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Abusos sexuais: seis meses para ajudar a curar uma chaga

| 3 Jul 2022

A Comissão Independente (CI) para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa promoveu na passada quinta-feira, 30, uma conferência de imprensa de balanço dos primeiros seis meses de trabalho, conforme noticiámos.

Para dar conta dessa avaliação, o médico pedopsiquiatra Pedro Strecht, coordenador da comissão, apresentou o resumo do que a Comissão fez até agora. Tendo em conta a importância documental desta intervenção, o 7MARGENS decidiu reproduzi-la na íntegra, depois de cedida pelo seu autor.

 

Pedro Strecht citando o Papa: “É necessário fazer tudo para desenraizar da Igreja a chaga dos abusos sexuais contra menores e abrir um caminho de reconciliação e cura a todos quantos foram assim abusados”. Foto © Direitos Reservados

 

 

A CI organizou a conferência de imprensa de hoje para fazer um breve ponto de situação do seu estudo sobre abusos sexuais de crianças na Igreja Católica Portuguesa, antecipando por breves dias os primeiros seis meses do seu trabalho, cujos princípios  gerais de actuação se reveem com facilidade numa frase do Papa Francisco já datada de fevereiro de 2015 e então dirigida aos presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo: “É necessário fazer tudo o que for possível para desenraizar da Igreja a chaga dos abusos sexuais contra menores e abrir um caminho de reconciliação e cura a todos quantos foram assim abusados”.

Desde o início da sua intervenção, a CI entende como importante a possibilidade de, periodicamente, continuar a dar conhecimento público e partilhar alguns dados disponíveis sobre o seu trabalho, procurando desta maneira manter uma atitude transparente sobre um assunto de tão grande importância e sensibilidade, num desígnio que é de interesse nacional, como o próprio Presidente da República referiu no início desta nossa missão.

Assim, e perto do final da primeira metade do tempo designado para a sua actividade, a CI gostaria então de destacar sinteticamente alguns pontos chave da sua actuação:

 

1 – A relação da CI com a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), que nos solicitou este estudo, tem-se pautado por uma boa prática de confiança mútua, cada vez mais em franca articulação e em que se deseja, de parte a parte, prosseguir no sentido preciso de conhecer o que, sobre este tema, aconteceu no passado para melhor se actuar no futuro.

Já todos sabemos que existiram múltiplas situações de abusos sexuais de crianças por membros da Igreja Católica Portuguesa; à semelhança do que já foi conhecido noutros países, sobre isso não restam quaisquer dúvidas. Agora, importa definir de forma clara o maior número possível de variáveis em que tal aconteceu, de modo a que o retrato fique bem claro e permita a consistência das bases para o passo seguinte: uma atitude forte de prevenção e intervenção precoce que sabemos que anteriormente também falhou, não só pela natural incapacidade dos mais novos reagirem a este tipo de trauma, mantendo-se numa atitude de silêncio e de “sideração psíquica” (Ferenczi, 1932) de quem não consegue nomear, integrar e comunicar a sua experiência de total dor e desamparo, como ainda por desconhecimento, omissão, desvalorização da realidade do tema e do seu brutal impacto na vida emocional dos mais novos, não só por parte da Igreja como de toda a sociedade em geral. Como descrevia o filósofo José Ortega y Gasset “o homem é ele próprio e o seu contexto” e, neste campo, ainda bem que o contexto já é outro e, felizmente, o homem mudou ou assim parece querer fazê-lo.

Por tudo isso, sabemos que já não é possível manter o silêncio das vítimas nem a impunidade dos respectivos agressores; há sim que aprender a ler e a dar valor a sinais de alerta presentes nestas situações, diversos e quase sempre inespecíficos, razão pela qual tantas vezes acabam por não ser reconhecidos, e continuar a tudo fazer para tornar a Igreja, as suas comunidades, mas também toda a sociedade em geral como um porto mais seguro para a vida emocional e de relação dos mais novos.

 

Abertura da 201ª Assembleia Plenária da CEP. “A relação da CI com a CEP tem-se pautado por uma boa prática de confiança mútua”, diz Strecht. Foto © HM/Agência Ecclesia

 

2 – Reconhecer a existência e a gravidade destas situações e caracterizá-las cientificamente, é não só “dar voz ao silêncio” de  muitos dos que foram vítimas de abusos sexuais ocorridos na infância e adolescência, perpetrados por pessoas da Igreja, como de igual modo proteger as nossas crianças e adolescentes de hoje dos mesmos riscos anteriores, num processo maligno de repetição transgeracional de episódios traumáticos que, sabemos bem, tendem a permanecer omissos de uma parte mais integrada na personalidade de cada um (pelo recalcamento, deslocação ou clivagem, entre outras defesas psíquicas possíveis), facto pelo qual a grande parte dos nossos testemunhos são também correspondentes a uma primeira revelação do ocorrido que emerge de um passado quase nunca comunicado. Quer isto dizer que o nosso estudo tem vindo a evidenciar que, quase sempres se passaram décadas desde o acontecimento dos factos até à sua posterior revelação.

