2021-2022, marcas do tempo (2)

A voz profética de David Attenborough sobre o clima

| 29 Dez 2021

A COP26 na estação central de Glasgow. Foto © Daniel from Glasgow, United Kingdom, CC BY 2.0, via Wikimedia Commons.

 

A cimeira do clima de Glasgow (COP26), que ocorreu nas duas primeiras semanas de novembro de 2021, ainda não foi o momento de inverter caminho, no que toca às mudanças climáticas. Os interesses económicos, as estratégias políticas ou a simples inércia falaram mais alto.

No palco mediático da cimeira foram visíveis as propostas para enfrentar a situação cada vez mais emergencial, mas também as contradições, freios e hesitações, ao mesmo tempo que, nas ruas de Glasgow movimentos ambientalistas, sociais e religiosos procuraram pressionar e fazer ouvir a sua voz.

O Movimento Laudato Si’, a assunção de encargos com a deslocação e intervenção na COP26 de líderes de zonas do mundo onde os efeitos do aquecimento já se fazem sentir, por parte de organizações cristãs, ou a iniciativa da petição Planeta Saudável, Pessoas Saudáveis, são alguns sinais de movimentações de pessoas e comunidades de todo o mundo, que ganham cada vez mais expressão pública.

Na cimeira propriamente dita, interveio na sessão de abertura David Attenborough, o conhecido documentarista sobre a vida no planeta e ativista das causas ambientais. O seu discurso passou relativamente despercebido, no bruaá das outras vozes. E no entanto ele teve o mérito de ir além das abordagens catastrofistas, por vezes paralisantes, para colocar o foco na esperança e nas oportunidades que se abrem, se todos os países e atores se decidirem por apostar num modelo diferente de vida e numa “nova revolução industrial, impulsionada por milhões de inovações sustentáveis”.

Faz sentido, neste olhar que é retrospetivo, mas que não pode deixar de ser também prospetivo, chamar a atenção para essas palavras proféticas e registar aqui a constância das suas palavras.

A nossa motivação não deve ser o medo, mas a esperança

David Attenborough na cerimónia de abertura da COP26. Foto © Conselho da União Europeia/consilium.europa.eu

Excelências, delegados, senhoras e senhores,

Dado que vão passar as próximas duas semanas a debater, negociar, persuadir e a comprometer-se, como certamente devem fazer, é fácil esquecer que, em última análise, a emergência climática se resume a um único número: 414 ppm (partes por milhão) correspondentes à concentração de carbono na nossa atmosfera. A medida que determina significativamente a temperatura global e as mudanças nesse número é a forma mais clara de traçar a nossa própria história, pois define a nossa relação com o nosso mundo.

Durante grande parte da história antiga da humanidade, esse número saltava de forma selvagem entre 180 e 300, e o mesmo acontecia com as temperaturas globais. Era um mundo brutal e imprevisível. Os nossos antepassados existiam em número diminuto, mas há pouco mais de 10.000 anos, esse número estabilizou subitamente e, com ele, o clima da Terra. Entrámos num período invulgarmente benigno, com estações do ano previsíveis e tempo fiável. Pela primeira vez, a civilização foi possível e não perdemos tempo a tirar partido disso. Tudo o que alcançámos nos últimos 10.000 anos foi possível graças à estabilidade durante esse tempo. A temperatura global não oscilou neste período em mais do que cerca de um grau Celsius. Até agora. A queima de combustíveis fósseis que temos feito, a nossa destruição da natureza, a nossa abordagem à indústria, construção e aprendizagem, estão a libertar carbono para a atmosfera a um ritmo e escala sem precedentes.

Já estamos em apuros. A estabilidade de que todos nós dependemos está a quebrar-se. Esta história é uma história de desigualdade, bem como de instabilidade. Hoje, aqueles que menos fizeram para causar este problema, estão a ser os mais duramente atingidos. Em última análise, todos nós vamos sentir os impactos, alguns dos quais são agora inevitáveis.

É assim que a nossa história vai acabar? Uma história das espécies mais inteligentes condenadas por essa característica demasiado humana de não ver o panorama geral na prossecução de objetivos a curto prazo. Talvez o facto de as pessoas mais afetadas pelas alterações climáticas já não serem algumas gerações futuras imaginadas, mas jovens vivos hoje, talvez isso nos dê o ímpeto necessário para reescrever a nossa história, para transformar esta tragédia num triunfo. Afinal de contas, somos os mais capazes de solucionar problemas, que alguma vez existiram na Terra. Compreendemos agora este problema. Sabemos como impedir o agravamento e pô-lo em marcha atrás. Temos de recuperar milhares de milhões de toneladas de carbono do ar. Temos de fixar o nosso objetivo de manter 1,5º ao nosso alcance. Uma nova revolução industrial, impulsionada por milhões de inovações sustentáveis, é essencial, e de facto já está a começar.

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Desmatamento na Amazónia, a 900km a sudeste de Manaus. Foto © Gerard Moss/Projecto Brasil das Águas-2006.

 

Todos nós partilharemos os benefícios: energia barata e limpa, ar saudável e alimentos suficientes para nos sustentar a todos. A natureza é um aliado fundamental. Sempre que restaurarmos a natureza, ela irá recuperar o carbono e ajudar-nos a restabelecer o equilíbrio no nosso planeta. E enquanto trabalhamos para construir um mundo melhor, temos de reconhecer que nenhuma nação completou o seu desenvolvimento porque nenhuma nação avançada é ainda sustentável. Todas têm ainda pela frente uma jornada a fazer para que todas as nações tenham um bom nível de vida e uma pegada modesta. Vamos ter de aprender em conjunto, como alcançar isto, assegurando que nenhuma fique para trás. Temos de aproveitar esta oportunidade para criar um mundo mais igualitário e a nossa motivação não deve ser o medo, mas sim a esperança.

Podemos resolver o problema climático numa geração? A minha resposta seria, sim, temos de o fazer.

Precisamos não só de falar sobre o que podemos fazer, mas também de fazer o que podemos.

Este é um desafio que devemos tentar resolver de uma forma rápida, mas com uma visão a longo prazo (*).

Resume-se a isto. As pessoas vivas agora, a geração vindoura, irão olhar para esta conferência e considerar uma coisa. Será que esse número parou de aumentar e começou a diminuir, como resultado dos compromissos aqui assumidos? Há todos os motivos para acreditar que a resposta pode ser sim. Se trabalharmos separados, somos suficientemente poderosos para desestabilizar o nosso planeta; mas trabalhando juntos, somos suficientemente poderosos para o salvar. Durante a minha vida, testemunhei um declínio terrível. Na vossa, podem e devem testemunhar uma recuperação maravilhosa. Essa esperança desesperada, senhoras e senhores, delegados, excelências, é a razão pela qual o mundo está a olhar para vós e por que estais aqui. Obrigado”.


(*) No seu discurso, David Attenborough incluiu vozes de jovens de diferentes partes do mundo, que sublinharam ou exemplificaram alguns dos problemas evocados pelo orador. No caso destas três frases, entendemos mantê-las, dado que funciona como partes e argumentos do discurso que estava a ser proferido.

O vídeo da intervenção pode ser visto a seguir:

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