
“Continuamos apostados no caminho que a Igreja tem vindo a percorrer para que os ambientes eclesiais sejam cada vez mais seguros para as crianças, jovens e adultos vulneráveis”, garantiu José Ornelas na abertura da 206ª assembleia plenária da CEP. Foto © Agência Ecclesia.
A 206.ª assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) começou esta segunda-feira, 17 de abril, em Fátima, com o seu presidente, José Ornelas, a deixar claro que o tema dos abusos no seio da Igreja Católica será o ponto principal da agenda dos bispos nos próximos dias. No seu discurso de abertura, em que também se referiu à guerra e à crise económica, o presidente da CEP sublinhou que o reconhecimento dos erros e os pedidos de perdão “só têm sentido na medida em que são acompanhados de decisões e ações concretas para transformar a realidade” e assegurou que a Igreja está empenhada nessa transformação.
“Continuamos apostados no caminho que a Igreja tem vindo a percorrer para que os ambientes eclesiais sejam cada vez mais seguros para as crianças, jovens e adultos vulneráveis, e para que os crimes cometidos no passado possam ser reparados, na medida do possível, e não voltem a acontecer”, afirmou o bispo de Leiria-Fátima, garantindo que a CEP tem estado ” a analisar e a integrar as recomendações resultantes do estudo da Comissão Independente, em articulação com a Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas (ECN)”.
O atual presidente da CEP referiu-se em particular ao “grupo de acompanhamento” de vítimas de abusos na Igreja, que se encontra “em fase de organização, em ordem à sua aprovação e entrada em vigor” e que se soube na passada quinta-feira que será coordenado pela psicóloga Rute Agulhas. Durante a assembleia, adiantou Ornelas, “será analisada e votada a constituição e o projeto deste grupo, que deverá estar a funcionar nas próximas semanas”.
O representante dos bispos esclareceu ainda que “este grupo deverá ter a autonomia necessária para acolher e acompanhar as vítimas e para assegurar o necessário apoio e a possível recuperação dos danos por estas sofridos, dispondo de uma linha de atendimento e de condições para o contacto e acompanhamento pessoal”.
Ainda sobre o tema dos abusos, José Ornelas reconheceu, como se pode ver no vídeo a seguir, que “este tem sido um percurso doloroso para todos, particularmente para os membros do clero, feito de quedas e espinhos” e convidou “todo o clero e fiéis” para que se unam à “jornada nacional de oração pelas vítimas de abusos sexuais, de poder e de consciência na Igreja”, agendada para esta quinta-feira, 20 de abril, dia de encerramento da assembleia plenária. Pelas 11 horas, os bispos celebrarão uma missa por esta intenção na Basílica da Santíssima Trindade.
A Igreja está a mudar, mas Ornelas pode ficar
Para o presidente da CEP, “a questão dos abusos revela uma mudança dentro da Igreja”, o que vai ao encontro do espírito da “sinodalidade”, ou seja, de uma atitude de “viver a Igreja como ela é, nas suas diferenças e nos seus ritmos próprios, sem dispensar ninguém, mas fazendo caminho em conjunto, como família, cuidando de todos, com especial atenção aos mais frágeis”.
Recordando a presença portuguesa na etapa continental europeia do Sinodo, José Ornelas sublinhou os “elementos portadores de esperança” que dela saíram, como “a vontade, claramente expressa, de combinar a diversidade com a unidade; a transformação missionária da Igreja e a busca de novos caminhos de presença e de anúncio do Evangelho; o diálogo sobre as grandes e novas questões da humanidade, nomeadamente na busca de respostas para a emergência climática, os avanços da ciência e da tecnologia, a vitória sobre a miséria e a guerra”.
Dando como exemplo de “sinodalidade concreta” a própria assembleia da CEP, “e especificamente a eleição dos seus órgãos colegiais de coordenação e direção, que terá lugar durante esta 206.ª assembleia”, o atual presidente da CEP recordou não existirem listas de candidatos, “pois não é esse o espírito, nem a tradição”, e que “as eleições são sempre livres, contando com o discernimento de cada um dos participantes, para o melhor bem da Igreja”. O bispo acrescentou ainda que se espera que “os escolhidos aceitem os cargos para que forem eleitos, a não ser que qualquer razão grave seja apresentada”, parecendo, assim, admitir estar disponível para continuar no cargo caso seja reeleito, apesar de notícias recentes sugerirem o contrário, tal como o 7MARGENS referiu.
“Ousadia, coragem e rasgo” para responder aos mais pobres
No discurso com que abriu os trabalhos desta assembleia plenária da CEP, o bispo José Ornelas referiu-se também à Jornada Mundial da Juventude, que terá lugar de 1 a 6 de agosto em Lisboa, e para a qual “há ainda muito trabalho a fazer e soluções a procurar e ajustar”. Relativamente ao acontecimento, o bispo de Leiria-Fátima defendeu que “o surgir de polémicas e discrepâncias de pontos de vista deve conduzir à melhoria dos projetos em curso” e elogiou “a vontade de esclarecer e responder com clareza às questões que surgem, sem deixar de se concentrar nos objetivos pelos quais foi aceite este desafio”.
José Ornelas fez depois uma referência a outras “questões cruciais que são objeto de grande preocupação, tanto a nível nacional como internacional”, nomeadamente “a guerra que há mais de um ano grassa perto de nós, causada pela invasão da Ucrânia” e também as consequências deste e de outros conflitos espalhados pelo mundo, como as crises climática e económica.
“Para além da legítima afirmação de diversidade de soluções para os problemas, a sociedade precisa igualmente que se busquem caminhos com um horizonte temporal que vá para além do imediato e que possam capacitar as pessoas com menos recursos individuais, sociais e financeiros”, apontou o presidente da CEP. “A ajuda de emergência é fundamental e a Igreja sabe bem disso, mas é preciso ousadia, coragem e rasgo para equacionar soluções de médio e longo prazo, que mitiguem a vulnerabilidade e a exposição a fatores conjunturais que penalizam sempre os mais pobres”, concluiu.