Um verdadeiro “silêncio dos inocentes”, pois de verdade, os abusos sexuais nunca conseguem ser apagados ou esquecidos por quem os sofreu e sobre eles permanecem os típicos e injustos sentimentos de medo, vergonha e, sobretudo, de uma culpa que o próprio atribui a si mesmo e raramente a quem o vitimou, tal como de novo o nosso estudo já amplamente demonstra. No máximo, e mesmo quando é possível a existência atempada de uma intervenção psicológica de qualidade, estes traumas só podem vir a ser integrados de forma menos dolorosa na vida psíquica de cada um, mesmo sabendo-se que continuamente podem ser reactivados por diversas circunstâncias externas de novo sentidas como negativas ou adversas.

Nesse campo, é importante reafirmá-lo novamente para que não subsistam dúvidas, a CI tem tido particular atenção, esforçando-se por não deixar sem suporte psicológico/psiquiátrico todos aqueles que nos contactam e assim o requisitam: ninguém está sozinho ou ficará a sentir-se só, sem o amparo julgado necessário, pese embora seja sabido que a CI não é em si mesmo uma “equipa de saúde mental” ou uma estrutura de rectaguarda jurídica no que toca a eventuais expectativas de ressarcimento de natureza legal.

Por tudo isso, prosseguimos no contínuo apelo ao testemunho, que, de novo, hoje importa de novo reforçar, não só para que este estudo tome uma forma final de mais definida caracterização, mas sobretudo por um facto fundamental para a CI: que não restem tantos que ainda se remetem ao a um solitário e desamparado sofrimento.

Assim, a CI reforça o quão é importante não guardar silêncio, “pois quem cala nunca se protege a si mesmo”, apenas protege o agressor, como bem recordou o Sr Bispo Auxiliar de Braga, D. Nuno Almeida, aquando de uma deslocação recente de membros da CI ao polo do Minho da Universidade Católica Portuguesa. Por favor, quem ainda não o fez até agora, faça-o ainda, por si (libertando-se de uma angústia julgada indizível), pelos outros (cujo depoimento sairá reforçado com o cruzamento de dados que, aliás já existe e ainda pela necessária prevenção da repetição do mesmo, sabendo-se que a pessoa em causa pode ainda estar activa).

Dê o seu testemunho pela revelação da verdade, pela reconstrução de uma certa harmonia interior, bem como pela necessidade natural de reparação individual e social de todas as vítimas que podem estar bem mais perto de nós do que por vezes imaginamos (facto que o nosso trabalho não cessa de demonstrar) e ainda, no caso de todos os católicos, para que a sua Igreja saia definitivamente reforçada de todo este processo, pois distinguir “uns” entre “muitos” é também conseguir separar a minoria dos seus membros prevaricadoras da maioria que a forma e confere um registo saudável ao todo que é a própria Instituição religiosa. Para tal, use o número de telefone disponível 91 711 00 00, todos os dias das 10h às 20 horas, o mail geral@darvozaosilencio.org ou escreva-nos para “Comissão Independente, Apartado 012079, EC- Picoas, 1061-011 Lisboa”.

 

 

3 – Regressando a dados concretos do nosso estudo, podemos neste momento revelar alguns, mas sempre com a necessária premissa de que os mesmos são parcelares e que a explicação científica detalhada de alguns deles só será possível no final de todo o trabalho, ou seja, em dezembro deste ano. É certo que o futuro não irá invalidar o que agora é possível descrever, mas a realidade de hoje pode ainda sofrer alterações significativas a contextualizar posteriormente.

De qualquer forma, e em resumo, podemos destacar a existência de 365 inquéritos recebidos, dos quais 336 validados, obtidos por preenchimento de inquéritos on-line, telefonemas, carta e entrevistas presenciais. Tal como afirmado já anteriormente e por isso mesmo não constituindo surpresa, o número possível de alegadas vítimas já é e será sempre muito maior do que o dos depoimentos em si, evidenciando uma realidade bem mais extensa e obviamente dramática, repito, dramática, do que a das 336 vítimas que testemunharam até agora.

De facto, o que é descrito como o “efeito iceberg” nos estudos de abusos sexuais existe, e é possível que também no nosso o mesmo venha a acontecer em proporções finais idênticas: da realidade existente, só uma pequena parte, habitualmente situada entre os 20 a 25% do seu total, virá de verdade a ser conhecida.

Contudo, o acesso aos Arquivos da Igreja, a integração de casos já anteriormente conhecidos pelas Comissões Diocesanas, pela Polícia Judiciária e outras estruturas a quem já foi pedida essa informação, em moldes obviamente confidenciais quanto à identidade das vítimas e dos supostos agressores, tal como o respectivo tratamento de dados por critérios estatisticamente fiáveis do material que já temos, vai, com toda a certeza, alterar em alta este número total de vítimas existentes no arco temporal que estamos a estudar.

