A zona do medo e do ódio

| 20 Mar 2024

Zona de Interesse. Filme

“O filme “A Zona de Interesse” retrata uma época (real, histórica, embora ao vê-lo, muitas vezes, tudo aquilo nos pareça impossível, como num sonho…).” Imagem retirada do trailer do filme “A Zona de Interesse”.

 

‘Uma dessas aprendizagens foi a acalmar-se, perante os ímpetos que lhe vinham de intervir em situações de injustiça e de querer mudar o mundo. “Calma!”, repetiam-lhe os indígenas da Amazónia, por exemplo. “O que demorou muito tempo a formar-se não vai ser mudado só por ti nem de um dia para o outro; portanto, sossega”, observavam eles, não para a desmoralizar, mas para a fazer ligar à terra, e para ter a perspetiva do tempo, de “sete gerações”.’ Guardei esta citação de Celine Cousteau, que retirei de um artigo do Sete Margens, pois soou-me a algo que precisaria de revisitar.

Uma outra citação, desta vez de Annie Dillard, no livro “Ensinar uma pedra a falar” (2023). Num dos capítulos, apresenta-nos uma cena retratando o comportamento da narradora e de um grupo de americanos, de visita a uma aldeia na bacia do Amazonas, perante um veado aprisionado por cordas, que se debate na tentativa vã da sobrevivência.  “Nessa noite, percebi que, enquanto observávamos o veado, os outros me estavam a observar. (…) Tinham olhado para ver como eu, a única mulher, e a mais jovem do grupo, estava a encarar aquele espetáculo de luta do veado.  Eu parecera desligada, pelos vistos, ou dura, ou calma, ou concentrada. Não sei. Estava a pensar. (…) Senhores da cidade, o que vos surpreende? Que haja sofrimento aqui, ou que eu o conheça?”.

E ainda Rainer Höss, neto do comandante de Auschwitz durante a II Guerra Mundial, numa entrevista publicada no Expresso, em 2016: “Nunca esteve tão zangada que quisesse matar alguém? Se me disser a verdade, terá de dizer que sim. A questão é se o faz ou não. Mas se tiver pessoas que a instruam, por meio do medo, a fazê-lo… O medo é uma arma poderosa. Assim como o ódio. Hoje isso é visível nas redes sociais e na sua capacidade de espalhar o medo e o ódio pelo mundo em microssegundos. E os discursos de ódio não são apenas ouvidos por pessoas estúpidas.”.

A Zona de Interesse” é um filme de 2023, realizado por Jonathan Glazer, que está atualmente nos cinemas. Versa sobre a família Höss – o pai, Rudolf, a mãe, Hedwig, e os cinco filhos (entre eles, Hans, o futuro pai de Rainer). Mais do que um conjunto de pessoas, a família é-nos mostrada como um conceito, uma dinâmica em ação num determinado espaço arquitetónico e geográfico. Esta família é o rio, as árvores frondosas, a estufa, a horta, a vitalidade (arrepia-me usar esta palavra) que Hedwig põe na construção da casa de família. Sempre a paredes meias com o campo de morte e os crematórios de Auschwitz, os danos colaterais que nem chegam a ser nomeados, uma inconveniência necessária à proliferação do sonho nazi, “esta é a nossa casa, isto é aquilo com que sempre sonhámos”, diz Hedwig ao marido. Periodicamente, as cinzas dos mortos caem sobre tudo, os clarões dos fogos e os gritos dos desesperados pontuam a sonoridade do sonho, mas nada é capaz de fazer esta família abdicar do lugar que sempre ambicionou.

Era frequente apropriarem-se de roupas dos judeus aprisionados e gaseados. Logo no início do filme, vemos uma cena em que Hedwig (numa ótima atuação de Sandra Hüller) experimenta um luxuoso casaco de peles e encontra no bolso um batom vermelho. Experimenta-o, sem qualquer pudor, um batom que até há pouco tempo teria sido usado por outra mulher, e nesse pequeno gesto está contido todo o peso da bota militar do seu marido que diariamente sai para trabalhar e esmagar a humanidade de milhares de pessoas.

Mais à frente haverá uma cena em que a mãe de Hedwig, de visita à casa da filha e maravilhada com as conquistas da família, comenta que talvez esteja ali, no campo de extermínio de Auschwitz, uma mulher judia para quem trabalhou como empregada de limpeza.

Em 2016, à época da publicação da entrevista com Rainer Höss, fomos espectadores da campanha e eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Desde aí, também assistimos aos anos do governo de Bolsonaro, no Brasil, e como, entretanto, se massificou a utilização de fake-news nas campanhas políticas, cada vez mais fáceis de produzir e disseminar. Trump foi, e continua a ser, uma das figuras que conseguiu reunir em torno de si a força do ódio de muitos: dos empobrecidos pelo sistema económico americano, dos muitos cristãos dispostos a aceitar um outro messias, dos magnatas dos milhões de dólares, dos militantes abertamente neonazis.

