Acolher, dar e tratar: os mecanismos de assistência aos pobres e doentes na Idade Média (ensaio)

| 6 Abr 20

Devemos à Idade Média o aparecimento dos hospitais, que evoluíram no sentido dos nossos, da prática da quarentena, atualmente na ordem do dia, e das universidades e escolas médicas, que nos permitiram chegar onde chegámos no campo da saúde e da medicina. Uma viagem pelas noções e práticas da assistência dos tempos medievais em Portugal.

Cuidados médicos num hospital medieval. Avicenna, Canon Medicinae, c. 1450. Biblioteca Medicea Laurenziana, Firenze. Ilustração reproduzida de uma página do Pinterest.

 

Vivemos, atualmente, tempos de receio e ansiedade, causados pela rápida propagação do novo coronavírus (SARS-CoV-2), que surgiu, pela primeira vez, em dezembro de 2019, na cidade chinesa de Wuhan. Em cerca de três meses atingiu todos os continentes e um número considerável de países, levando a Organização Mundial de Saúde a classificar, no dia 11 de março de 2020, a covid-19, a doença provocada por este vírus, como uma pandemia.

Perante o aumento exponencial de casos no mundo e, desde o início do mês de março, em Portugal, os governos dos países afetados e a sociedade em geral procuram dar resposta e tomar medidas de contenção do vírus. No nosso país, onde já foi decretado (e renovado) o estado de emergência, prepararam-se os principais hospitais para testar casos suspeitos e acolher doentes infetados, instalaram-se hospitais de campanha e suspenderam-se consultas e cirurgias não urgentes. Fora do contexto hospitalar, encerraram-se escolas, universidades e outros serviços e cancelaram-se eventos, para evitar grandes concentrações de pessoas. Estas, por sua vez, tentam proteger-se com os meios que têm ao seu alcance. Utilizam máscaras, na esperança de evitarem o contágio, esgotam os stocks de álcool e outros desinfetantes em farmácias e supermercados e isolam-se em suas casas.

Ontem, como hoje, o Homem procurou sempre combater, de forma adequada e de acordo com os meios materiais e conhecimentos médicos ao seu dispor, a pobreza e a doença, não raras vezes resultantes uma da outra. Na Idade Média, época marcada pela propagação de algumas das epidemias mais emblemáticas da História, como a lepra e a peste negra, a caridade cristã desempenhou um papel fundamental, determinando, em grande medida, o modo como a assistência aos pobres e doentes se desenvolveu.

 

A caridade no centro da assistência medieval

Catarina de Clèves distribui esmolas pelos pobres e doentes (c. 1440). Pierpont Morgan Library. MS M.917/945.

 

Desde os primeiros séculos de existência, a Igreja, através das Sagradas Escrituras, dos textos dos teólogos e dos sermões dos seus clérigos, exortou à prática da caridade pelos crentes, que deviam abdicar de parte dos seus bens terrenos para ajudar os mais necessitados, obtendo em troca a salvação eterna. A caridade (caritas) consistia no amor a Deus e, consequentemente, ao próximo; e materializava-se no cumprimento das obras de misericórdia, em especial as corporais, que eram indispensáveis à sobrevivência do indivíduo: dar de comer a quem tem fome; dar de beber a quem tem sede; vestir os nus; dar abrigo aos peregrinos; visitar os enfermos; visitar os presos; e enterrar os mortos.

Estes ideais conduziram ao desenvolvimento de uma relação de dependência entre ricos e pobres, usualmente designada como “economia da salvação”. Enquanto os primeiros garantiam, através das suas esmolas, a salvação dos corpos dos mais pobres, estes asseguravam junto de Deus, enquanto intercessores privilegiados, a salvação daqueles após a morte.

A partir dos séculos XI e XII, com o aumento do número de pobres nas cidades, as ideias de caridade e de “economia da salvação” ganharam uma outra dimensão e tornaram-se a base de todo o socorro prestado aos indivíduos que se encontravam numa situação de carência económica, motivada pelos mais diversos fatores, entre os quais a doença. Neste contexto, os particulares passaram a assumir uma crescente intervenção na assistência aos pobres e doentes.

O auxílio prestado aos mais necessitados podia manifestar-se de diversas formas, sendo a esmola direta, aquela que o benfeitor entregava, no imediato, ao mendigo – à semelhança do que, ainda hoje, acontece com frequência – uma das mais comuns. Mas era através dos legados pios que incluíam nos seus testamentos, que os particulares com posses mais ajudavam os pobres e doentes, destinando-lhes uma parte dos seus bens, com o intuito de atingir a sua redenção. Ao mesmo tempo, os que recebiam estas doações tinham uma oportunidade de suprir algumas das suas necessidades mais básicas, como saciar a fome e a sede ou recuperar a sua saúde.

