Abusos, mais abusos e protestos

| 15 Abr 2023

A ilustração do artista TVBoy, sobre os abusos sexuais. Foto: Direitos reservados

 

Começo por dizer que sou católica e que observo gostosamente várias práticas de devoção (eucaristia e confissão frequentes, terço diário…). Acredito que a Igreja foi instituída por Cristo e que serve para ajudar os homens a vencer o mal, sobretudo o que nasce no coração. O que vou dizer não vem de fora, mas de dentro, porque gostaria de poder dizer com verdade que a minha identidade mais profunda é ser filha e membro da Igreja – e é nessa qualidade que pretendo dar o meu contributo para a discussão em curso, com todo o respeito pelas opiniões contrárias.

É manifesto que a vida da Igreja neste mundo tem sido feita de luzes e sombras; o tratamento da questão dos abusos foi indubitavelmente uma zona sombria e, nos casos em que continua na sombra, é essencial fazer incidir sobre ela um potente foco.

Há quem se queixe do trabalho que tem sido feito pelos jornalistas. Também a história do jornalismo é feita de luzes e sombras. Mas prefiro recordar que foi graças aos jornalistas que começámos a tratar deste assunto. Isso quer dizer que vale tudo? Nem por sombras. Mas quer dizer que, nesta matéria, nós demos o flanco à grande e temos pouco de que nos queixar. Que alguns meios se aproveitem para magoar intencionalmente não deve surpreender-nos, e fica com a sua consciência – nós temos de olhar para a nossa e o que vemos não é agradável.

Também há quem se queixe da constituição da comissão que estudou os abusos, argumentando que deveria ser constituída por católicos. Pergunto-me o que acharíamos se, em qualquer outra instituição, os desmandos da mesma fossem investigados pelos seus membros. Não podemos esquecer-nos de que somos aqueles que, durante anos, escondemos, mentimos, disfarçámos e assobiámos para o lado quando confrontados com estes casos; e agora, dum momento para o outro, queremos que confiem em nós para nos investigarmos a nós próprios, depois de termos mostrado que não somos de confiança? A comissão poderá ter muitos defeitos; uma das suas virtudes é certamente o facto de a profissão da fé católica não ter sido um critério para a escolha dos seus membros. 

O trabalho da comissão não foi exemplar? Não, não foi. Isso desqualifica tudo o que fizeram? Nem pensar. E as intenções com que o fizeram, além de não poderem ser julgadas (estamos mesmo proibidos de o fazer, recorde-se), são totalmente irrelevantes para o assunto. O que interessa é pegar no material fornecido e agir em consequência. E o mais depressa possível. 

A Igreja estabeleceu como critério nesta matéria – um critério que já vem do pontificado anterior e que foi reforçado neste pontificado – que a defesa das vítimas está em primeiro lugar. Isto significa que nenhuma outra coisa, nem a honra da Igreja, nem a honra dos padres, pode estar igualmente em primeiro lugar. Isto gera situações dolorosas? Gera certamente. É fácil de dizer por uma pessoa que nunca será sujeita a suspeitas e enxovalhos nesta matéria, porque não é nem pode ser padre? Também. Mas não há dois primeiros lugares ex aequo, só há um. E esse é ocupado pelas vítimas. Incluindo aquelas que só conseguem fazer denúncias anónimas.

Infância. Abusos. Série "Childhood Fracture" (V), de Allen Vandever

Série “Childhood Fracture” (V), de Allen Vandever. Reproduzido de Wikimedia Commons

 

Eu não faço ideia, graças a Deus, do que seja ser vítima de um crime destes; mas suspeito que, se tal me acontecesse, teria muita dificuldade em fazer outra coisa que não fosse uma denúncia anónima. Que isto pode dar azo a terríveis injustiças? É evidente que sim, e o lamentável e revoltante caso do cardeal Pell – que passou mais de um ano na prisão por uma denúncia que não foi anónima, devido a um julgamento onde não houve nenhum vestígio de aplicação de justiça, como ficou patente pela sentença absolutória final do Supremo Tribunal da Austrália – prova-o à saciedade. Mas eliminar a possibilidade de alguma denúncia anónima ser verdadeira não é pôr as vítimas em primeiro lugar. Nesta matéria (e provavelmente em todas), não pode haver pessoas acima de qualquer suspeita. Vezes demais temos encontrado, na vida pública e na história da Igreja, pessoas acima de qualquer suspeita que afinal não o eram. Acima de qualquer suspeita estava Pedro, o primeiro papa, e negou Cristo. A possibilidade material de algo ter acontecido tem de dar origem a uma investigação, por muito dolorosa que ela seja. 

