Abusos sexuais na Igreja: fazer ciência para o bem comum

| 15 Mai 2022

Terça-feira passada, dia 10, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a Comissão Independente para o Estudos dos Abusos Sexuais Contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa organizou uma conferência sobre o tema dos abusos, conforme o 7MARGENS noticiou. Pela importância do tema, da iniciativa e das intervenções nela realizadas, publicámos já as duas intervenções do oordenador. A seguir reproduzimos a intervenção da socióloga Ana Nunes de Almeida, que integra também a Comissão.

Ana Nunes de Almeida faz parte da Comissão que investiga os abusos na Igreja em Portugal.

Ana Nunes de Almeida faz parte da Comissão que investiga os abusos na Igreja em Portugal.

 

  1. Numa equipa interdisciplinar, eu sou a socióloga da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais Contra a Crianças na Igreja Católica, uma académica que faz ciência na Universidade. Como cientista, estou treinada na realização de estudos em ciências sociais sobre vários temas, entre os quais crianças e infância. E estudos, até, sobre realidades consideradas “sensíveis”, recantos lunares da vida em sociedade – como é o caso deste que aqui nos traz.

A Conferência Episcopal Portuguesa encomendou-nos um estudo, dando-nos total liberdade para definir o seu âmbito, objetivos e metodologia. E não poderia ser de outra maneira: sem liberdade não há ciência, que não é um conhecimento qualquer sobre a realidade: implica uma conquista (sobre o senso comum), uma construção (de conceitos e teorias que nos fornecem as lentes para ler a realidade) e uma constatação (isto é, protocolos de abordagem que permitam pôr à prova a grelha de leitura que escolhemos).

 

  1. Vou telegraficamente apresentar este estudo. Tocarei três pontos e termino com uma observação final.
    • Quais são os objectivos do estudo? A resposta é: conhecer a realidade dos abusos sexuais contra crianças praticados por membros da Igreja Católica portuguesa, ou por leigos que estão envolvidos nas suas várias vertentes de atuação (paroquial, educativa, escolar, familiar, etc.).

Para conhecer optámos por uma metodologia qualitativa. Sobretudo porque o terreno em que nos movemos é escassamente conhecido, está bem resguardado dos olhares exteriores. Isso implica estar mais interessado num olhar em profundidade, cirúrgico, de pormenor, exploratório, compreensivo (no sentido weberiano do termo) do que num olhar de grande angular, extensivo e à superfície.

Outra opção foi colocar a pessoa vítima do abuso no centro de gravidade do nosso modelo de análise. É com a sua perspetiva (e não por exemplo a da instituição, a da pessoa agressora), a sua tomada de palavra, singular e subjetiva, com o seu testemunho que tudo começa e se aprofunda.

  • A nossa abordagem metodológica desdobra-se em dois caminhos:

– (uma espécie de inevitabilidade…) apurar números: isto é, procurar responder à seguinte pergunta: uma vez abertos canais para dar voz a testemunho, quantas pessoas o usam hoje para dizer que foram abusadas na sua infância e adolescência?

O problema é que os números nunca falam por si. E falam ainda muito menos em matéria de maus-tratos contra crianças, onde estamos sobretudo a lidar com a visibilidade de um problema e não com a sua realidade: nunca conseguiremos sair da ponta do iceberg.

– o segundo caminho é muito mais interessante, e percorre-se em torno da procura das características que tinham esses abusos, isto é, saber se se repetem numa fórmula única ou se, pelo contrário, se declinam em formas diversas e podem ser organizados, arrumados numa tipologia. Encontram-se perfis-tipo de vítimas/sobreviventes, de pessoas abusadoras ou mesmo de contextos favorecedores de abuso? Este, esperamos, será o contributo mais robusto e inovador do nosso estudo.

Várias operações estão a decorrer desde a nossa entrada em funções. Destacaria as seguintes:

a. Apelo e recolha de testemunhos dessas vítimas de abusos (através de métodos de inquirição – inquérito por questionário online e entrevistas telefónicas ou presenciais – criados a partir de um único guião), recolhendo e armazenando (numa base de dados), analisando e interpretando os seus testemunhos e as suas experiências, contadas na primeira pessoa. Todas as vítimas, de todas as idades, todos os testemunhos contam.

É bom esclarecer que estamos a trabalhar com uma amostra estatisticamente não representativa, não probabilística ou aleatória – pois não conhecemos o universo, não temos maneira de seleccionar quem responde. Trata-se, ao contrário, de uma respondent-driven sample (amostra orientada pelo respondente).

Que posso dizer sobre essa amostra no momento presente?

Temos 326 testemunhos diretos, mais homens que mulheres, de todas as regiões do país, de todos os grupos etários (nascidos entre 2009 e 1934), de todos os níveis de escolaridade (embora com uma natural sobre-representação dos mais escolarizados). Registam-se todas as modalidades de abuso contempladas no inquérito. E é possível dizer, somando o número de outras pessoas que as testemunhas dizem ter conhecido, vítimas do mesmo tipo de abuso, que esse número sobe para muitas centenas de crianças e adolescentes.

b. Entrevistas aos 21 bispos das dioceses portugueses. Os temas aprofundados são os seguintes: a sua biografia espiritual; as características da diocese que coordenam e os problemas que nela consideram mais importantes; o seu entendimento da relevância do problema dos abusos sexuais na Igreja portuguesa; o seu conhecimento direto de casos destes; a organização dos arquivos históricos da respetiva diocese.

c. Análise de documentação , em duas frentes:

  • procurar evidência de factos ocorridos em jornais nacionais e locais (dos anos 1950 até ao presente)
  • acesso aos arquivos históricos da Igreja portuguesa (1950-2022) – tarefa que delegámos numa excelente equipa de historiadores treinados nesta área, coordenados pelo professor Francisco Azevedo Mendes.

 

Chego então à observação final…

Para que serve este estudo, se afinal não vai dizer publicamente os nomes de quem abusa e em que instituições se abusa, se afinal não consegue dizer-nos ao certo quantas crianças foram abusadas, se a equipa da Comissão Independente não vai atrás das pessoas agressoras nem dá apoio médico-psicológico às vítimas?

Gostava então de responder o seguinte. Conhecer a realidade é, primeiro, reconhecer que ela existe – e este avanço, ao fim de tantas décadas de silêncio, é um grande adquirido. Conhecer a realidade é, em segundo lugar, sempre reconhecer a sua complexidade intrínseca, que nos desvia de julgamentos apressados ou imagens a preto e branco. Conhecer a realidade é uma condição sine qua non para nela se intervir com alvos, políticas e metodologias afinadas e certeiras. Não há mudança para melhor, nas sociedades em que vivemos, sem o contributo da ciência.

Por último, um apelo a todos vós. Façamos coletivamente da causa dos abusos sexuais contra crianças uma causa civilizacional. Todos podemos dar o nosso contributo: sejam portadores ativos, porta-vozes do nosso apelo ao testemunho – contribuam, à vossa maneira, para dar voz ao silêncio.

 

Lisboa, Fundação C. Gulbenkian, 10 de maio de 2022

 

Ana Nunes de Almeida é socióloga e membro da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

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