Contributos para o Sínodo (14)

Acção Católica Rural: melhores seminários, leigos implicados, cristãos próximos

| 20 Jun 2022

Melhorar a educação ministrada nos Seminários, implicar os leigos nas tarefas para as quais eles estão vocacionados, ter uma atitude de aproximação em relação às pessoas que estão longe da Igreja. Estas são algumas das sugestões dos grupos da Acção Católica Rural (ACR) da diocese de Vila Real, em resposta à maior auscultação alguma vez feita à escala planetária, lançada pelo Papa Francisco, para preparar a assembleia do Sínodo dos Bispos de 2023. Esse coro imenso de vozes não pode ser silenciado, reduzido, esquecido, maltratado. O Espírito sopra onde quer e os contributos dos grupos que se formaram para ouvir o que o Espírito lhes quis dizer são o fruto maduro da sinodalidade. O 7MARGENS publica alguns desses contributos, estando aberto a considerar a publicação de outros que nos sejam enviados.

 

Sessão do Concílio Vaticano II. Foto © Vatican Media

Sessão do Concílio Vaticano II. Foto © Vatican Media

 

Pese embora o caminho que foi andado desde o Concílio Vaticano II, que propugnou pela realização de uma transformação na Igreja em diversos aspectos e nomeadamente no que respeita ao papel dos leigos e à sua vocação e missão na Igreja, chamando-os a agir em co-responsabilidade e participação nessa missão, muito falta concretizar da doutrina saída do Concílio.

Esta caminhada sinodal constitui mais um incentivo a que toda a Igreja se envolva, em conjunto, sob a força do Espírito Santo, como diz o Papa Francisco, no sentido de fazer uma introspecção rigorosa, mas expandida, para encontrar os melhores caminhos para os tempos difíceis que se avizinham, num mundo que, sem deixar de ser religioso, passou a ser mais secularizado.

Neste grupo, que se constituiu tendo como base o que resta da Acção Católica Rural (ACR) de Vila Real, e tendo como linha agregadora o Centro de Formação da ACR de Vila Real, ao qual se juntaram outras pessoas de diversas origens e áreas de influência, a nível nacional, fomos reflectindo ao longo dos últimos meses sobre o que nos foi pedido no âmbito acima referido.

Militantes da ACR, entendemos como esquema de trabalho, efectuar a nossa reflexão tendo como base o velho e sábio método de Revisão de Vida, consubstanciado nos três momentos que o integram: ver, julgar e agir.

Deste modo, a primeira reunião serviu para cada participante expressar as suas preocupações, tendo em atenção as suas vivências como cristãos responsáveis aos mais diversos níveis e cada qual segundo as suas experiências pessoais, seja pela sua pertença a algum movimento de leigos, seja pela participação concreta na vida a Igreja. Em seguida, procurou agrupar-se essas preocupações gerais em temas concretos, para melhor organização da discussão e tratamento nas reuniões seguintes.

No resumo de todas as reflexões, teve-se em conta a participação de todos os intervenientes, mesmo que algumas referências estejam duplicadas e surjam relatadas relativamente a temas diferentes, para que todos se possam rever neste texto-resumo e possam sentir que a sua voz foi ouvida e irá ser transmitida. Daí que algumas notas possam até parecer deslocadas no contexto de alguns desses temas.

Das reuniões efectuadas via zoom, resultaram as reflexões que abaixo se apresentam.

 

1 – Estruturas e organização

Ver

Igreja clerical.
Escolha e nomeação dos bispos desactualizada.
Sessenta anos após o Concílio Vaticano II, faltam ou não funcionam os Conselhos de Pastoral.
Os leigos não são chamados a participar na organização das paróquias e organismos diocesanos.
Clero temeroso em relação aos leigos.

 

Julgar

O receio e os medos do clero em relação aos leigos conduziu a que na maioria das paróquias não exista Conselho de Pastoral, nem sequer algo de parecido.
A maioria dos sacerdotes está muito ocupada com outras actividades, faltando tempo para acolhimento.
Padres que chamam a si tudo, não delegam tarefas nos leigos.
Muitas vezes também são os leigos que não se disponibilizam.
Há leigos talentosos e com carisma, mas que não são aproveitados pelo facto de os párocos nem sequer arriscarem para verem se eles os podem ajudar, preferindo serem eles a fazer tudo.
Os leigos que não se sentem úteis ou sentem que as suas opiniões não contam, que não são escutados, afastam-se facilmente.

