Abusos sexuais e recrutamento dos padres

| 4 Mar 2023

Relatório da Comissão Independente para a investigação dos crimes de abusos sexuais na Igreja Católica veio tornar público aquilo que já se esperava.

 

O relatório da Comissão Independente para a investigação dos crimes de abusos sexuais na Igreja Católica veio tornar público aquilo que já se esperava. Os portugueses não são diferentes dos outros povos. A investigação em outros países já tinha trazido a lume esta ignomínia.

Importa saber agora quais são as causas profundas deste fenómeno hediondo e quais as medidas que urge levar a cabo para lhe pôr fim. Neste artigo quero apenas aflorar o tema, dando um pequeno contributo para a resolução desta questão de enorme alcance.

Quanto às causas, julgo ser possível determinar uma relação direta entre a forma como tem sido feito o recrutamento dos padres e a dimensão do fenómeno. O modelo de recrutamento manifesta assim as suas enormes fragilidades.

Em primeiro lugar, a palavra “presbítero” (“ancião”) afastou-se há muito do seu significado original. Os “presbíteros” são ordenados ainda muito jovens, com pouco mais de vinte anos, sem quaisquer provas dadas no contacto direto com as comunidades cristãs locais.

Além disso, a comunidade cristã de base não é chamada a escolher o seu líder a partir da sua forma de atuação, da sua experiência vital, da sua capacidade para o diálogo e o acolhimento e o seu provado equilíbrio emocional e afetivo. Bem pelo contrário, é o jovem que se autopropõe, crendo estar investido de um chamamento que o habilita a tal.

Logo que a sua pretensão é aceite, é retirado do convívio natural com os restantes membros das comunidades locais, sobretudo com mulheres, e “enclausurado” numa instituição onde se preserva e promove a sua distância em relação às comunidades reais e se procede a uma educação inteiramente clericalista, alheia à vida concreta e ao mundo real. Desta maneira, transformam-se os candidatos numa casta separada cujo objetivo parece ser (e é, efetivamente, em muitos casos) o de levar a bom porto uma carreira eclesiástica, investindo nela todas as suas energias. É por isso que muitos dos que chegam a bispos e cardeais estão imbuídos desta nefasta ideia de que triunfaram ao alcançarem os mais elevados lugares da carreira, muitas vezes prescindindo da sua liberdade de opinião e expressão ou levando vidas duplas.

Impossibilitados de viver uma existência emocionalmente equilibrada e afetivamente natural, ao longo da sua vida vão escondendo não apenas as suas naturais necessidades sexuais como, sobretudo, as experiências concretas no plano afetivo e sexual. E não é natural que assim seja? Infelizmente, é o próprio sistema que reúne as condições para que tal esquizofrenia existencial ocorra, provocando desequilíbrios que, num outro sistema, poderiam ser evitados.

Que alterações a este estado de coisas urge fazer? Antes de mais, eliminar o celibato obrigatório. Alguns candidatos a presbíteros poderão sentir-se vocacionados para uma vida celibatária, sem que isso moleste o seu equilíbrio emocional. Mas, para a maior parte, o celibato é uma violência sobre a pessoa, promovendo indiretamente vidas duplas e desequilíbrios afetivos com repercussões negativas na relação com os outros.

Em segundo lugar, ninguém deveria ser investido na função de presbítero sem ter sido provada a sua maturidade. O presbítero (homem ou mulher) deveria ser escolhido de entre aqueles que deram provas de maturidade e equilíbrio afetivo, humano e crente. Por isso, os candidatos a presbíteros não devem ser demasiado jovens nem podem ser afastados da vida concreta das comunidades, mas viver inseridos nelas, relacionando-se com todo o tipo de pessoas e provando a sua capacidade de diálogo, tolerância e liderança, como se exige de qualquer presbítero.

A quem caberia realizar a escolha do presbítero? Num sistema tão clerical como o atual, as comunidades concretas nada têm a dizer sobre o assunto! Também neste aspeto, o atual sistema está profundamente caduco. As comunidades devem ter um papel determinante na escolha dos seus líderes. Ainda que a palavra final possa ser do bispo, este deveria escolher a partir de uma lista que lhe seria facultada pelas comunidades locais. Longe de qualquer secretismo (como atualmente ocorre com os bispos), o sistema deveria ser claro e transparente. 

