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Editorial

Abusos sexuais na Igreja: um passo acertado

 

Em 5 de outubro de 2021, era apresentado em França o relatório de uma comissão independente sobre os abusos sexuais na Igreja, fruto do trabalho mais de dois anos de uma equipa de 20 peritos de diferentes formações, encomendado pela Conferência dos Bispos Franceses e pela Conferência dos Religiosos e Religiosas do país. Os resultados eram devastadores e surpreenderam mesmo os mais conhecedores da matéria. O impacto propagou-se internacionalmente.

Hans Zollner, um padre alemão que dirige um instituto sobre este tipo de abusos não perdeu tempo: é hora de as igrejas de outros países fazerem o mesmo tipo de estudos. Tendo estado, de resto, em Portugal, a convite da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), já na altura tinha alertado a Igreja Católica de que não bastava cumprir as leis canónicas, porque isso poderia implicar não colocar o cuidado com as vítimas, crianças e outras pessoas vulneráveis, como critério da ação.

O impacto do relatório francês fez-se sentir também em Portugal, em particular através de posições vindas a lume no espaço público e de um abaixo-assinado de perto de 300 católicos que defenderam a imprescindibilidade de um estudo independente do problema dos abusos na Igreja em Portugal.

Ao tomar a decisão de avançar com uma comissão independente, o episcopado português demonstrou ter sido sensível e ter acolhido os apelos vindos a público. O facto de, até ao presente, haver registo de relativamente poucos casos não exime a Igreja de conhecer em profundidade a situação.

Essa decisão é tão mais importante para a Igreja e para a sociedade quanto o coordenador designado para esse trabalho e a equipa que este escolheu serem cidadãos de reconhecida capacidade para abordar com independência e sensibilidade a problemática dos abusos.

O 7MARGENS, que tem acompanhado este assunto do ponto de vista informativo e editorial, congratula-se com as decisões tomadas e entende que elas vão no caminho certo – o de dar voz às vítimas e de se disponibilizar para reparar os eventuais danos que tenham sido causados por membros da Igreja. Esperamos que os primeiros resultados do trabalho agora iniciado possam ser conhecidos já este verão de modo a ajudar outras vítimas a tomarem a iniciativa de se dirigirem à Comissão, tal como os seus responsáveis também manifestaram.

Este jornal exprime ainda o desejo de que todas as entidades da esfera da Igreja – dioceses e congregações religiosas, além da própria Conferência Episcopal, sejam proativas na disponibilização dos arquivos e informações que possam ser relevantes para o trabalho da Comissão Independente, e céleres a responder às suas solicitações. Espera ainda que essas entidades e os órgãos de comunicação da Igreja difundam e mantenham visíveis as formas de eventuais vítimas contatarem a Comissão Independente.

Por fim, e uma vez que a grande parte dos crimes de abusos de crianças ocorre, também em Portugal, em contexto familiar, como referia recentemente a presidente da Comissão Nacional de Proteção de Crianças, por alturas do Dia Europeu da Proteção das Crianças Contra a Exploração e o Abuso Sexual, era bom que os responsáveis pelas políticas familiares e outros agentes sociais cuidassem de tomar as medidas que se impõem. Em nome do superior interesse das crianças.

 

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