Ainda sobre este mesmo parâmetro em particular, o estudo destaca por agora que em 68% dos depoimentos registados, as pessoas referem que à data do abuso “sabiam que havia mais” crianças a serem vítimas do mesmo agressor e no mesmo local; só nos restantes 32% as vítimas “sentiram que eram as únicas” e destas muitas perceberam à posteriori também que assim não foi.

 

Prateleiras de arquivos históricos em Coimbra. Foto © Ricardo Perna

Problemas de acesso aos arquivos diocesanos foram «resolvidos», assume Pedro Strecht . Foto © Ricardo Perna

 

4 – Sobre a questão referente aos Arquivos Históricos e Secretos da Igreja Católica Portuguesa, incluído desde início no âmbito deste estudo, foram resolvidos com sucesso pontos importantes para a concretização do seu acesso pela Equipa de Historiadores e Arquivistas proposto pela CI e liderada pelo Prof. Dr. Francisco Azevedo Mendes. Através do empenho directo da CEP, que enviou uma delegação ao Vaticano em meados de maio, tornou-se possível no passado dia 9 de junho, a recepção oficial de um documento assinado pelo cardeal Secretário de Estado D. Pietro Parolin em que se afirma, e cito: “Corresponde, portanto, a cada Ordinário autorizar o Grupo de Investigação Histórica da Comissão Independente a consultar a documentação conservada nos arquivos eclesiásticos, mesmo secretos, sempre sob supervisão do Bispo Diocesano ou Superior maior.”

Assim sendo, e também conforme comunicado emitido pela CEP na sequência da sua reunião no passado dia 22 e enviado para a imprensa através da Agência Ecclesia, que também esclarece muito bem e em 12 pontos a questão dos Arquivos, estão finalmente abertas as portas para, conforme programação e metodologia de trabalho proposta à CEP pela já referida equipa do Prof. Dr. Francisco Azevedo Mendes, esta possa proceder a essa parte fundamental deste estudo, confirmando-se aliás que o mesmo já se iniciou junto das respectivas dioceses e de comum acordo com todos os senhores bispos diocesanos, esperando-se que o mesmo esteja concluído até ao mês de novembro, juntando-se assim ao relatório final a ser produzido.

 

Abusos sexuais, França, Lourdes

Memorial em Lourdes (França), erigido pelos bispos franceses: muitas vítimas esperam um pedido de perdão explícito do episcopado português. Foto captura de ecrã

 

5 – De igual modo, cabe à CI reforçar que a bom tempo a Igreja Católica Portuguesa decidiu dar este passo decisivo na sua história, em momento decerto considerado fundamental e ainda pioneiro em relação a muitos outros países, dispondo-se a desejar conhecer o que aconteceu no campo dos abusos sexuais a menores levados a cabo por alguns dos seus próprios membros. É inequívoco que os mesmos aconteceram. Que moldaram de forma negativa e irreparável as vidas de milhares de crianças e de adolescentes, hoje em dia adultos, que suportaram em sofrimento mudo uma “dor aprisionada” (J. Symirgton, 2000) que condicionou diversas áreas vitais das suas vidas individuais, familiares, profissionais, sociais e, também em tantos casos, a sua própria noção de “fé, de esperança e de amor”.

Por isso, esta é uma questão que não só a Igreja como toda a sociedade civil tem de compreender e não apenas aceitar. Tal como em diversos momentos já sentidos no decorrer do trabalho da própria CI, é essencial procurar a necessária evolução entre uma posição passiva, apenas reactiva à insistência externa e à obrigação adesiva de falar e pensar sobre o tema do abuso sexual de menores como algo distante de si próprio e dos que lhe são mais próximos vs. uma resposta genuína e interventiva, gerada pela motivação e consequente acção de quem realmente reconhece a presença desta realidade, sente empaticamente o sofrimento que ela causa e deseja realmente ser agente de numa mudança que, como vulgarmente se afirma, seria bom ter já começado ontem.

 

6 – Por último, na quase totalidade dos testemunhos recolhidos pela CI, aparece referida uma dupla expectativa: o pedido de perdão pelo passado, assumido pela Igreja junto das vítimas a par do inequívoco compromisso por um futuro diferente perante todos os seus fiéis. Sobre ambos, a CI acrescenta ainda uma nota já formalizada junto da CEP, justamente para que sobre um grito de dor e de revolta não reste apenas a resignação: a necessidade de materialização desta mensagem, de forma simples, digna e pública, para que a mesma não se esgote em palavras que em breve tempo possam voltar a perder o seu verdadeiro e profundo sentido.

Passando das palavras aos actos, pense-se e crie-se em tempo útil (até ao final do trabalho da CI) um local eterno de encontro, pausa, reflexão, oração até, onde possa ficar inscrito e imortalizado o que também todos nós, sem qualquer dúvida, sentimos perante o que cada uma destas vítimas evoca através do seu injustamente sofrido exemplo de vida, sobre a qual talvez nos resta sentir…

Respeito. Solidariedade. Esperança…

Ou a vontade infinita de poder dar a mão e dizer: aqui estamos, juntos, convosco!

 

Pedro Strecht é médico pedopsiquiatra e coordenador da Comissão Independente para o Estudo de Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa.

 

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