
O Papa Francisco, durante o Ângelus de 29 Outubro 2023, no final do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade: todos são abençoados. Foto © António Marujo/7MARGENS
Para os católicos que sabem da sua existência, o Sínodo mundial da Igreja sobre a Sinodalidade ou traz esperança ou provoca incómodo.
Passados mais de dois anos desde que foi proposto, o processo de reunir católicos de todo o mundo para rezarem e falarem sobre os melhores meios de difundir o Evangelho, os temas e métodos do sínodo permanecem desconhecidos para muitos católicos, frequentadores ou não da Igreja.
Porquê? Para começar, o projeto depende da cooperação dos bispos. Mas cada vez mais bispos estão a afastar-se da atitude inclusiva e não judicativa do Papa Francisco.
Nos Estados Unidos, segundo o núncio apostólico, cardeal Christophe Pierre, “Francisco é agora visto como o grande pecador” por alguns bispos americanos. Lá e noutros lugares, muitos bispos estão a repudiar um documento recente do Vaticano que propõe que as bênçãos possam ser dadas livremente, sem uma investigação da vida moral do destinatário – ou destinatários.
O documento de dezembro de 2023 do Dicastério para a Doutrina da Fé, Fiducia Supplicans (“Confiança suplicante”) causou um alvoroço imediato e contínuo. O objetivo do documento, oferecer “uma contribuição específica e inovadora para o significado pastoral das bênçãos”, revê a natureza das bênçãos ao mesmo tempo que reitera a proibição da Igreja de qualquer reconhecimento litúrgico dos casamentos homossexuais.
Para ser simpática, o documento é mal-entendido por muitos e mal interpretado por outros. A controvérsia também tem sido ajudada por relatos de um livro de 1998, intitulado Paixão Mística: Espiritualidade e Sensualidade, escrito pelo novo prefeito do Dicastério, o cardeal Victor Fernández.
O livro de Fernández, que ele retirou quase imediatamente após a publicação, inclui no seu sexto capítulo o encontro imaginário de uma menina de 16 anos com Jesus, enquanto este se encontra nos braços da sua mãe, ao estilo da Pietà. Em seguida, no estilo do poético Cântico dos Cânticos da Bíblia, ela imagina Jesus ressuscitado. Os que não estão familiarizados com a tradição mística espanhola e os que se apressam a criticar qualquer pessoa associada a Francisco podem achar o livro, e especialmente esta parte, obsceno.
Os meios de comunicação social católicos, aparentemente fixados em questões sexuais, ficaram reduzidos a um bando de adolescentes que se riem pelo facto de um cardeal católico se atrever a explicar as analogias da experiência mística em termos sexuais.
O que nos leva de volta às respostas à bênção de “casais do mesmo sexo”, ou “casais numa situação irregular”, como Fiducia Supplicans descreve aqueles que podem pedir para ser abençoados. Diz que “uma análise moral exaustiva” não deve ser uma condição prévia; não há exigência de “perfeição moral prévia”. (Pensemos nos milhares de pessoas que lotam a Praça de São Pedro todos os domingos para receber a bênção de Francisco após o Ângelus. Imaginemos as entrevistas pessoais feitas por uma espécie de polícia da moralidade!)

Papa Francisco com os participantes no Momento de Reflexão que deu início ao Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade. Foto © Vatican Media 2021
Isto não quer dizer que não haja dificuldades com o documento. Um dos problemas é o facto de o seu autor ter esvaziado o assunto. Grupos eclesiásticos na Alemanha e noutros países têm feito pressão para que a Igreja reconheça e ratifique as cerimónias do casamento homossexual e dos divorciados que voltaram a casar. Mas só perto do fim é que o documento afirma que as bênçãos litúrgicas de casamentos homossexuais e quaisquer ritos em conjunto com uma cerimónia civil não são permitidos.
Os bispos de grandes áreas de África, de toda a Rússia e dos Estados dos Balcãs deixaram claro que resistirão à realização de bênçãos. Nos Estados Unidos, Austrália, Brasil, França, Itália e até na Argentina, entre outros países, a reação é mista. O bispo Martin Mtumbuka, do Malawi, liderou a dissidência africana com uma homilia contundente na véspera de Natal. Recusou-se terminantemente a aceitar os ensinamentos do Dicastério [para a Doutrina da Fé] (em algumas partes do seu discurso parecia que lhe tinha escapado a proibição categórica do casamento homossexual).
Outro problema com o documento é o facto de ter sido publicado quando o Vaticano já estava a fechar as portas para o Natal, e a tentativa do Vaticano de controlar os danos – um esclarecimento de Fernández – só apareceu a 4 de janeiro.
Não parece ter havido quaisquer tentativas anteriores de controlo de danos. Ou seja, parece que nenhum bispo amigo recebeu pontos de discussão com antecedência e muitos – se não a maioria – foram apanhados desprevenidos no meio dos preparativos e festividades de Natal quando o documento apareceu pela primeira vez.
Mesmo com uma clarificação, os bispos católicos romanos de África e Madagáscar votaram para ignorar a Fiducia Supplicans.
Tudo isto envolve a questão da sinodalidade. As bênçãos individuais são dadas livremente para animais, edifícios, refeições, terços e todo o tipo de coisas e pessoas. O mal-entendido aqui, impulsionado por alguns meios de comunicação, está enraizado numa rejeição tanto da sinodalidade como da beleza da pessoa humana.
A sinodalidade requer escuta e os bispos objectores estão a ler mais na Declaração do que aquilo que ela pretende. A beleza da pessoa humana é a base da crença cristã e, ao recusar a bênção a qualquer pessoa, os bispos opositores estão a negar essa beleza.
Mesmo assim, por mais acidentado que seja o caminho para a sinodalidade, Francisco está determinado a continuar a tentar fazer avançar a Igreja.
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (em 2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado em Religion News Service.










