Absolutizar o território por causa da religião “corre o risco de ocupar o lugar do próprio Deus”

| 9 Dez 23

Francisco Martins: o povo de Israel fez de uma experiência de um pequeno grupo uma experiência identitária”, nela reconhecendo “a mão de Deus como libertador”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Francisco Martins: o povo de Israel fez de uma experiência de um pequeno grupo uma experiência identitária”, nela reconhecendo “a mão de Deus como libertador”. Foto © António Marujo/7MARGENS.

 

“Qualquer valor ou território que se torna absoluto por causa de uma dinâmica religiosa corre o risco de ocupar o lugar do próprio Deus.” A afirmação é do padre jesuíta Francisco Martins, biblista, entrevistado esta semana no programa 7MARGENS, da Antena 1, a pro09pósito do seu livro A Bíblia Tinha Mesmo Razão?, que acaba de ser publicado pela Temas e Debates, e do qual já divulgámos um excerto, em pré-publicação.

“A relação entre um povo, uma terra, um Deus, é uma relação muito típica da Antiguidade”, diz ainda este professor de Literatura Bíblica na Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma (Itália), nascido em Lisboa em 1983. “A relação com a terra e a ideia do regresso à terra modificou-se muito no interior do judaísmo rabínico”, depois da queda de Jerusalém no ano 70, explica Francisco Martins. “Os rabinos são muito prudentes” com essa ideia do regresso à terra, “por receio de tornar a terra um valor absoluto”.

No livro e na entrevista, Francisco Martins fala de questões da historicidade de alguns episódios e personagens bíblicos. Por exemplo, sobre o Êxodo – a saída dos judeus do Egipto, libertando-se do regime de escravatura – o biblista afirma: “Há um qualquer núcleo histórico na história do Êxodo, alguma experiência de libertação, de um pequeno grupo de escravos.” Sendo o livro escrito como uma epopeia, a narrativa não relata um facto histórico. “Provavelmente não houve um êxodo de 600 mil pessoas”, mas o “povo de Israel fez desta experiência que talvez tenha sido feita por um pequeno grupo uma experiência que é vivida comunitariamente pelo conjunto do povo e que tem o valor de experiência identitária”, nela reconhecendo “a mão de Deus como libertador”.

Abraão e Moisés, tal como também Isaac, Jacob e José “é possível que sejam” personagens históricas. “Negar a existência histórica destes antepassados cujos nomes parecem ter um certo peso na tradição bíblica não faz muito sentido”, diz Francisco Martins. Mesmo admitindo muitas dúvidas, em alguns casos. Por exemplo: “Sobre José no Egipto, nas fontes egípcias não temos nenhuma informação, não há nenhuma referência a um José.” Mas, por contraste, há “referência a outros estrangeiros que subiram na escala social do Egipto”.

“O que é interessante reconhecer – é a leitura que se propõe no livro – é que muitos dos episódios contados sobre estas personagens, históricas ou não, são roupagem literária”, diz ainda o especialista em Literatura Bíblica, licenciado em Filosofia e em Teologia, com mestrados em Teologia Bíblica e em Filologia Semita e História Antiga e doutoramento em Estudos Bíblicos na Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel).

 

Abraão, o pacificador

Rembrandt, Abraão (pormenor de Sacrifício de Isaac), 1635, Alte Pinakothek de Munique: “Abraão chega à Terra Santa e não começa a expulsar os habitantes que lá estão.”

Sobre Abraão, Francisco Martins diz que ele pode ser uma figura tutelar na pacificação das relações entre judeus, cristãos e muçulmanos. “Seguramente; na Bíblia há várias formas de conceber como é que o povo de Israel toma posse da terra.” Se no livro de Josué “Israel toma conta da terra e expulsa os outros, com Abraão e os patriarcas, temos uma visão diferente do que significa possuir a terra: Abraão chega à Terra Santa e não começa a expulsar os habitantes que lá estão”. Antes “negoceia a sua presença”. Por isso, ele “pode ser um óptimo modelo para as três religiões de como se pode habitar um lugar conflituoso, um lugar que deve ser de coabitação, quando surgem conflitos”, admite, referindo que todas as religiões abraâmicas já entraram em situações de guerra pela terra, como foi também o caso das Cruzadas, com a luta pela “posse da terra com exclusão de ‘infiéis’”.