Também os bispos deveriam ser escolhidos com base em critérios transparentes por organismos que incluam presbíteros, mas também leigos com responsabilidades diocesanas. O líder da comunidade diocesana deve ser escolhido pela própria comunidade diocesana, ainda que sujeito ao escrutínio posterior do bispo de Roma. Tal como o líder da comunidade paroquial deveria ser escolhido pela própria comunidade local, ainda que tivesse de ser aprovado pelo bispo diocesano. Se assim fosse, provavelmente teriam sido evitados muitos dissabores.

Por último, a formação dos candidatos deve ocorrer no contexto das comunidades concretas e nunca num sistema de seminários que os isole da vida. É para liderar as comunidades que eles se preparam, não para pertencerem a uma casta especial que lhes abra caminho a uma “comunidade sagrada”, distinta das comunidades cristãs locais, como se tivessem adquirido uma identidade cristã superior, num patamar existencial a que os restantes cristãos não podem ter acesso.

Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.

 

Uma Via-Sacra especial em Guimarães

23 de março

Uma Via-Sacra especial em Guimarães novidade

A música de artistas portugueses como Pedro Abrunhosa, Marisa Liz e Tiago Bettencourt integrará uma Via-Sacra especial organizada pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Guimarães, e cujas receitas reverterão para o restauro de uma capela. A iniciativa está marcada para o próximo dia 23 de março.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

 

23 de março

Uma Via-Sacra especial em Guimarães novidade

A música de artistas portugueses como Pedro Abrunhosa, Marisa Liz e Tiago Bettencourt integrará uma Via-Sacra especial organizada pela Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, em Guimarães, e cujas receitas reverterão para o restauro de uma capela. A iniciativa está marcada para o próximo dia 23 de março.

Iniciativa ecuménica

Bispos latino-americanos criam Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo

O Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam) lançou oficialmente esta semana a Pastoral das Pessoas em Situação de Sem-abrigo, anunciou o Vatican News. Um dos principais responsáveis pela iniciativa é o cardeal Luís José Rueda Aparício, arcebispo de Bogotá e presidente da conferência episcopal da Colômbia, que pretende que a nova “pastoral de rua” leve a Igreja Católica a coordenar-se com outras religiões e instituições já envolvidas neste trabalho.

Uma ativista e uma catequista à conversa com uma teóloga e um padre

Uma ativista e uma catequista à conversa com uma teóloga e um padre novidade

Georgina perguntou-se sobre como explicar a dificuldade de relação dos bispos africanos com o mundo LGBTI+, Helena congratulou-se pela presença de leigos na aula sinodal, Serena sublinhou que a participação não se limita a “fazer parte”, inclui “tomar parte”. Aconteceu no Fórum Europeu de Grupos Cristãos LGBTI+, no qual participou Ana Carvalho.

O “Boletim Cinematográfico” na Igreja em Portugal – uma memória histórica

Os primórdios do movimento cinematográfico no seio da Igreja em Portugal

O “Boletim Cinematográfico” na Igreja em Portugal – uma memória histórica novidade

Este é o breve historial de uma publicação simples na sua forma de apresentação, mas que, ao durar persistentemente cerca de cinco décadas, prestou à cultura cinematográfica e à Igreja Católica em Portugal um serviço inestimável e indelevelmente ligado ao nome de Francisco Perestrello, agora falecido.

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro

Frade morreu aos 85 anos

Lopes Morgado: um franciscano de corpo inteiro novidade

O último alarme chegou-me no dia 10 de Fevereiro. No dia seguinte, pude vê-lo no IPO do Porto, em cuidados continuados. As memórias que tinha desse lugar não eram as melhores. Ali tinha assistido à morte de um meu irmão, a despedir-se da vida aos 50 anos… O padre Morgado, como o conheci, em Lisboa, há 47 anos, estava ali, preso a uma cama, incrivelmente curvado, cara de sofrimento, a dar sinais de conhecer-me. Foram 20 minutos de silêncios longos.

Agenda

There are no upcoming events.

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This