AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

l'Abbe Pierre, um Homem de Causas, um filme de Frédéric Tellier

Cinema

Abbé Pierre: Qual é o meu lugar?

| 09/12/2023

l'Abbe Pierre, um Homem de Causas, um filme de Frédéric Tellier

Imagem de L’Abbé Pierre, um Homem de Causas, filme de Frédéric Tellier

 

Primeiro as coincidências, que valem o que cada um lhes atribuir. Fui ver o filme um dia depois de ter estado sentado ao lado de um ‘companheiro de Emaús’, numa assembleia que cuidava da fraternidade sacerdotal. Fui ver o filme quatro dias antes de celebração do sétimo Dia Mundial dos Pobres ‘inventado’ pelo Papa Francisco para que nenhum baptizado “nunca afaste de algum pobre o seu olhar”. E quando este texto sair, estaremos muito perto de celebrar os 800 anos do Presépio ‘inventado’ por Francisco de Assis para não deixar esquecer o Mistério da Encarnação e a infinita bondade do Deus que assume a fragilidade humana na pobreza mais radical.

No filme, para além de um desenho que remete para o santo de Assis, há um Francisco que é decisivo para a opção daquele que se tornará Abbé Pierre: “Porque estás sempre a fugir do mundo?” Este não é um filme qualquer, acreditem. Confesso que, durante o filme com alguma água nos olhos, também me perguntei “qual é o meu lugar”, que marca ficará da minha passagem pela Terra, pela Igreja…

Em Abbé Pierre, Um Homem de Causas, estamos diante de uma biografia (há quem a ache demasiado fiel e grandiloquente) de um dos fundadores dos Companheiros de Emaús, associação criada, na sequência de um apelo na Rádio Luxemburgo, no Inverno de 1954. Nascido Henri Groués, em 1912, no seio de uma família burguesa de Lyon, e falecido em 2007, no fim de uma vida longa, quase toda dedicada aos pobres, sobretudo aos sem-abrigo, em França. Mandado embora dos frades capuchinhos, por ser demasiado frágil para aguentar a dureza daquela vida monástica, será ele, como diz o actor Benjamin Laverne, que faz todo o seu papel no filme, “o homem que encarna a maior aventura solidária do século XX e cuja vida é profundamente romanesca”. E o filme permite-nos ver toda essa força interior e essa determinação contra a miséria, a injustiça, a indiferença, seja como soldado, membro da Resistência, deputado. Fiquei com a convicção de que esse seu carácter (e convicções), que lhe permitiu travar a sua luta, foi precisamente forjado no meio do Mundo, no confronto com o Mundo. Ele viveu realmente encarnado no seu tempo e foi um homem do seu tempo. Atravessou e foi atravessado pelos acontecimentos dramáticos que marcaram a História do seu tempo.

Por isso, o mais terrível do filme são as últimas imagens (documentais e actuais) dos sem-abrigo. Apesar do tanto que Abbé Pierre lutou e conseguiu, o mundo quase não mudou. Em França e em muitos outros países. Nem sequer no que às guerras diz respeito. Laurent Desmard, último secretário de Abbé Pierre e presidente honorário da Fundação Abbé Pierre, diz que “este filme tem também a vantagem de pôr em evidência o combate que ele travou e que a Fundação Abbé Pierre continua sem esmorecer, uma vez que temos mais de quatro milhões de pessoas sem habitação ou com habitação deficiente, em França”.

Mas não posso terminar sem uma referência fundamental e parece que às vezes esquecida (o próprio Abbé Pierre disse que ela tinha sido uma heroína por ter vivido na sombra): Lucie Coutaz, de quem Abbé Pierre dizia que foi cofundadora dos Chiffoniers d’Émaús, a “insurreição da bondade”. Ela, renascida de um milagre, foi a luz que ajudou Abbé Pierre a encontrar e reencontrar o caminho, que lhe moderou o seu orgulho e os seus ímpetos, e o trouxe à razão tantas vezes, que o acompanhou até ao seu próprio fim (1982). São de uma imensa ternura – e de um belo profetismo – aquelas cenas antes da sua morte e as palavras ditas por Abbé Pierre no funeral. Sem ela, não teria havido Emaús e Abbé Pierre não teria vivido aquele que foi o seu desígnio.

Pelo que percebi de algumas leituras, não há-de ser um filme fácil de ver por quem não traz no coração o fogo do Evangelho (li um artigo que falava mesmo de charité crètine, tão excessiva há-de parecer uma vida como aquela e tão cheia de tantas contradições, claro). Também não sei dizer se é ou não grande cinema. Mas que não me deixou indiferente, isso não deixou. Como dizia o “castor meditativo”, «a fraternidade nunca descansa». Fratelli Tutti!

 

Abbé Pierre, Uma Vida de Causas
Título original: L’abbé Pierre
Realizador: Frédéric Tellier
Elenco: Emmanuelle Bercot, Michel Vuillermoz, Benjamin Lavernhe, Antoine Laurent
Drama, biografia; 137 minutos; 2023; FRA; M/12

 

Manuel Mendes é padre católico e pároco de Esmoriz (Ovar).

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This