Abusos: entre a vergonha e a esperança

| 16 Out 2021

padres, clero, clérigos,

“A formação em seminários ainda continua a ser tendencionalmente masculina, distante de processos familiares, pouco dimensionada à pastoral…”. Foto: Direitos reservados.

 

Saiu agora mais um relatório sobre a realidade dos abusos sexuais, desta vez em França.

Recordo outras situações como EUA, Polónia, Irlanda, Austrália, Nova Zelândia, Alemanha…todos, segundo os critérios diferenciados de estudo e análise, vão mostrando uma realidade que envergonha a Igreja Católica e a sociedade, manifestando não apenas escândalo, mas também situações de indiferença e até crueldade. Há perguntas que vão ficando: como foi possível esta realidade? E em Portugal, será diferente? Será uma ferida exclusiva da Igreja? Não conheço profundamente os contextos destes países, mas há realidades que suscitam alguns questionamentos.

A difícil reforma dos seminários. No pós-Concílio Vaticano II, foi lento o processo reformador nestes países da vida em seminário. Recorde-se que só a partir da década de 1990, com a Exortação Pastores Dabo Vobis (1992), o Papa João Paulo II aponta de forma inequívoca alguns caminhos claros, na valorização da dimensão afetiva e sexual, nas características de uma maturidade humana exigível, no auxílio da competência da psicologia (que só mesmo na última década foi mais clarificada), na correta integração psico-espiritual e na dimensão pastoral de toda a formação.

As mais recentes orientações da Santa Sé para a formação nos seminários (2016) são expressão deste caminho que a Igreja acolheu a partir do impulso do Papa João Paulo II e que ilumina muitas das opções da formação dos seminários em Portugal; porém, ainda hoje as orientações e normas para a formação nos seminários em Portugal datam de 1992, anteriores à Exortação do Papa, aguardando-se que surjam novas orientações.

A formação em seminários ainda continua a ser tendencionalmente masculina, distante de processos familiares, pouco dimensionada à pastoral, demasiado centrada na dimensão intelectual e, muitas vezes, com os formadores possíveis mas, nem sempre, com aqueles que se preparam para essa competência. Alguns destes países que os relatórios visam, manifestam, ainda hoje, uma realidade bastante pantanosa no âmbito da formação ao presbiterado e, ao mesmo tempo, contextos de comunidades religiosas, que fruto da diminuição de vocações, se tornam bastante criativas nas adaptações das exigências da formação. Já para não falar, também em Portugal, da falta de projetos de formação permanente do clero que auxiliem a valorizar muitas destas dimensões formativas. O Papa João Paulo II em 1992 pedia isso mesmo!

Um estudo mais comparado. Dos relatórios que a comunicação social foi fazendo eco, existem elementos que são necessários para se ajuizar a ação da Igreja no seu contexto sócio-cultural. Como é a realidade, nestas décadas estudadas, nos contextos familiares, desportivos e escolares? Penso que este conhecimento não serve para escamotear o escândalo e o mal, mas permitirá uma maior clareza quanto àquilo que se passou na Igreja nestas décadas e também nas comunidades educativas da própria sociedade. Este elemento é importante para um maior respeito às vítimas e à reparação de processos. Será uma crueldade acontecida exclusiva e expressivamente em contexto eclesial ou acompanhou uma realidade que manifesta a forma como a sociedade lidava com a autoridade, com a sexualidade, o escândalo, a proteção dos menores, etc? Se a realidade nestes países demostrasse que a Igreja foi um caso à parte onde os abusos se tornaram mais recorrentes que nas demais comunidades, estamos diante de uma realidade que deveria levar a Igreja local a um processo profundo de autocrítica; caso acompanhe um uma tendência comum, exige-se que este processo seja acompanhado enquanto sociedade.

Uma realidade evolutiva. Qual a evolução ao longo das décadas dos casos apontados de abusos? Será uma análise importante para se perceber se algumas reformas do Concílio Vaticano II, a sua aplicação, a vida dos seminários, os processos mais seletivos de admissão e ordenação e a atenção à formação permanente do clero geraram, nestes países estudados, uma clara tendência positiva ou qual a relação destas reformas com o maior ou menor aumento dos casos relatados. Da evolução manifestada ao longo das décadas estudadas poderá estar também o nosso índice de esperança quanto à forma como a Igreja tem conseguido aplicar normas, reformar estruturas e formar os seus presbíteros segundo o coração pastoral de Jesus.

E em Portugal? Não creio que exista uma realidade parecida, ainda que um estudo semelhante possa surpreender negativamente por tantas realidades que se foram vivendo de forma encoberta e silenciada. Reconheço o esforço da Igreja em Portugal em viver processos de reforma, mas a realidade é sempre mais lenta que o desejado.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz.

 

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