
Porta da Morte, na Basílica de S. Pedro, Vaticano. Foto © Joaquim Félix
Na teologia “oficial” católica usa-se amiúde a expressão “depósito da fé” para expressar o conteúdo da fé cristã (a doutrina), tal como a Igreja Católica o entende. A expressão reveste-se, contudo, de grande ambiguidade e remete para uma conceção doutrinal redutora e estática. O que é um depósito senão uma espécie de arrecadação onde guardamos objetos que queremos preservar intactos e sem a menor modificação? É dali que os podemos resgatar, quando deles precisamos, sem o mais pequeno arranhão, tal qual como os guardámos. Numa tal visão da fé, a doutrina definida não está sujeita a qualquer reconfiguração, necessita apenas de ser ciosamente guardada em lugar seguro para se manter inalterada na sua verdade definitiva e absoluta.
Ora este fixismo das formas de enunciação da fé é altamente problemático. A doutrina cristã não pode ter uma formulação estática, sob pena de se tornar incompreensível para outros tempos e outras latitudes. A ideia de que uma mensagem, ainda que sujeita ao fio do tempo, não pode sofrer alterações é a própria negação da realidade histórica do ser humano. O facto de vivermos inseridos no tempo e, portanto, estarmos sujeitos à mudança que lhe é própria nega a existência de formulações absolutas da vida, por mais sagradas que se apresentem. Todas elas são relativas a um dado contexto histórico e cultural. A nossa visão do mundo está intrinsecamente dependente dos parâmetros culturais em que vivemos. E, como sabemos, estes parâmetros mudam geográfica e historicamente. Observamos a realidade a partir dos filtros que herdámos do contexto cultural onde crescemos. O nosso conhecimento é inevitavelmente contextualizado.
As doutrinas religiosas não fogem a esta “maldição”, que poderíamos chamar a “maldição de Heráclito”. “Tudo muda”, afirmava o filósofo grego ao observar atentamente os fenómenos naturais. Mas se observarmos com a mesma atenção os fenómenos históricos, também eles estão sujeitos a esta lei inexorável.
Estaremos então condenados à mudança perene? Não haverá nada fixo, nada inamovível que sirva de ponto de referência absoluto? Para mim, que sou crente, diria que só Deus é esse ponto fixo ao qual tudo se refere e no qual tudo ganha sentido. E nada mais. A linguagem humana, através da qual expressamos Deus e a fé, está sujeita a esta lei inescapável. Ao procurarmos compreender o que queremos dizer quando usamos a palavra “Deus”, somos imediatamente confrontados com a relatividade das nossas interpretações, que mudam tanto geográfica como cronologicamente. Estamos encarcerados nesta eterna condenação, a de vivermos sem pontos de apoio absolutos intramundanos, o que nos obriga a procurar incessantemente a verdade através das nossas interpretações circunstanciais.
Não estaremos, assim, a dar razão ao ceticismo relativista? Se tudo muda, a verdade não pode ser alcançada por ninguém e em época nenhuma. Se por verdade entendermos a derradeira e definitiva interpretação dos factos, então nunca poderá ser inteiramente desvendada, dados os limites do nosso conhecimento. Mas podemos alcançar a verdade relativa, a verdade possível, que a nossa razão vai desvendando em cada momento histórico. Contudo, a sua condição relativa deve pôr-nos de sobreaviso a respeito da tentação de a congelarmos para sempre em fórmulas estereotipadas imunes a qualquer mudança.

Concílio de Niceia (325), ícone representando o Imperador Constantino e vários bispos segurando o Credo Niceno-Constantinopolitano, adoptado 56 anos depois (em 381), no Concílio de Constantinopla; o texto é o início do Credo, na sua forma litúrgica grega: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderosos, Criador do céu e da terra.”
A doutrina religiosa, nomeadamente a doutrina cristã, não foge a esta limitação. Também no cristianismo não há formulações absolutas, no sentido em que todas elas, por serem humanas, são inevitavelmente relativas. Toda a doutrina é suscetível de novas e melhores ou mais adequadas formulações em tempos e latitudes diferentes. Estamos inevitavelmente sujeitos aos limites da história e da cultura.