Membro da Associação Bíblica Portuguesa e da Society of Biblical Literature, dos Estados Unidos, Francisco Martins compara também o seu trabalho com o do dominicano Francolino Gonçalves, que morreu em 2017, e que trabalhou na Escola Bíblica de Jerusalém, explicando a existência de duas doutrinas sobre Iavé no Antigo Testamento, como se fossem duas religiões distintas: uma concebendo o Deus criador que abençoa todos os seres vivos, numa perspectiva mais universalista de Deus; e a outra que entende Deus como aquele que está ligado a Israel, que protege e salva, numa perspectiva mais exclusivista.

Francisco Martins aprofunda sobretudo a questão dos politeísmos israelitas e do “imaginado monoteísmo de Moisés”. O monoteísmo israelita, explica o livro, só terá surgido no século VI a.C., depois do exílio da Babilónia. Com esse acontecimento histórico, os judeus perguntam-se: “Faz sentido rezar ao nosso Deus, agora que vivemos numa terra estrangeira?” – tendo precisamente em conta a identificação de um deus com um território concreto.

“É no ponto mais baixo da história política e social de Israel, quando o povo não tem terra, que nasce esta afirmação radical” de um “Deus verdadeiro” que não se identifica com um território concreto, mas com um povo, diz o biblista português. “A revolução monoteísta não aconteceu com Moisés, mas quando aconteceu no século VI/V a.C. é extraordinária. E é extraordinário que aconteça num povo que é humilhado pela história.”

 

Medo de ler a Bíblia

Francisco Martins: “A Bíblia é geradora de cultura e um marco cultural que interroga a cultura na qual vivemos.” Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

Francisco Martins: “A Bíblia é geradora de cultura e um marco cultural que interroga a cultura na qual vivemos.” Foto © Carlos Jorge Antunes/Antena 1

 

No livro, cujo título se refere a uma obra publicada em 1955 pelo jornalista e ensaísta alemão Werner Keller – A Bíblia Tinha RazãoA verdade histórica da Bíblia demonstrada pela arqueologia –, Francisco Martins critica o que designa como “concordismo peudocientífico” e que ainda hoje subsiste em alguns âmbitos. “Estão tão interessados em provar o que está na Bíblia que não respeitam o carácter literário da Bíblia”, que “é também literatura”.

As pessoas “têm medo de abrir a Bíblia” e receiam “ler passagens que criem mais problemas que respostas – sobretudo no Antigo Testamento, relativo à história de Israel, precisamente o foco deste livro. A Igreja Católica não tem conseguido propor formas diferentes de leitura e muita gente continua a ter “dificuldade em identificar a qualidade literária da Bíblia”, admite o padre jesuíta.

E sobre as diferentes traduções da Bíblia, elas devem ser feitas “usando os critérios científicos mais avançados na forma de traduzir”, afirma Francisco Martins. “Se há aspecto importante deste monumento literário é que a própria Bíblia é geradora de cultura e continua a ser um marco cultural que interroga a cultura na qual vivemos”, acrescenta, referindo-se às possibilidades de diálogo cultural que a Bíblia oferece.

Nas sugestões de leitura, o convidado desta emissão do 7MARGENS propôs a notícia sobre a ausência de celebrações festivas este ano, em Belém, vincando a ideia de um “Natal mais concentrado na oração e na vontade da paz”.

Como proposta cultural, Francisco Martins deixou a exposição O Tesouro dos Reis. Obras-primas do Terra Sancta Museum, patente na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, até 26 de Fevereiro. A mostra é composta por peças que resultam de doações feitas por diversos reis europeus – incluindo portugueses – para a Custódia da Terra Santa e várias igrejas cristãs no território.

A entrevista do padre Francisco Martins pode ser ouvida na íntegra no endereço do 7MARGENS na RTP Play: https://www.rtp.pt/play/p12257/7-margens

 

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