Abrir da flor da paixão

| 10 Abr 2022

[estende o lábio / ao cálice da neve / abrir da flor da paixão  Foto © Joaquim Félix]
estende o lábio / ao cálice da neve / abrir da flor da paixão. Foto © Joaquim Félix

 

  1. Jesus, a quem seguimos, chegou à nossa frente!
    Como saudei tantas vezes, ao longo da quaresma,
    recordo que estávamos de subida para Jerusalém.
    Acabamos de chegar às portas da cidade!
    A liturgia convida-nos a aclamar Jesus, entusiasta e sorridente,
    na harmonia de cânticos de ‘marcha’ com ramos verdes,
    para O seguirmos de forma humilde, serviçal e bem-disposta.
    Hoje, Jesus escancara as portas de Jerusalém,
    como se rasga um véu, um estrangulamento, um muro de separação.
    No fundo, todos os territórios murados, sem expectativa para o adventício,
    impermeáveis à liberdade e à comunhão dos povos, asfixiados nos medos.

 

  1. Braga é conhecida por ser a ‘cidade-da-porta-aberta’, não por esquecimento,
    em alusão à Porta Nova, nunca fechada, em sinal de hospitalidade na paz.
    Hoje de manhã, a porta da catedral, percutida com a cruz de Cristo, abriu-se.
    A chave onde Cristo foi levantado, saudada por folhas de oliveira,
    franqueou, de par em par, as pesadas e rangentes portas da Sé.
    Aquele bestiário românico do portal assistiu, impávido como uma ruína,
    à nossa entrada jubilosa, no rasto de Jesus, na sua sequela…
    Jesus pediu que soltassem a sua novidade, o seu futuro à antecipação,
    como se liberta a jovem mansidão presa à argola, o caminho aos aprisionados.
    Eis o sinal da libertação: soltar a pergunta e, com ela, prosseguir a cantar:
    «Bendito o que vem em nome do Senhor.
    Paz no Céu e glória nas alturas!» (Lc 19,38).

 

  1. Cheios de graça, os discípulos de Jesus não podem calar,
    nem serem repreendidos, a pedido da hipocrisia pública do meio da multidão.
    Porque, como diz Jesus, «se eles se calarem, clamarão as pedras» (Lc 19,40).
    A «louvar alegremente a Deus» (Lc 19,37) pelos sinais que vemos,
    aprendemos a linguagem do alento e da esperança
    em gestos simples, quotidianos, comezinhos até.
    E, assim, infundimos ânimo aos deprimidos (cf. Is 50,4).
    O Senhor nos conceda uma «língua erudita» (trad. Ferreira de Almeida)
    para consolar, alentar e descobrir o sol à esperança dos anoitecidos.
    Sejamos discípulos que rompem o silenciamento desejado por certos fariseus.
    Discípulos que não calam, no caminho, a clara alegria do Evangelho.
    Convém-nos que, nestes dias violentos e desesperançados,
    de mísseis para crianças à espera do comboio (em Kramatorsk),
    e de outros crimes de guerra que infelizmente não se desaprendem,
    pudéssemos dizer como o profeta Isaías:
    «O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo,
    para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos» (Is 50,4).

 

  1. Basta de profetas da desgraça!
    Os pessimistas não conhecem Jesus Cristo, alegre sobre um jumentinho,
    que nos anuncia a libertação do medo e «da morte vária» (José Augusto Mourão),
    e nos enriquece de bênçãos, como a chuva prometida para amanhã.
    Sejamos por isso compositores da esperança, incubadoras de futuro.
    Quem de entre nós deseja sepultar, no tédio, a alegria do Evangelho?
    Será que precisamos de sepulturas para vivos?
    Não precisaremos antes da loucura do Evangelho da cruz (cf. 1 Cor, 1,18)?
    Serão os vivos apenas cadáveres adiados que procriam (Fernando Pessoa)?
    Como é decisivo abrir janelas e horizontes e não covas ou valas comuns!
    Que aprendemos da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém?
    Não nos ocorreu que os seus discípulos (e, portanto, todos nós entre muitos)
    estão convocados para uma grande e urgente missão?
    O fiel seguidor de Jesus alimenta as suas palavras no rasto da alegria real,
    difundida na sua última entrada em Jerusalém.
    Sabe inserir-nos nos jogos e efusividades das crianças.
    Sabe fazer-nos sorrir e saltar com a sua graciosidade ‘cachorrinha’ (cf. Ch. Péguy).
    Sabe encher-nos de entusiasmo na jovialidade dos olhos utópicos dos jovens;
    e fazer-nos companheiros dos idosos, que aprenderam a ‘estar’,
    e, lentamente, meditam nas delícias amadurecidas dos seus dias.