Mas não existirá uma identidade cristã que seja fixa e inamovível? Sem dúvida que há uma identidade cristã, mas essa identidade é essencialmente a referência a uma pessoa – Jesus de Nazaré – e não uma doutrina. Cada vez que procuramos clarificá-la através da linguagem – e é essencial fazê-lo – tombamos na provisoriedade das nossas formulações. É por isso que todos os “dogmas” são meras aproximações à fé, todos eles sujeitos a constantes revisões. Há quem defenda que uma nova formulação poderia afetar apenas a forma linguística sem, todavia, afetar o conteúdo. Quem defende esta posição não tem em conta que forma e conteúdo estão intrinsecamente ligados. Não há modificação da forma sem alteração, por pequena que seja, do conteúdo. A identidade cristã não é hoje formulada nos mesmos termos de há 200, 500 ou 1000 anos. As nossas exigências, a nossa maneira de pensar, a nossa visão do mundo mudou e, portanto, mudou também a formulação que damos à identidade cristã. Querer congelar as formulações da fé em dogmas inamovíveis é não entender a natureza da linguagem.
Há com certeza alguns pontos de referência sem os quais já não poderíamos falar de identidade cristã. Sem dúvida que Jesus Cristo é o ponto de referência fundamental. O Novo Testamento testemunha isso mesmo. Mas a forma como lemos os textos e como interpretamos a pessoa de Jesus está sujeita inevitavelmente à nossa maneira de entender o mundo e aos mecanismos atuais de leitura dos textos, de tal modo que ao procurarmos esclarecer quem é Jesus para nós hoje não iremos fazê-lo nos mesmos moldes com que os nossos antepassados o fizeram. E quando insistimos em fazê-lo, temos de convir que passamos a falar para nós próprios, uma vez que os nossos interlocutores não acharão qualquer sentido ao discurso que insistimos em reproduzir. É o que acontece com alguns elementos do credo niceno-constantinopolitano que insistimos em papaguear na missa.
E os dogmas? Não serão eles os tais pontos de referência absolutos em termos de formulação definitiva da fé cristã? A resposta só pode ser negativa. Tal como interpretamos o Novo Testamento a partir dos parâmetros culturais em que vivemos, também o fazemos com as formulações dogmáticas. Aliás, com maior força de razão o faremos com os dogmas, uma vez que estes são já uma interpretação derivada da que podemos colher no Novo Testamento. Ou seja, o dogma é uma interpretação de segunda ordem em relação aos textos do Novo Testamento que é, também ele, constituído por uma pluralidade de interpretações do fenómeno Jesus de Nazaré. Nós, humanos, vivemos no reino das interpretações relativas e isso não nos deve causar angústia. Revela apenas a condição histórica e a relatividade dos mecanismos do nosso entendimento. Aliás, esta nossa condição, se assumida plenamente, tornar-nos-á mais humildes perante as nossas conceções e as nossas propostas, todas elas redigidas sob os limites do conhecimento, quaisquer que sejam as entidades humanas que as enunciam.
A tarefa da teologia é a de tornar compreensível a identidade cristã para cada época e para cada cultura. Trata-se de uma tarefa sem fim. Para cada momento histórico a teologia é chamada a formular a fé à luz dos parâmetros culturais em que a comunidade cristã se move. A negação dessa tarefa condena à morte a fé cristã, porque a cristaliza ou congela numa formulação desadequada ao tempo e à cultura em que está inserida. Os dogmas mais não são do que formulações da fé propostas numa determinada época, interpretações adequadas a um dado contexto histórico-cultural, mas desadequadas para outras culturas e outras épocas. O conceito de dogma enquanto formulação definitiva é, na verdade, uma impossibilidade humana. Não existem formulações definitivas.
Torna-se, portanto, evidente que a expressão “depósito da fé” é bastante redutora, uma vez que não dá conta do caráter dinâmico das formulações da fé cristã. Talvez a expressão mais adequada para expressar o conteúdo da fé seja “identidade cristã”, desde que a entendamos em permanente construção, desconstrução e reconstrução. A palavra “Evangelho” (boa notícia) é talvez a forma mais apropriada de nos referirmos ao conteúdo da fé. Na verdade, o que é o cristianismo senão uma notícia feliz para o ser humano, um caminho de salvação no meio da transitoriedade da vida?
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.