 

Agir

Delegar tarefas nos leigos.
Acreditar que os leigos estão preparados e têm competências para desempenhar muitas funções que neste momento são desempenhadas por sacerdotes.
Criação de Conselhos Pastorais ou uma estrutura parecida que permanentemente analisa a situação de cada comunidade ou grupo de paróquias e vai dando resposta aos problemas.

 

2 – Igreja ausente e paralizada

 

A Igreja está fora das Universidades. Foto © Antenna | Unsplash

 

Ver

A Igreja está ausente das instituições, família, escola, política, sociedade em geral.
A Igreja que perdeu os operários e os jovens e está a perder as mulheres.
Igreja ausente dos estabelecimentos de ensino, designadamente das Universidades.
Falta dinamismo, participação operante, actuação consequente e permanente.
Igreja distraída das mudanças contínuas da sociedade.
Clero e cristãos em geral fechados na Igreja, na concha protectora, que não acompanha, não conhece ou conhece mal os problemas da sociedade e das pessoas e pregam desfasados da realidade.
A caridade não se esgota nos serviços prestados nos centros sociais e paroquiais.

 

Julgar

Esta geração é a última oportunidade de ouro para ajudarmos a mudar alguma coisa na Igreja.
Há pouco dinamismo na Igreja, muito por causa do silêncio a que têm sido remetidos os leigos.
Há abertura de leigos para participarem, mas que desejam ser tratados com respeito.
Os leigos e os sacerdotes têm de sair da sua concha e não ter vergonha ou medo de convidar pessoas a participar nas actividades.
A ausência da Igreja nas universidades e em geral nas escolas leva ao afastamento dos jovens. As universidades são um bom campo de vocações para o sacerdócio e outros ministérios da Igreja.
Há estudantes que ignoram a existência de um assistente nomeado para a Universidade.
Os professores de Religião e Moral têm de ser escolhidos a dedo e aproveitados para dinamizar actividades com os alunos em colaboração com as paróquias, que não podem estar desligadas dessa presença da Igreja nas escolas.
Os maus exemplos de práticas no dia-a-dia, verdadeiros contratestemunhos, a diversos níveis, de padres e leigos que leva a que muitas pessoas se afastem.
As pessoas não compreendem o significado da missa e das consequências que devem resultar de frequentarem a eucaristia.
A Igreja está ausente da família. Antes reprovava quem não se casava pela Igreja. Hoje aprova-se ou pelo menos aceita-se sem algum problema.

 

Agir

As pessoas mais disponíveis, como os reformados, devem ser aproveitadas como riqueza que são para servir a Igreja e a sociedade.
Organizar a pastoral universitária.
Incentivar para uma vida de testemunho do que é ser cristão no meio da sociedade.
Formação sobre a Doutrina Social da Igreja.
Formar os agentes e colaboradores que já exercem alguma tarefa para que se sintam mais comprometidos e responsabilizados.
Celebrar as datas relevantes de âmbito nacional, como o dia do Pai, da Mãe, da Mulher e outros.

 

3 – Comunicação e acolhimento

 

Ver

Falta diálogo entre leigos e clero.
Falta análise para descoberta dos problemas da Igreja e da sociedade.
Deficiente comunicação das actividades da Igreja mesmo a nível das igrejas locais, paróquias e dioceses.
Pastoral de manutenção, que deve manter-se para as comunidades mais conservadoras, mas evoluir nas mais dinâmicas.
Falta saber exercer convenientemente o acolhimento, sempre, em todos os lugares e pelas mais diversas formas, como meio de cativar para a prática religiosa.

 

Julgar

A comunicação não chega aos leigos, pelo menos em condições destes se aperceberem da realização das actividades.
A falta de diálogo em alguns casos tem a ver com o chamado “respeitinho” na emissão de opiniões sobre alguns assuntos.
A generalidade dos sacerdotes anda a correr de um lado para o outro, sem tempo para estarem presentes e acompanharem os leigos na sua caminhada colectiva e pessoal.
O sentido de comunidade está ausente da maior parte das celebrações e outras actividades.
Não existe convivência paroquial, onde as pessoas se encontrem, se conheçam e sintam verdadeiramente a sua pertença a uma família eclesial.