 

  1. É verdade que no dia de hoje, ‘Domingo de Ramos na Paixão do Senhor’,
    a liturgia acorda uma confluência de sentimentos que podem confundir-nos.
    Como assim, direis vós?
    Como será possível conciliar, no espaço de um dia e na mesma celebração,
    a alegria efusiva das crianças e demais habitantes de Jerusalém
    com a intensidade do longo ‘raconto’ da Paixão do Senhor,
    que nos pode fazer mergulhar numa profunda tristeza espiritual?
    Parece que a alegria é vivida de forma tão fugaz,
    que logo é afogada pela torrente de tremendos sentimentos da Paixão de Jesus.
    É verdade, alguns já veem, nos ramos, as cinzas do início da próxima quaresma,
    e esquecem-se de agitá-los em aclamação e aplausos a Jesus que entra na cidade.
  2. Não deveria ser assim entre nós! Porquê?
    Porque deveríamos ser capazes de viver a provocadora entrada messiânica de Jesus:
    por um momento, reviver a esperança de ter já connosco,
    de forma aberta e sem subterfúgios, Aquele que vem em nome do Senhor.
    Na sua entrada, Jesus alteou os ‘pórticos antigos’ (cf. Sl 24) do nosso coração,
    rasgou o distendido véu que nos separava do encontro com Deus.
    Saibamos, pois, viver esta alegria de ter Jesus connosco,
    bem-aventurança que ninguém nos pode tirar,
    nem Pilatos nem os Príncipes ou Sumos-Sacerdotes do nosso tempo.

 

  1. Se compreendêssemos o alcance desta experiência de graça,
    saberíamos também quanto nos conviria convocar os sentidos e os sentimentos,
    para vivermos, intensamente e na íntegra,
    os mistérios da nossa história de salvação:
    o desejo ardente de comer e beber com Jesus esta Páscoa,
    e de jamais perder este apetite e esta sede todos os domingos, para Sua memória;
    a compreensão, de uma vez por todas, que o maior é aquele que serve como Jesus;
    o reconhecimento da nossa fragilidade, como Pedro nas lágrimas choradas,
    não obstante a oração de Cristo para que a nossa fé não desfaleça;
    a consciência de que nada nos faltará quando somos enviados em missão;
    a urgência de comprar uma espada, mesmo a troco do conforto do nosso corpo,
    não para cortar orelhas, mas para lutar contra os processos injustos como o de Jesus.
    Sim, há tanta gente que grita:
    «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?» (Sl 21).
    E pessoas que se silenciam, sem autodefesa, diante das provocações.

 

  1. Se aceitássemos esta palavra de alento com que Jesus nos anima,
    esqueceríamos a tristeza, a fim de não adormecermos nem entrarmos em tentação;
    saberíamos evitar todos os beijos de traição e entrega, como o de Judas;
    e detestaríamos toda a hipocrisia como o lavar de mãos de Pilatos;
    ouviríamos o galo cantar a todas as nossas negações de Jesus;
    ouviríamos as acusações que nos fazem nos átrios das nossas cidades;
    ouviríamos as lágrimas das mães, que choram por seus filhos,
    como as mulheres de Jerusalém, da Síria, da Ucrânia e da Rússia, do Iémen…
    das guerras hipermediatizadas e das guerras esquecidas;
    ouviríamos as súplicas dos malfeitores, dos arrependidos e dos atrevidos;
    ouviríamos o grito de Jesus, a confissão de fé do centurião e o rasgar-se do véu no Templo.
    Sim, ouviríamos muitas coisas se afinássemos os ouvidos do nosso coração.
    Quem dera que, como Isaías, pudéssemos dizer:
    «Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos,
    para eu escutar, como escutam os discípulos.
    O Senhor Deus abriu-me os ouvidos e eu não resisti nem recuei um passo».
    Não recuemos um centímetro que seja, porque Ele nos dá força até para correr.
    Peçamos um despertador matutino, não só para o levantar do sono,
    mas sobretudo para despertar os nossos ouvidos de discípulos.
    Supliquemos esta atenção e cuidaremos melhor uns dos outros.

 

  1. Se vivêssemos a experiência entusiástica da entrada de Jesus,
    não nos manteríamos à distância, como fizeram os discípulos;
    mas, pelo contrário, cheios de compaixão,
    pediríamos, como José de Arimateia, o corpo de Jesus,
    a fim de o envolvermos em nossos sentidos e sentimentos,
    purificados como um lençol novo,
    e escavaríamos no nosso coração o lugar do seu repouso.
    E, como as mulheres matutinas, prepararíamos aromas e perfumes,
    para, de coração escancarado, sem pedras à sua boca,
    anunciarmos a ressurreição do Senhor como o ar que se respira.

 

  1. Hoje, começamos por uma liturgia mimética,
    de tradição hierosolimitana, de Jerusalém, com ramos e cânticos.
    Juntamos, depois, a Paixão do Senhor, segundo a liturgia romana.
    Espero que esta ‘mistura’ não seja explosiva para a sensibilidade.
    Na quarta-feira à noite, podemos participar na ‘Procissão de Nossa Senhora da Burrinha’.
    E, de quinta-feira em diante, iremos viver cada ‘passo’ do mistério pascal,
    num tríduo, que nos convoca a uma participação ativa e consciente.
    Vinde e participai! A cidade de Braga acolher-vos-á de portas abertas!

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Triságia.

O texto corresponde à homilia deste domingo, 10 de abril, na liturgia católica, Domingo de Ramos.  

 

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