Abusar de nós

| 28 Abr 2023

“Muitas pessoas acabaram por perder a noção de coletivo. Vivem numa espécie de bolha da qual têm dificuldade em se libertar.” Ilustração: Direitos reservados.

“Passamos o tempo a abusar de nós, das nossas potencialidades, dos nossos dons, negligenciando-nos como se pudéssemos voltar atrás e reeditar a nossa existência.” Ilustração: Direitos reservados.

 

Nos tempos mais recentes toda a nossa atenção se tem dirigido para assuntos preocupantes e sérios que nos fazem inquietar, que nos fazem discutir e lutar por aquilo em que acreditamos, uns de uma forma mais ativa, outros de um modo mais discreto, mas também válido. Não há dúvida que o testemunho é um enorme instrumento de bem-fazer aos que temos à volta, àqueles que nos podem olhar com olhos de ver. A busca da coerência torna-se, dentro deste, o mais relevante sinal de quem pretende mudar o mundo ainda que, ao seu alcance, apenas se encontre um pequeno lugar.

Partindo da realidade atual e apesar de poder haver muito boa vontade e muita iniciativa para domínios face aos quais nos sentimos interpelados, todos sabemos que, nas pequenas coisas do nosso dia-a-dia, agimos frequentemente de forma insana e displicente, com base numa relação com a vida sobre a qual pouco refletimos, porque consideramos que é algo adquirido e sem relevo ou não consideramos coisa alguma, porque é tema que não nos ocorre aprofundar.

E, sim, na verdade, passamos o tempo a abusar de nós, das nossas potencialidades, dos nossos dons, negligenciando-nos como se pudéssemos voltar atrás e reeditar a nossa existência. Isto também são abusos, mas que não dão notícia porque, talvez erradamente, pareçam interessar pouco.

Mesmo em momentos como o que atravessamos, de vez em quando, somos despertados por aparentes banalidades que fazem a diferença nas nossas reflexões e que só por exceção dão notícia.

Um destes dias, num curto trajeto de automóvel, decidi ouvir as notícias e, primeiramente, nem percebi a razão daquela curta entrevista que apenas anunciava um concerto. Na verdade, escutando melhor, tratava-se de uma senhora de 88 anos, bastante alegre, bem-disposta e de cabeça arrumada. Descrevia com entusiasmo as atividades já desenvolvidas pelo coro, ao qual pertencia desde o seu início, há nove anos. Falava dos convívios, das pessoas encantadoras com as quais se cruzava, das amizades, das diversas atuações, dos solos que a própria fazia, das viagens com outros elementos. Este coral era feito de pessoas maiores de 70 anos.

Um exemplo de longevidade consistente, se assim pode ser dito.

Parecia difícil entender como é que se chega tão adiante no caminho da existência e se consegue tanto bem viver. Contudo, se é verdade que a ciência nos diz que os vínculos humanos são indispensáveis para a nossa saúde física e também mental, esta coralista estava a testemunhá-lo na primeira pessoa.

Há, naturalmente, mais condimentos para este bem existir. Destes destacam-se, por exemplo, a atividade física e intelectual, com aprendizagem de conteúdos novos; uma boa alimentação, saudável e variada; um bom sono; a manutenção do otimismo; o facto de saber gerir prioridades e, consequentemente, lidar bem com o stresse, etc.

O que parece mais interessante é que, quando olhamos para estes ingredientes, consideramos que são óbvios e que quase todos os encaixamos no nosso quotidiano. No entanto, numa visão mais detalhada dos tempos do nosso tempo, em cada dia que passa, conseguimos perceber que nem sempre fazemos tudo o que depende de nós e que seria muito fácil de concretizar, bastando, para tal, integrar nas nossas rotinas hábitos novos, fáceis e cientificamente comprovados como meios de bem viver.

A irritabilidade, a intolerância, a impaciência perante o que nos contraria, a incapacidade de lidar com a injustiça e com a hipocrisia alheia, são, por outro lado, meios de corrosão interior que precisamos de aprender a evitar, pois perturbam-nos e afetam-nos muito significativamente.

Não é possível mudar o comportamento dos outros, mas, se a isso não nos dedicarmos, conseguiremos não abusar de nós mesmos através de processos de autorregulação simples e que estão, muito mais do que podemos imaginar, inteiramente ao nosso alcance.

De facto, os condimentos de bem viver que acima são mencionados, um dos quais ilustrado de forma testemunhal, ainda precisam de se fazer acompanhar por um desafio que deve constar do nosso diálogo interior para nos posicionarmos como bons gestores de contrariedades. Como afirma Walter Rizzo, “ninguém pode fazer-te infeliz sem o teu consentimento”.

Não podemos controlar as condutas nem o caráter de quem nos rodeia, mas podemos, isso sim, trabalhar interiormente para que, haja o que houver, nos tornemos, no que de nós dependa, guardiões do nosso bem pensar e, consequentemente, do nosso bem sentir, caldo fundamental para a nossa saúde psicológica.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia. Contacto: m.cordo@conforsaumen.com.pt

 

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