Se a distribuição de somas em dinheiro, após a morte do benfeitor, seguindo o determinado no seu testamento, era a prática mais frequente, outros tipos de legados não eram menos importantes. Era este o caso dos donativos compostos por géneros alimentares, indispensáveis ao equilíbrio do organismo humano. Os pobres e os doentes tinham, assim, acesso a algumas refeições, ainda que esporádicas, compostas por pão, vinho, carne ou peixe.

Algumas dessas doações destinar-se-iam, mesmo, de uma forma mais clara, a fins terapêuticos. Na Coimbra do século XIV, por exemplo, uma dama da casa da rainha D. Isabel doou às freiras doentes do mosteiro de Santana dinheiro para a compra de frangos, uma carne magra, bastante nutritiva e de fácil digestão, com vantagens claras para quem se encontrava num estado de fraqueza física ou convalescença, contribuindo para o restabelecimento da sua saúde.

Menos frequentemente, alguns testadores faziam legados que tinham por objetivo direto a cura dos enfermos. D. Mor Dias, num primeiro testamento redigido no último quartel do século XIII, manifestou essa intenção, ao determinar que, todos os anos, deviam ser atribuídas 20 libras a doentes, para aquisição de medicamentos. Noutros casos, tomavam-se medidas profiláticas, com o intuito de manter algum distanciamento dos doentes e evitar um possível contágio. Esta parece ter sido a intenção de um casal conimbricense, no século XIV, ao doar sete marcos de prata para se fazer um cálice exclusivo para a comunhão dos doentes.

A ação dos mais ricos no socorro aos pobres e doentes passava ainda por beneficiar as instituições de assistência, que se expandiram, igualmente, a partir do século XII. Além de beneficiários da caridade individual, da qual muitas vezes resultavam, estes estabelecimentos, em especial os hospitais, assumiram o papel de grandes protagonistas da assistência medieval, oferecendo abrigo, agasalho e alimentação a todos os que a eles se dirigiam.

Hospices de Beaune (França Hostel-Dieu, os Hospices de Beaune (França), instituídos em 1443 por Nicolas Rolin e Guigone de Salins, para assistência a doentes. Foto © António Marujo

 

“Acolher os pobres que de seu nom teem”: os hospitais medievais

Foi a partir do século XII e, em particular, ao longo do século XIII, que o número de hospitais e outras casas assistenciais aumentou consideravelmente na Europa, em geral, e em Portugal, em particular, para enfrentar os problemas sociais colocados pelo desenvolvimento da pobreza, sobretudo, em meio urbano. Assistiu-se, nestas centúrias, a uma evidente mudança de paradigma, que o historiador francês André Vauchez apelidou de “revolução da caridade”.


Fundados por particulares, leigos ou eclesiásticos, como manifestação evidente da sua caridade, ou pelos poderes religioso, régio e municipal, os hospitais medievais diferiam bastante dos atuais. Eram instituições de acolhimento ou, como o próprio nome indica, de hospedagem de pobres, doentes, peregrinos e outros indigentes. Competia-lhes oferecer aos seus hóspedes abrigo, agasalho e um leito onde dormir por uma ou mais noites, e ainda alguns bens de primeira necessidade, como água, alimentos e fogo. Mas estes hospitais distanciam-se dos seus homólogos contemporâneos sobretudo por não incluírem, entre as suas funções primordiais, a prestação de cuidados médicos. Isto não significa que não tivessem preocupações com o bem-estar e a saúde dos seus utentes e que não dispensassem alguns tratamentos específicos aos enfermos que a eles acorriam ou aos pobres que neles adoeciam.

Reconstituição hipotética do Hospital de Santa Isabel (Coimbra). Estudo de Joaquim Manuel da Silva Correia, in Origens e Formação das Misericórdias Portuguesas, de Fernando da Silva Correia; Lisboa: Livros Horizonte, 1999 (1.ª ed. 1944).

 

Muito similares aos hospitais, as albergarias tinham as mesmas funções de acolhimento. No entanto, estas estavam, por norma, associadas às vias de comunicação, destinando-se a peregrinos e outros viandantes, que, durante as suas viagens, precisavam de um sítio onde pernoitar e proteger-se dos perigos que estavam sempre à espreita em zonas mais isoladas. Em contexto urbano, porém, as albergarias confundiam-se com os hospitais, sendo frequente, na documentação medieval, a utilização indistinta dos dois conceitos para se referir a uma mesma instituição.

