O excesso de notícias negativas e a sua exploração sensacionalista têm um impacto negativo na saúde mental. É a conclusão de um artigo publicado recentemente no jornal de divulgação científica LiveScience. Segundo o seu autor, foi criado um quadro clínico denominado Consumo de Notícias Problemático (Problematic News Consumption, PNC, em inglês) caracterizado por um padrão de preocupação, desregulação e disrupção da vida diária causado pelo consumo desregulado de notícias sobre guerras, catástrofes naturais, turbulência política e social, crimes, corrupção, etc. É referido ainda um estudo norte-americano de 2022 que mostrou que 17% dos americanos adultos sofrem de altos níveis de PNC. Destes, 61% dizem sentir-se mal ou muito mal no seu dia a dia. Muitos afirmaram, aliás, terem passado a evitar notícias, deixando, por exemplo, de consultar o telemóvel de manhã, porque a sobrecarga de más notícias causava-lhes má-disposição, angústia e sentimento de impotência geral.
Se por um lado as pessoas estão hoje mais informadas (e às vezes desinformadas), por outro, a sobrecarga de notícias más e catastróficas, acentuada pela sua exploração sensacionalista, está a contribuir para o aumento da ansiedade, do pessimismo e da angústia. As constantes notificações noticiosas no telemóvel, que frequentemente as pessoas subscrevem e das quais parecem já ser incapazes de prescindir, bem como a (des)informação propagada pelas redes sociais, baseada em rage baits (iscos que apelam às pulsões emocionais mais básicas para obter cliques e interações), também contribuem para esta degradação psicológica e moral.

“O nosso bem-estar mental pode ser afetado pelas nossas relações sociais, saúde física, nível de produtividade e acesso a necessidades básicas. ” Foto retirada de vídeo de livescience.com
Já sabíamos que a desinformação causa polarização sociopolítica e degrada a democracia. Sabemos também agora que contribui para a insídia da ansiedade e do medo, contribuindo para a deserção da esperança e para o pessimismo existencial.
A solução não passa, evidentemente, por deixar de ver notícias, mas por dosear prudentemente o seu consumo e em privilegiar a profundidade à superficialidade. Não é por consumir muitos títulos, reportagens e parangonas, a todas as horas, se não minutos, que a pessoa passa a estar mais informada. Antes, é preferível guardar certos períodos do dia ou da semana para se atualizar, dedicando-se especialmente à leitura de notícias e artigos de fundo que ofereçam perspetivas mais fundamentadas e abrangentes sobre os assuntos. E saber escolher as fontes mais credíveis e credenciadas para o fazer.
Evolutivamente, estamos programados para dar importância exagerada às más notícias. Elas colocam-nos de sobreaviso em relação a potenciais ameaças. No passado distante das nossas origens, tinham mais hipóteses de sobrevivência precisamente aqueles que menos negligenciassem uma ameaça. Daí o papel positivo e necessário de uma certa medida de medo e ansiedade. Mas não fomos feitos para estar sempre com medo e de sobreaviso, ou seja, para percecionar o mundo constantemente como uma ameaça. São bem conhecidas as consequências nefastas e paralisantes da ansiedade crónica. Hoje, estamos todos, e particularmente os mais jovens, mais suscetíveis aos seus efeitos. Porque o mundo é muito grande e está sempre algo a acontecer, e, pior, parece que está sempre algo de mau a acontecer.
Na realidade não acontecem hoje mais catástrofes (à exceção talvez das direta ou indiretamente relacionadas com o aquecimento global antropogénico) ou guerras ou crimes do que no passado. O que acontece é simplesmente isto: a hiperligação digital global tornou praticamente impossível não termos imediatamente notícia do que quer que aconteça, em qualquer parte. Ademais, o crescimento exponencial da população humana e a sua dispersão global, aumentando a densidade populacional da maioria das cidades e territórios, encareceu, em termos de vidas humanas, o preço de qualquer grande tragédia natural ou antropogénica. Por exemplo, um sismo hoje, numa grande cidade, tem o potencial de causar muito mais vítimas do que no passado – a não ser que essa cidade tenha investido grandemente em construção antissísmica. É sabido, porém, que hoje não há mais sismos, nem mais intensos, do que no passado. Apenas há mais registos, mais divulgação, e o preço em vidas humanas é, frequentemente, maior, o que adensa a perceção de tragicidade.
