Na África, mas não só

Abuso de freiras na Igreja Católica: um tema tabu

| 16 Out 2022

freiras religiosas abusos foto c hemera

O Vaticano pressionava para que muitos casos fossem encobertos. Foto © hemera

 

O abuso de freiras por parte de membros do clero em África foi o tema da tese de doutoramento que uma freira do Togo, Mary Lembo de seu nome, defendeu na Universidade Gregoriana, em Roma, em 2019, tendo sido aprovada com a classificação máxima (suma cum laude) e, na ocasião, felicitada pela sua coragem. O trabalho acaba de ser publicado em livro nas edições Salvator, em França, com o título “Réligieuses abusées en Afrique – Faire la vérité” [Religiosas abusadas em África – falar verdade].

O canal televisivo católico KTO TV dedicou há dias um programa ao assunto, no qual, além da investigadora, participaram uma superiora geral, um missionário psicoterapeuta e a historiadora e académica Lucetta Scaraffia, que dirigiu até 2019 o suplemento Mulheres, Igreja, Mundo, do Osservatore Romano. É desse programa que respigamos os principais momentos da conversa.

O problema dos abusos sexuais no interior da Igreja Católica continua a manifestar-se através da revelação de casos novos, do conhecimento de atos de encobrimento, da publicação de relatórios de situação. Portugal, a Espanha e a Itália estão na fila, a aguardar a publicação de estudos que se encontram em curso. Mas esquecemo-nos que as medidas de tolerância zero que o Vaticano pôs em campo falam de crianças, mas também de “pessoas adultas vulneráveis”, ou seja, em situação permanente ou ocasional, que limita a sua “capacidade de entender ou de querer ou ainda de resistir à ofensa”.

Ora, sendo compreensível que os abusos cometidos sobre crianças choquem e chamem mais a atenção, quanto aos tais adultos vulneráveis o silêncio continua a vigorar. E nada garante que o assunto não seja igualmente sério, como o comprova o estudo de Mary Tembo.

No programa da KTO, a religiosa da Congregação das Irmãs de Santa Catarina de Alexandria (CSC) começou por explicar as dificuldades que encontrou, quando enveredou pela investigação do tema escolhido. As situações que encontrou, nomeadamente a dificuldade de as religiosas falarem de relações abusivas que tinham vivido, articulavam-se com a descrença de que um estudo sobre o tema adiantasse alguma coisa ou que ele iria redundar em desprestígio para a Igreja.

A par de tais dificuldades, Lembo enfatizou o facto de as vítimas de abusos por parte de padres serem-no em duplicado: pela relação abusiva propriamente dita e pelo silêncio e isolamento a que se remetiam, com medo de colocar a situação na comunidade em que viviam. As tentativas que algumas fizeram para romper esse silêncio redundou em penalização acrescida: não lhes ser dado crédito ou, mesmo, insinuar-se que foram elas a seduzir o abusador.

A investigação teve de ser feita com um número reduzido de casos, mas que asseguraram, em contrapartida, abordagens em profundidade sobre os contextos e os mecanismos em que os predadores abordavam, cercavam e violentavam as freiras.  O fator de base, segundo explicou, começava com o poder simbólico associado ao padre: ele era o conselheiro, o homem de Deus, uma “autoridade”. Tudo se organizava para nele se concentrar não apenas a confiança, mas até a admiração. As religiosas desenvolviam a ‘cultura’ de que deviam servir o padre que prestava serviço à comunidade e este colocava-se precisamente nesse papel de ser servido. Em função das caraterísticas das potenciais vítimas, os avanços começavam em torno de uma delas. O estado de perturbação da vítima, por vezes até o seu silêncio, tornavam-na vulnerável, sobretudo porque estava sozinha e temia revelar o que estava a acontecer. No caso de responder com uma negativa, podia mesmo deparar-se com comportamentos violentos.