 

Novos hospitais especializados, para isolar doentes

Os hospitais medievais podiam ainda assumir formas mais especializadas, destinando-se a receber determinados grupos de pobres e doentes, como consequência das novas atitudes face às situações de fragilidade económica e biológica e das crescentes preocupações sanitárias, a partir dos séculos XIII e XIV.

As gafarias correspondem a um dos mais precoces e significativos exemplos desses hospitais, surgindo na sequência da proliferação da lepra na Europa medieval e, em simultâneo, no contexto do impulso caritativo, já referido. Estas instituições foram criadas com o objetivo de isolar ou, pelo menos, afastar do convívio contínuo com a restante sociedade os leprosos ou gafos. Nelas, estes doentes encontravam um local onde permanecer durante a sua vida e onde recebiam os cuidados indispensáveis à sua sobrevivência. Em Portugal, foram fundadas inúmeras gafarias, destacando-se as de Coimbra, Santarém e Lisboa, que assumiram, nas respetivas cidades, um papel muito relevante no conjunto dos estabelecimentos assistenciais.

Gafaria de Coimbra. O que resta da Gafaria de Coimbra. Foto: © Maria de Lurdes Rosa.

 

Além das gafarias, os hospitais para pestíferos também eram exclusivamente dedicados ao acolhimento de doentes. Com efeito, tal como a lepra, a peste negra, epidemia com muito maior impacto, exigiu medidas profiláticas e de proteção da sociedade sã, para evitar o contágio. Desde o primeiro surto, em 1348, as autoridades, sobretudo as municipais, encarregaram-se de tomar as medidas necessárias ao seu combate. Todavia, os primeiros hospitais apenas surgiram na segunda metade do século XV. Estes consistiam em instituições criadas de urgência, para responder às necessidades de isolamento dos doentes durante as vagas epidémicas. Eram, portanto, estruturas efémeras, que acabavam por ser abandonadas ou mesmo destruídas no final do surto de peste, como se verificou, por exemplo, em Lisboa. Estão também documentados hospitais deste tipo nas cidades de Évora e do Porto, durante o último quartel do século XV.

Para socorrer um dos grupos de pobres mais frágeis, as crianças, fundaram-se os designados hospitais de meninos, que surgiram em Portugal na segunda metade do século XIII. Neles eram acolhidas crianças órfãs pobres e crianças abandonadas, que, perante a ausência de uma ou mais figuras adultas, não se podiam valer a si próprias. A função destas instituições passava por lhes dar abrigo e mantê-las ao longo da infância, até atingirem a maioridade, aos 14 anos, quando se podiam tornar independentes. Durante este período, era-lhes providenciada uma cama, alimentação, roupa, calçado e até um físico e mezinhas, quando necessário fosse, como nos demonstra o exemplo do hospital instituído pelo presbítero João Pires, em Vila Real, já nos finais da Idade Média.

A partir do século XIV, difundiu-se ainda um novo conceito de instituição de assistência em Portugal: as mercearias. Considerados também hospitais, estes estabelecimentos foram fundados com o objetivo de socorrer os pobres envergonhados ou de mercê, ou seja, indivíduos com um certo estatuto social que, devido a múltiplos fatores, caíam numa situação de pobreza, que os impedia de manter a sua anterior posição, sentindo-se demasiado envergonhados para mendigar. Estes pobres ou merceeiros recebiam, por norma, uma ração alimentar, roupa e, em alguns casos excecionais, cuidados médicos. Em troca, estavam obrigados a rezar pela alma dos benfeitores responsáveis pela fundação da mercearia.

Hospital medieval de S. João de Bruges (Bélgica) Hospital medieval de S. João de Bruges (Bélgica). Foto: © Ana Rita Rocha.

 

De um modo geral, e até finais da Idade Média, quando foram fundados os grandes hospitais nas principais cidades, todas estas casas assistenciais ocupavam edifícios próprios, de reduzidas dimensões e compostos por poucas divisões, geralmente amplas e apenas com as condições mínimas para socorrer os seus hóspedes. Se, hoje em dia, identificamos com relativa facilidade um hospital, graças à sua arquitetura característica, nos séculos medievais essa distinção não era assim tão óbvia. Estes equipamentos ocupavam, na maior parte das vezes, casas de habitação, facilmente adaptadas à sua nova função, não possuindo elementos arquitetónicos que os diferenciassem da construção corrente. Não obstante, estes edifícios podiam incluir espaços de culto, como capelas e altares, e ainda espaços abertos, como quintais e pátios, que contribuíam para o equilíbrio entre o corpo e a alma e para a manutenção da saúde dos indivíduos assistidos.