Completo este argumento com uma declaração pessoal: estou disposta a pôr a mão no fogo pela maioria dos padres que conheço, incluindo o pároco de São Nicolau, em Lisboa. Pela minha experiência, são santos, totalmente altruístas e dispostos a sacrifícios incontáveis pelo bem das almas, incluindo a minha. Mas isso não me leva a sugerir que não devem ser aplicadas a todos eles as medidas previstas em caso de denúncia. O que seria se começássemos a aplicar o critério de que algumas pessoas não são investigáveis? Não foi ele, aliás, aplicado vezes demais?

Também se pede muitas vezes que esta matéria seja investigada noutras instituições e noutros âmbitos, e não posso estar mais de acordo. Se realmente se quer pôr fim a este flagelo, faça-se tudo (tudo!) para acabar com ele no resto da sociedade, onde tem uma incidência imensamente superior à que tem na Igreja. Ainda assim, recordo que nenhuma outra instituição diz de si própria que alguns dos seus membros (em momentos muito rigorosamente definidos) são Deus; não é uma afirmação secundária ou despicienda. A Igreja assenta uma parte significativa da sua missão na distribuição, através dos padres, das maravilhas divinas conquistadas por Cristo na cruz; e afirma que esses padres são o próprio Jesus Cristo quando celebram a missa (pois só Jesus pode dizer “Isto é o meu corpo”) e perdoam os pecados (pois só Jesus pode dizer “Eu te absolvo dos teus pecados”). Uma instituição que tem em tal conta alguns dos seus membros – não por mérito seu, naturalmente, mas por decisão de Deus – não pode sugerir que algumas das suas malfeitorias são comparáveis às de outras instituições. Que os padres são homens, e sujeitos, como todos os outros, à tentação, não há dúvida nenhuma; mas, por isso mesmo, a vigilância (a começar pela autovigilância) tem de ser constante e a atuação de quem os governa rápida e certeira.

Foto © Pixabay

 

Gostaria ainda de deixar o meu modesto contributo para a discussão de duas soluções que têm sido aventadas para a resolução deste problema dentro da Igreja.

A primeira proposta é acabar com o celibato dos padres. As estatísticas – que, neste caso, dada a natureza dos delitos, não podem ser mais do que tendenciais – sugerem que a maioria dos casos de abuso se dão no interior das famílias, o que significa que, se os padres se casassem, o problema seria potencialmente semelhante ou mesmo superior. Por outro lado, estes crimes não expressam, manifestamente, uma sexualidade de tipo conjugal, que ansiasse por ser saciada num contexto matrimonial, pelo que não seria o casamento que a aplacaria. (Note-se, de passagem, que a maioria dos padres não mostra qualquer desejo de se casar – muito já têm com que se entreter!)

A segunda solução falada é acabar com o segredo da confissão nesta matéria, obrigando os padres a denunciar as pessoas que se confessassem deste assunto. Para além das questões práticas que tornam esta obrigação muito difícil de concretizar (só quem nunca se confessou pode julgar que um padre pede a identificação a um penitente ou que o faz dizer o nome, se ele não quiser revelar-lho – ou sequer que lhe vê nitidamente a cara, se o penitente recorrer ao confessionário, como tem o direito de fazer), um criminoso que quisesse manter o seu crime oculto às autoridades teria de ser completamente idiota para ir confessá-lo a uma pessoa que sabe ter a obrigação de o denunciar a essas mesmas autoridades. Seria mais prático confessar-se nas redes sociais.

As soluções são outras, e já foram apresentadas abundantemente – melhor triagem, melhor formação, renovação da fé e da realidade do sacerdócio, acompanhamento pessoal a todos os níveis e durante toda a vida; cuidados práticos de base, como já são aplicados em muitas instituições; e, em caso de prevaricação, atuação imediata e corajosa das autoridades eclesiais.

O que a Igreja tem a propor e a oferecer à humanidade é precioso, e corre o risco de ficar obscurecido quando não reconhecemos os males que praticámos e não procuramos soluções para eles. Foi-nos confiado por Cristo o mandato de levar a sua boa nova e a sua salvação e todos os homens. Para isso, precisamos de ser santos. Todos nós. Com as nossas múltiplas e terríveis fraquezas (eu conheço as minhas). E temos de começar por ser credíveis e de confiança.

Maria José Figueiredo é doutora em Filosofia, tradutora independente e católica. 

 

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