O ser humano precisa de tréguas em relação à voragem desse acontecer sempre incessante que parece arrastá-lo, dando-lhe a entender que o mundo nunca pára, e que ele também não pode parar, sob pena de ficar para trás ou de ser surpreendido por qualquer acontecimento imprevisível, eventualmente devastador. Porque, precisamente, há sempre algo a acontecer, em alguma parte, algo de mau, algo de perigoso, e ninguém está livre de ser vítima, direta ou indireta, dessa imprevisibilidade. O facto de estamos sempre contactáveis e ao alcance da voragem informativa ou pseudo, implica-nos mais ainda nesse acontecer do qual não nos conseguimos quase nunca desligar. E assim se insinuam sub-repticiamente a ansiedade e o medo.
Quem consegue realmente desligar neste mundo hiperglobalizado e hiperconectado? Ocasionalmente, numa festividade nacional ou global, como o Natal, é possível sentir o sabor de uma trégua, de uma desaceleração da voragem dos acontecimentos, propícia à paz e a uma alegria sincera. Mas estas ocasiões são realmente raras. Estou em crer que nem nas férias se consegue sacudir completamente a inquietação e a ansiedade. A ansiedade das férias é, de resto, ela própria um sintoma. Pergunto-me se muitas vezes não se vai de férias apenas para esquecer ou mitigar, com o exotismo do diferente, a angústia do mundo que nunca pára e do qual é impossível fugir completamente.

“O ser humano precisa de tréguas em relação à voragem desse acontecer sempre incessante que parece arrastá-lo, dando-lhe a entender que o mundo nunca pára, e que ele também não pode parar, sob pena de ficar para trás ou de ser surpreendido por qualquer acontecimento imprevisível, eventualmente devastador.” Foto © Tumisu / Pixabay
É que o mundo está mais pequeno, apesar de ser muito grande, pelo que não é fácil a uma isentar-se e desligar-se de tudo o que acontece e da aparente necessidade de estar sempre contactável e ao alcance. Porém, é vital dosear sabiamente o consumo de informação, privilegiando a sabedoria das coisas e das ideias profundas, dirigindo a atenção para o bom, o belo e o verdadeiro neste mundo, e não apenas para o mau. Mais: impondo a si mesmo ritmos próprios; treinando a atenção e evitando a dispersão; buscando lugares e situações que, pela sua natureza e função, parecem pairar sobre o próprio tempo e sua voragem, como um templo, um mosteiro, uma ambiência natural, uma montanha, uma antiga e milenar ruína, ou o calor de uma amizade, de um abraço, de uma comunidade, de uma família, de um livro, de uma melodia de grande beleza, etc. Há que vencer o conformismo acrítico, o medo de dizer não ao espírito cego da voragem dos acontecimentos, que não é senão o espírito de um tempo; há que romper com a lógica cega do formigueiro, cultivar um certo desapego, saber desligar para melhor e mais autenticamente ligar-se ao que realmente importa.
O cérebro humano está estruturado para destacar excessivamente o que é mau ou o que assim se lhe apresenta, e para entrar num círculo vicioso de confirmação do negativo. Isto é, quanto mais relevância atribuímos ao negativo, mais tendência temos para o encontrar (ou projetar) na realidade. Uma visão do mundo equilibrada e com esperança implica abertura à realidade no que ela tem de positivo e de negativo, de belo, de bom, de verdadeiro; respeito pela verdade e pela profundidade das coisas, pelo silêncio, pela palavra, pelos outros, por nós mesmos; capacidade de perseverar contra o ruído, a mentira e a mistificação; cultivo das capacidades criativas, intelectuais, emocionais e afetivas. Mais do que informação, precisamos de conhecimento, e mais ainda de sabedoria.
Ruben Azevedo é professor e autor dos livros Essência da Vida, Enigma – Noemas em torno do Mistério do Ser e do Existir e What saves us?: Selected writings on Absolute, Consciousness, Freedom, Meaning.
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