 
Combater a pobreza e a doença: os cuidados do corpo nos hospitais medievais

Era, precisamente, nesta ideia de equilíbrio e de preservação da saúde que assentava, em grande medida, a medicina medieval. A saúde resultava não só, segundo se acreditava, de uma harmonia entre o corpo e a alma, mas também do equilíbrio dos quatro humores ou fluídos que compunham o organismo (sangue, fleuma, bílis negra e bílis). Neste sentido, a doença podia ser a manifestação física dos pecados do espírito ou o resultado do excesso de um dos humores no corpo. Os tratados médicos definiam, deste modo, formas de evitar o desequilíbrio, concentrando-se numa medicina preventiva, que ajudasse as pessoas a viver de modo saudável. No entanto, quando a doença era inevitável, impunha-se a intervenção do físico ou do cirurgião, para diagnosticar e prescrever tratamentos médicos.

Diversas obras médicas, que se inscreviam no designado regimen sanitatis, um género de literatura médica em crescimento na Europa medieval, propunham uma série de regras que garantiam uma vida saudável. Entre os seus preceitos-base contavam-se a alimentação, a higiene, o conforto, a segurança e o descanso, que, devidamente seguidos, asseguravam o já mencionado equilíbrio corporal. Mais do que cuidados médicos, os hospitais medievais preocuparam-se em proporcionar aos seus hóspedes estas condições.

Em primeiro lugar, uma boa dieta, variada e nutritiva, é fundamental para manter a saúde, mas também para a recuperar, após um período de doença e consequente enfraquecimento físico. Com este intuito, muitos hospitais medievais ofereciam refeições, mais ou menos completas, aos seus assistidos, chegando a incluir nos seus regulamentos uma detalhada descrição dos géneros a que aqueles tinham direito, como fez a Gafaria de Coimbra, em 1329. Nesta instituição, os leprosos recebiam uma variada seleção de alimentos ao longo do ano, como pão, vinho, carne, peixe, legumes, fruta e vinho, nos quais obtinham uma quantidade apreciável de nutrientes, não obstante algumas carências. Recebiam, inclusivamente, mel e especiarias, que poderiam ser utilizados em algumas receitas médicas.

Num outro caso, na mesma cidade, também no século XIV, os pobres que adoecessem na Albergaria de Santa Maria, dependente da Sé, tinham direito a uma refeição especial, adequada ao seu estado. De facto, além de estarem obrigados a visitá-los, como ditava a 5.ª obra de misericórdia, os responsáveis pela instituição deviam dar-lhes caldo de farinha, um prato de composição simples e de fácil digestão.

Antiga enfermaria do Hospital da Misericórdia de Beja. Antiga enfermaria do Hospital da Misericórdia de Beja. Foto: Património Cultural/Direitos reservados.

 

Estreitamente relacionados, a higiene, o conforto, a segurança e o descanso também faziam parte dos cuidados oferecidos nos estabelecimentos assistenciais. Neles, os pobres e doentes encontravam um teto, que os abrigava das intempéries e de outros perigos do exterior, uma cama onde descansar, fogo, sobretudo para os aquecer, e mesmo algumas condições de higiene. Estas eram, aliás, as principais preocupações e funções do hospitaleiro do Hospital dos Mirleus de Coimbra, nos finais da Idade Média. Este funcionário devia, entre outras tarefas, limpar o edifício, lavar a roupa, fazer as camas e dar água e fogo aos seus hóspedes. A documentação não é, contudo, rica em referências aos banhos pessoais. Mas a presença da água, enquanto bem a que os pobres e doentes tinham direito, leva-nos a colocar a hipótese de esta se destinar também a esse fim.

 

Cuidados médicos e equilíbrio de humores

A todos estes cuidados podiam somar-se os médicos. Embora estes não definissem um hospital na Idade Média nem fizessem parte das suas funções centrais, alguns estabelecimentos incorporaram-nos na assistência que prestavam aos seus utentes, alguns deles desde relativamente cedo. Estes cuidados passavam, essencialmente, pela visita do físico e cirurgião e pela prescrição de tratamentos à base de mezinhas e outros medicamentos, mas também de procedimentos cirúrgicos, como as sangrias. Enquanto ao físico competia identificar a doença, através dos meios de diagnóstico conhecidos na época, como a observação da urina e a medição do pulso, o cirurgião intervinha diretamente no corpo do paciente, fazendo, por exemplo, sangrias, que visavam repor o equilíbrio dos humores no organismo e, portanto, restabelecer a saúde do doente.