O filme “A Zona de Interesse” retrata uma época (real, histórica, embora ao vê-lo, muitas vezes, tudo aquilo nos pareça impossível, como num sonho…). Uma época sem inteligência artificial capaz de criar imagens e vídeos falsos, e sem partilha online de notícias fabricadas, mas igualmente rica na matéria-prima do ódio, uma produção muito nossa, pronta a ser manipulada na medida eficaz para permitir um mal tão enorme.

Rainer Höss, o neto, diz que a Alemanha fez um bom trabalho ao tratar do legado do nazismo no espaço coletivo, mas que falta extirpar os seus efeitos nas histórias familiares. “Nós, os alemães, investigámos 90 por cento dos crimes perpetrados pelos nazis. Procurámos, pesquisámos, sabemos do que se trata. Porém, não sabemos o que se passou dentro das famílias. Por que é que isto aconteceu? Porque ninguém quer estar na posição em que um advogado ou um juiz lhe diga: “O teu pai ou o teu avô foi guarda em Auschwitz.” Então ficam calados, não falam do assunto e vivem uma boa vida.”.

Elias Chacour. arcebispo emérito palestino-israelita

Foto: Elias Chacour, arcebispo emérito palestino-israelita. https://www.franciscanmedia.org/st-anthony-messenger

 

E, noutras geografias, o ódio cresce – anti-semitismo, islamofobia, racismo, ódio aos migrantes, … O ódio cresce e dá votos. Como por cá, em Portugal. Cumprem-se 50 anos de democracia e falta muita conversa sobre o passado colonial de Portugal, nas famílias e no espaço público, falta serem muito claras, nas cabeças de novos aborrecidos e velhos esquecidos, as diferenças entre viver em democracia e viver em ditadura. E haverá sempre gente para quem o ódio é uma forma de estar no mundo, e jovens prontos a aderir ao sonho do poder da violência. Os idealismos são perigosos.

Ainda uma última citação: Elias Chacour, o arcebispo emérito palestino-israelita, aponta o dedo à corrupção do ódio – a solução (e a liberdade) está em nunca nos deixarmos corromper pelo ódio. Mais! O perdão é em si mesmo a recusa a ser corrompido pelo ódio. “Well, it’s not that easy sometimes when you face daily problems of brutalism. You are shocked. But if you want to consider deeply what forgiveness means, it means you refuse to be corrupted with hatred. If you decide that, how can you accept to be degraded?” [1]

É um equilíbrio complicado viver uma cidadania atenta, em que não haja nem demais, nem de menos – como num baloiço, oscilamos entre a necessidade da ação e o tempo da escuta e da observação (será que algum dia vamos compreender o que se passa?), entre os extremos de deixar que o mundo nos entre pele adentro ou deixar-nos habitar numa couraça espessa.

Uma das razões por que gosto da bíblia é pela honestidade com que apresenta a (des)humanidade, nos seus movimentos particulares e nos grandes movimentos do querer coletivo, e o querer encontrar Deus.

Perante tanta História, apetece vezes sem conta perguntar “Porquê?”. Inutilmente. Cinjamo-nos aos factos. O ódio floresce, a nossa carne é fértil como aquela horta junto às paredes de Auschwitz.

Alguns de nós olharemos o sofrimento em grande escala como uma inevitabilidade, como um veado amarrado, uma presa na cadeia alimentar. Outros procuraremos algum tipo de ação, por fraca que nos pareça. Faremos um bocadinho disto e daquilo, conforme os momentos.

A busca de justiça precisa ser medida pelo quanto de nós resistiu à corrupção do ódio – não da raiva, às vezes geradora da energia da ação, mas do ódio (e do medo) que nos torna incapazes de enxergar o mal à nossa porta.

 

[1] “Bem, às vezes não é tão fácil quando enfrentamos diariamente problemas de brutalidade. Fica-se chocado. Mas se se quiser considerar profundamente o que o perdão significa, isso implica a recusa a ser corrompido pelo ódio. Se decidirmos isso, como podemos aceitar ser menorizados? (tradução livre)

Filme: A Zona de Interesse
Realizador: Jonathan Glazer
Elenco: Sandra Hüller , Freya Kreutzkam , Christian Friedel , Ralph Herforth
Países: GB, POL, EUA
Ano: 2023
Guerra, drama. 105 min.

 

Sara Leão é mediadora educativa e formadora de Português Língua Estrangeira.

 

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