 

Agir

Promover convívios no final de celebrações principalmente em épocas festivas, no salão paroquial.
Estarmos atentos aos que vemos na Igreja e aproximarmo-nos deles, oferecendo o nosso braço terno e amigo e, paulatinamente convidando-os para participarem em actividades e acções e formação, dando-lhes voz e vez.
Enviar lembretes em datas significativas a todos os fiéis, mas principalmente aos menos assíduos na frequência de cerimónias religiosas, como por exemplo, nas datas de baptismo e casamento, dotando as paróquias com os meios para o fazer.
Aproveitar as redes sociais para se fazer presente.
Editar pequenos boletins paroquiais ou inter-paroquiais.

 

4 – Liturgia

 

missa na se de lisboa foto c patriarcado de lisboa

missa na Sé de Lisboa. Foto © Patriarcado de Lisboa

 

Ver

Falta alma à generalidade das cerimónias litúrgicas.
Liturgias sem criatividade, sem cativarem a atenção das pessoas.
Homilias ocas e liturgias mecânicas em que as pessoas, principalmente os não-crentes, não entendem a maioria dos actos e de tudo o que se passa no altar e durante outras cerimónias.
A maioria dos sacerdotes apresenta-se a horas para celebrar, mas em cima da hora das celebrações, sem tempo para acolher, falar com as pessoas que o necessitem. O mesmo no final.
O Espírito Santo e a sua importância na vida da Igreja, dos cristãos e do mundo em geral está esquecido e é mal explicado.

 

Julgar

Há muitas maneiras de santificar o Domingo. Visitas a doentes e presos.
As comunidades pequenas terão de ser acompanhadas ainda que por leigos, ao menos com a celebração da Palavra e periodicamente com a celebração de eucaristia, a fim de se não sentirem abandonadas e votadas ao esquecimento.
Há algumas paróquias sem pároco residente que são mais dinâmicas do que as que têm o pároco sempre presente, por terem maior autonomia e terem preparado leigos para exercerem algumas tarefas.

 

Agir

Atribuir responsabilidades aos leigos mais comprometidos, como acontece com os catequistas em territórios de missão.
O celebrante receber os participantes na missa à porta da igreja e o mesmo na saída. Isto pode também ser feito por leigos.
Os avisos terem um momento adequado, e feitos por leigos, tal como o enunciar das intenções das missas e os avisos finais sobre actividades e outras acções.

 

5 – Formação

 

Ver

Apesar dos esforços e da mudança que se foi efectuando ao longo dos anos, falta formação geral, bíblica, teológica e doutrinal à maioria dos cristãos, que ajude a fortalecer a sua fé, começando no clero e terminando nos leigos, que forme a consciência dos cristãos e os comprometa para toda a vida, mesmo que surjam problemas.
Certas homílias são pobres, mal preparadas e descontextualizadas da realidade.
Não aproveitamento adequado das cerimónias religiosas (funerais, missas de sétimo dia, festas religiosas, baptizados e casamentos) para transmissão do essencial da doutrina cristã, a crentes e a não-crentes, com clareza e objectividade e não palavras e conceitos abstractos que ninguém entende ou que nada dizem às pessoas, nas suas vidas concretas.

 

Julgar

É necessário escolher novos caminhos para proporcionar formação adequada e permanente nas mais diversas áreas a todos, sacerdotes e leigos.
Não existe compromisso porque falta formação em todos os aspectos, programada com antecedência e divulgada.
O desconhecimento dos documentos do Concílio por parte de padres e leigos que não os leva a tomar consciência dos direitos e deveres de cada um dentro da Igreja e na sua relação com o mundo.
Apesar de tudo ou acima de tudo será de realçar a disponibilidade dos catequistas que cumprem o melhor que podem a sua missão de evangelizar
A família é fundamental para fomentar o aparecimento de vocações.