Ainda no século XIV, hospitais como os de Bartolomeu Joanes e de D. Afonso IV (na realidade, uma mercearia), ambos em Lisboa, previam já, nos seus documentos fundacionais, algumas destas medidas. No primeiro, cada pobre recebia 5 soldos para sangrias, realizadas, provavelmente, fora do perímetro hospitalar, demonstrando que a saúde não era um bem acessível a todos e que muitos dependiam da caridade alheia para a ela terem acesso. No segundo, D. Afonso IV determinou que, quando os pobres aí acolhidos adoecessem, tinham direito à visita de um médico, que deveria tratar deles, e ainda a uma casa separada dos restantes hóspedes, para lhes garantir alguma tranquilidade e conforto, mas também para proteger os indivíduos saudáveis.

Beato Angelico, A Cura de Justiniano, por São Cosme e São Damião. Convento de S.Marcos, Florença

 

Com o aproximar do final da Idade Média, a evolução fez-se no sentido da medicalização da assistência. A partir de então, os hospitais começaram a assumir a faceta que hoje lhes conhecemos, especializando-se no acolhimento de doentes. Um dos primeiros estabelecimentos a fazê-lo, excetuando-se as gafarias, foi o Hospital de João Afonso de Santarém, na cidade com o mesmo nome, fundado em 1426, que se destinava a pobres entrevados. Ainda mais claro é o regimento do Hospital da Confraria dos Clérigos de Montemor-o-Velho, de 1495, onde é indicado que o principal fim dos hospitais é receber os enfermos, curá-los e provê-los com o que lhes for necessário. Nestes casos, em particular no primeiro, são mesmo descritos alguns dos medicamentos administrados aos doentes, destacando-se as mezinhas, os unguentos, os xaropes e os electuários, prevendo-se, também, uma dieta especial, de carnes magras e nutritivas, açúcar e frutos secos.

O regimento do Hospital de Montemor-o-Velho introduz ainda uma outra novidade, muito significativa, atendendo ao contexto atual, no nosso país e no mundo. Este documento salvaguarda o tratamento dos enfermos pelo físico, em caso de surto de pestilência na vila, não os podendo abandonar. Tal como hoje, os médicos tinham, muitas vezes, de colocar a saúde dos seus pacientes à frente da sua própria saúde e segurança.

Um médico observa a urina de um doente (séc. XV). Bibliothèque nationale de France. Département des Manuscrits. Français 9140. Fonte: gallica.bnf.fr / Bibliothèque nationale de France.

 

Idade Média: hospitais, quarentena e escolas

Após a Idade Média e ao longo das épocas Moderna e Contemporânea, os hospitais e a medicina continuaram o seu percurso evolutivo. Os hospitais tornaram-se cada vez mais especializados, mais bem apetrechados e com uma maior panóplia de tratamentos e procedimentos cirúrgicos disponíveis. A medicina, por sua vez, enriqueceu-se com os contributos de inúmeros médicos e cientistas, viu nascer as vacinas e os antibióticos e encontrou cura para doenças que se pensavam incuráveis.

Hospital Real de Todos-os-Santos, em Lisboa, representado num painel de azulejos de c. 1740, que pode ser visto no Museu da Cidade de Lisboa.

 

Hoje a braços com uma pandemia que parece não dar tréguas, da qual pouco sabemos, estamos, contudo, mais bem informados e preparados do que há 600 ou 500 anos. Mas não podemos esquecer que devemos à Idade Média o aparecimento dos hospitais, que evoluíram no sentido dos nossos, da prática da quarentena, atualmente na ordem do dia, e das universidades e escolas médicas, que nos permitiram chegar onde chegámos no campo da saúde e da medicina. Esperando que, desta vez, os nossos conhecimentos e sentido cívico sejam suficientes para vencer mais esta batalha.

 

Ana Rita Rocha é historiadora, doutorada em História da Idade Média pela Universidade de Coimbra, com uma tese sobre a assistência aos pobres e doentes na cidade de Coimbra na Idade Média; é bolseira do projeto ERC “VINCULUM” (Nova-FCSH), investigadora integrada no Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa (FCSH) e investigadora colaboradora no Centro de História da Sociedade e da Cultura, da Universidade de Coimbra.

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