, mas também materializa a feroz tendência de individualização e isolamento de cada trabalhador. 😉 Foto © Nick Morrison, Unsplash

 

Em 2021, o desfile do 1º de Maio no Porto é o espelho do movimento sindical português na atualidade: pouca gente, poucos jovens, as mesmas técnicas e linguagem de há 47 anos e uma relação que parece (no mínimo) cerimoniosa com outros movimentos sociais e novas formas de organização laboral presentes no desfile, da precariedade às lutas feministas.

Sempre acreditei que “quando os precários/as mulheres/os trabalhadores/os oprimidos batem o pé, o mundo treme”. Onde para a solidariedade que trouxe os operários americanos às ruas em 1 de maio de 1886, ou que uniu milhões de portugueses em 1974?

São várias as razões que podem explicar o status quo: sucessivos bloqueios à contratação e negociação coletivas, trabalhadores que não se filiam por receio de represálias, dificuldade de os sindicatos se reinventarem e responderem a novas gerações e realidades laborais (a precariedade, por exemplo), fraca rentabilização das novas tecnologias e da internet e falta de transparência – entre outras. Porém, é fulcral que se reconheça o impacto brutal da ofensiva neoliberal no trabalho e nas relações laborais.

É inegável a importância que a tecnologia pode ter na revitalização dos sindicatos. Mas ela também materializa a feroz tendência de individualização da apresentação ao mercado de trabalho e do ciclo de vida do trabalhador ao longo de toda a sua vida produtiva, isolando cada um nas suas próprias lutas e resistência.

A utilização das redes sociais ao serviço do trabalho e do recrutamento oferece aos trabalhadores, sobretudo aos mais jovens, a ilusão de um mercado de trabalho democratizado, em que basta querer para se movimentarem, autónomos, debaixo de uma fonte de onde brotam oportunidades continuamente, em forma de notificações no smartphone. Ganha quem faz more with less. Good enough is better than perfect. Assim mesmo, em inglês. Afinal, o destino é falarmos todos igual – para pensarmos todos igual e produzirmos todos igual. Sempre mais! O que importa é crescer, mesmo que já mal caibamos nesta nossa casa comum.

A receita para o sucesso profissional? Uma marca pessoal forte, e saber vender superpoderes em entrevistas (isto quando o trabalhador não sai da Universidade diretamente para CEO de si próprio, sem passar pela casa de partida). Ambos os ingredientes são condimentos do espírito individualista e do culto do “eu” que o modelo neoliberal nos impinge em todas as esferas da vida (do consumo ao trabalho, passando pela saúde, o lazer e até o capitalismo “verde”).

Ao contrário das gerações anteriores, os trabalhadores que hoje têm até 40-45 anos já entraram para o mercado de trabalho com uma série de direitos garantidos. Mas o que parecem ignorar é o porquê. A história demonstra que não há outro caminho para a proteção e (re)conquista de direitos e melhores condições de trabalho (e, consequentemente, de habitação, de saúde, de educação… de vida!) que não a solidariedade e a defesa coletiva dos interesses de todos os trabalhadores. Torna-se, por isso, espantoso, que o pensamento dominante sobre os sindicatos e os movimentos laborais em geral seja exatamente o contrário: são inúteis, meros tachos para uns quantos viverem à custa de infernizar patrões e destruir empresas, entre outros epítetos demagógicos que estão hoje muito na moda.

Na encíclica Fratelli Tutti, entre outras críticas duríssimas que faz ao neoliberalismo, o Papa Francisco diz que “o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer”. Como cristã, e como católica, entendo o texto do Papa, em especial este excerto, como uma exortação à solidariedade, para pôr fim à “especulação financeira, tendo a ganância de lucro fácil como objetivo fundamental” que, assente na super-exploração, continua a “fazer estragos”.

Para o Papa, há que “voltar a pôr a dignidade humana no centro e sobre este pilar devem ser construídas as estruturas sociais alternativas de que precisamos” (esta é, de resto, também a agenda da OIT relativamente ao futuro do trabalho). É, por isso, com muita esperança que registo graduais conquistas de direitos e condições pelos sindicatos de alguns países em desenvolvimento com intensa (e pouco supervisionada) atividade industrial. Os trabalhadores de algumas gigantes transnacionais, como a Amazon ou a Google, encabeçam novas formas globais de solidariedade e luta pelos direitos de todos. Em todo o mundo, surgem movimentos cada vez mais organizados de trabalhadores das plataformas digitais (gig workers). Em Portugal, nos últimos anos, plataformas de trabalhadores precários como os FERVe, Precários Inflexíveis, Movimento dos Trabalhadores em Arquitectura e movimentos de trabalhadores da cultura têm marcado a diferença nas formas de luta e nas conquistas de milhares de trabalhadores.

“O direito de alguns à liberdade de empresa ou de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos e da dignidade dos pobres; nem acima do respeito pelo ambiente.”

Trabalhadores cristãos do mundo: unimo-nos?

 

P.S. – Dedico esta primeira contribuição para o 7MARGENS a alguém que valorizava, como poucos, a luta coletiva dos trabalhadores, e que foi capaz de criar as pontes necessárias para mudar a vida de milhões deles em toda a Europa, no seu trabalho de mais de 30 anos na Direção Geral do Emprego, Assuntos Sociais e Inclusão, da Comissão Europeia. O meu tio Fernando Vasquez partiu em julho e, com a sua ação, marcou em definitivo todas as mais importantes iniciativas da CE no domínio da política social desde os anos 1990. A contratação e negociação coletiva foram duas das suas grandes lutas.

Resta-me seguir-lhe o exemplo e bater o pé, confiando que o mundo treme o suficiente para que ele se orgulhe de mim.

 

Ana Vasquez trabalha em Comunicação e Marketing

 

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“A longa viagem começa por um passo”, recriemos…

“A longa viagem começa por um passo”, recriemos… novidade

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas. De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer.

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