
“O essencial é o exercício da consciência e da liberdade ao seu ritmo natural. Há paz nesta renúncia a toda a fachada, toda a mentira, toda a consideração pela aparência.” Foto © Valentin Lacoste / Unsplash
Enfrentar o vazio é necessário. Abraçar o vazio. Porque é no deserto que a revelação acontece. O homem não foi feito para estar sempre saciado, antes pelo contrário, a insatisfação e o inacabamento são a sua condição. Tal não significa que ele não deva buscar satisfazer-se, contanto que seja a partir daquilo que lhe é próprio, essencial. E o essencial, em nós, nem está dado nem é passível de conquista definitiva. É um caminho, um trabalho, uma tarefa contínua de tomada de consciência na contemplação e na ação. Viver humanamente é refletir sobre a própria vida, considerar o seu mistério absoluto, discernir o seu sentido.
O essencial é exprimir a verdade, serena e sobriamente, sem artifícios ou excessiva consideração pelo reconhecimento, fama ou posteridade. O essencial é o pensar, o ser, o criar, o construir, o realizar, o exprimir, e não o que vem depois, não o fruto da ação. O essencial é o exercício da consciência e da liberdade ao seu ritmo natural. Há paz nesta renúncia a toda a fachada, toda a mentira, toda a consideração pela aparência. É preciso renunciar a uma excessiva e inchada consideração por si mesmo e deixar a verdade falar. Tal significa retornar a si, o que se traduz numa vida mais autêntica, porque mais substantiva, na medida em que vive pela interioridade e não dominada pela exterioridade.
Há que preferir sempre o simples e o verdadeiro, ainda que pareça pouco, ao complexo mas falso. Há que acreditar que, qualitativa e substantivamente, perante a realidade absoluta, é o primeiro que nos justifica, não o segundo.
Viver pela interioridade. Não significa viver internado em si próprio misantropicamente, muito pelo contrário. Antes significa viver autenticamente, consciente e lucidamente, na verdade de si próprio, para que se possa viver em verdade com tudo e com todos, assegurando uma comunicação mais genuína e laços mais autênticos. Significa viver na medida de si, nem mais nem menos, para que, em si e a partir de si, se manifeste o que não tem medida – o infinito de cada um, a sua alma.
Viver uma vida que seja, acima de tudo, uma grande história! É talvez mais fundamental do que ficar na História. É que uma grande história está cheia de vida, contanto que não se prejudique a verdade. Façamos da matéria das nossas vidas hoje, matéria dos sonhos do amanhã. Sejamos exemplares de humanidade. Não por amor à glória, mas por amor à verdade que se revela no silêncio da interioridade. Não pela fama exterior, mas pela liberdade interior. Parafraseando Santo António a partir de um dos seus sermões: que em nós o silêncio seja o culto da justiça[1].
[1] In Bessa-Luis, Agustina, Santo António, Lisboa: Guimarães Editores, 1993.
Ruben Azevedo é professor e membro do Ginásio de Educação Da Vinci – Campo de Ourique (Lisboa).