 

Agir

Dinamizar a pastoral dos noivos e dos casais, para os comprometer com a formação dos filhos quando chegar a altura de frequentarem a catequese.
Organizar sessões de formação litúrgica, doutrinal e eventualmente teológica, aleatória e geral, para os pais, enquanto esperam pelos filhos nos dias de catequese, orientadas por leigos sob a coordenação dos párocos.
Realizar acções de formação para leitores e acólitos
Catequese de adultos, para os que o desejarem ou se se der conta da sua necessidade e houver pessoas a solicitá-la.

 

6 – A Igreja e a economia

 

Todos em conjunto para refletir sobre a Igreja. Foto © Amigos da Ferraria

 

Ver

A dependência económica da Igreja em relação aos partidos e à política.
Os leigos ausentes das estruturas económicas da Igreja.
A deficiente formação do clero para a gestão e administração do património, bens e dinheiro da Igreja, que originam erros e esbanjamentos inúteis de recursos financeiros.
A transparência da gestão e administração dos bens e dinheiro das diferentes instituições da Igreja e a respectiva apresentação de contas.
O uso, quantas vezes desadequado, inútil, dos bens da Igreja e a sua finalidade.

 

Julgar

Os conselhos económicos são quase exclusivamente dirigidos pelos párocos ou integram leigos amorfos e sem iniciativa.
Falta transparência na gestão dos dinheiros e na gestão dos bens das paróquias e da Igreja em geral, que leva a críticas muitas vezes fundadas sobre a ausência de conhecimentos dos sacerdotes para a execução dessas tarefas.
Actividades de assistência que são confundidas com caridade e que muitas vezes parece que não passam de uma simples e vulgar actividade económica da Igreja ou de quem está à frente delas, muitas vezes os párocos.
A ausência de leigos na gestão de centros sociais paroquiais, muitas vezes controlados e mal geridos apenas pelos párocos ou outros sacerdotes.

 

Agir

Explicar como funciona a gestão dos bens e do dinheiro das diferentes entidades e organismos da Igreja.
Implicar mais os leigos na gestão do património da Igreja, nomeadamente das paróquias.
Publicação das contas das paróquias.
Dar lugar aos leigos naquilo em que eles possuem experiência e conhecimentos específicos.
Funcionamento dos conselhos económicos com toda a transparência.
As paróquias devem ser auto-suficientes para não estarem dependentes de forças estranhas.

 

 

7 – Tabus

 

Ver

O tabu da sexualidade e as suas consequências.
Os leigos recasados que são excluídos.
A exclusão das mulheres.

 

Julgar

A inadequada educação e informação sobre as questões da sexualidade na família e nos seminários.
As falhas no comportamento sobre essa matéria na Igreja e as respostas dúbias para os problemas.
Apesar de alterações, ainda se nota muita relutância em relação à inclusão dos recasados na Igreja, quer por parte dos leigos quer dos sacerdotes. A grande maioria dos leigos aceita-os sem problemas.
Há leigos que continuam a frequentar a Igreja e a participar nas cerimónias, mas que sofrem por se verem impedidos de comungar, apesar da doutrina e até práticas abundantes sobre essa matéria (Amoris Laetitia).

 

Agir

Melhorar a educação ministrada nos Seminários.
Procurar vocações adultas, maduras.
Aceitar os recasados, como acontece noutras confissões católicas do Oriente.

 

8 – Ecumenismo e diálogo interreligioso

 

Papa Francisco, Patriarca Bartolomeu, Comunidade de Sant'Egídio

Papa Francisco (centro) e patriarca Bartolomeu (esqª), no final do encontro inter-religioso promovido pela Comunidade de Santo Egídio, em Roma, 7 Outubro 2021. Foto © Comunidade de Santo Egídio.

 

Ver

Falta informação sobre as demais igrejas cristãs e outras religiões.
Faltam encontros ecuménicos e inter-religiosos.

 

Julgar

Há desconfianças mútuas.
Faltam gestos de aproximação.

 

Agir

Promover encontros entre membros de outras confissões cristãs e outras religiões.

 

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal

Intervenção de Borges de Pinho na CEP

Sinodalidade como interpelação às Igrejas locais e à colegialidade episcopal novidade

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