 

“Problema não é massivo, mas é inquietante”

A experiência do padre e terapeuta Stéphane Joulain, missionário dos Padres Brancos no Quénia, foi esclarecedor de vários pontos de vista. Refletindo a partir de casos que encontrou no seu trabalho clínico, disse serem frequentes as situações em que as jovens religiosas têm condições de vida precárias, dependendo de padres ou mesmo de leigos com alguns meios económicos para necessidades elementares como pequenas somas de dinheiro, crédito em cartões telefónicos ou fotocópias. Aí os predadores pressionam para que a satisfação dessas necessidades seja trocada por favores sexuais. Elas são um alvo mais procurado porque vivem em comunidade e correm menos risco de transmitir o vírus do HIV.

Segundo o missionário, não se trata de um problema massivo, mas com dimensão suficiente para poder ser considerado “inquietante”. Além disso, é mais provável que aconteça em instituições religiosas de âmbito diocesano, dependentes do bispo local, do que nas grandes congregações internacionais.  Neste último caso, há circulação de pessoas, visitas externas e prestação de contas, ao passo que, nas instituições de âmbito diocesano, o acompanhamento nem sempre será o desejável, o que deixa as consagradas em situação de mais vulnerabilidade.

Há, além disso, um aspeto de natureza cultural, em que tanto Mary Lembo como Stéphane Joulain estão de acordo: a sexualidade, em África, continua a ser tabu, assunto de que não se fala, mesmo entre os casais.  E se é assim relativamente à sexualidade, o silêncio é muito maior relativamente a situações de abuso, em que a dimensão socioeconómica se conjuga com a psicológica, a espiritual e a sexual.

Ambos também consideram que o rompimento deste silêncio e a “libertação da palavra” passam necessariamente pela formação e pela criação de espaços seguros e de confiança. É também necessário, segundo os dois, que haja pessoas que se formem para a escuta e para o aconselhamento.

Presente na mesa redonda estava também Françoise Petit, superiora geral das Filhas da Caridade, a qual alertou para a necessidade de as congregações fazerem algum caminho no sentido de combater aquilo que designou como “vitimização pela congregação”, quando, perante a pessoa abusada, aquela reage recusando-se a acreditar. Defendeu ainda a necessidade de redes locais de ajuda especializada para este tipo de situações.

 

“A resistência veio sobretudo do Vaticano”

Na parte final do programa, juntou-se também Lucetta Scaraffia para referir que, quando exercia as funções de responsável pelo suplemento do Osservatore Romano, começou a receber mensagens e telefonemas a alertar para este tipo de abusos de religiosas e foi na sequência disso que percebeu, com a sua equipa, que não podiam deixar de tornar público o assunto.

Nas denúncias a que tinham tido acesso, oriundas não apenas da Igreja de África, da Índia ou de países do terceiro mundo, mas também de países católicos da Europa, vinha sempre a queixa de que os dicastérios do Vaticano tinham sido avisados, mas nunca tinham desencadeado iniciativas para averiguar o que se passava. Ela própria, segundo disse, fez a experiência de que “era a hierarquia da Igreja que não queria admitir a existência deste tipo de violência, de relações de força para com as religiosas”, já que também não desejavam que o assunto fosse tratado no jornal do Vaticano. “A resistência foi sobretudo no Vaticano”, acrescentou

Do seu ponto de vista, “a hierarquia do Vaticano, considera que estes casos não são senão relações românticas, resultantes de transgressões do voto de castidade; não há violência nem excesso [superchérie] de homens sobre mulheres”.

A gravidade desta posição romana reside, para Lucetta Scaraffia, no facto de as mulheres engravidarem, em numerosos casos, havendo, por conseguinte, vidas de crianças em jogo. Ela assume ter havido casos em que os padres abusadores ou mesmo bispos pagaram abortos, para resolver situações de freiras que engravidaram de padres, o que constitui um escândalo para a Igreja e explica, a seu ver, que tudo seja feito para que o tema não seja tratado.

Para esta historiadora, a possibilidade de mudar alguma coisa depende apenas das próprias mulheres, que devem “denunciar as situações à justiça civil, já que a justiça eclesiástica nunca o fará”.  “As mulheres devem fazer-se respeitar na Igreja – prossegue Scaraffia – porque não basta que o Papa coloque algumas mulheres em lugares de ‘quase-poder’ na hierarquia da Igreja. Urge que todas as mulheres sejam respeitadas, que os corpos das mulheres sejam respeitados” e que se olhe a sexualidade na Igreja de outro modo.

 

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