Responsáveis diocesanos do Sínodo destacam

Acolhimento, clericalismo, papel das mulheres e das periferias

| 3 Jun 2022

sinodo 2023 questionarios foto diocese leiria fatima

Questionários para Sínodo 2023. Foto © Diocese Leiria-Fátima.

 

A baixa qualidade do acolhimento e da escuta, a ausência dos jovens e o reconhecimento do papel das mulheres, o clericalismo como obstáculo à participação dos leigos na vida da Igreja e na capacidade de leitura dos sinais dos tempos, a dificuldade de integrar as periferias na vida das comunidades e a baixa participação na vida cultural e política são alguns dos temas mais focados nas respostas ao pedido feito pelo 7MARGENS aos responsáveis das comissões diocesanas do Sínodo 2021-2023 para que indicassem “alguns aspetos dos contributos já recebidos que mereçam maior destaque”.

Para lá deste núcleo de questões é também frequentemente referida a necessidade de uma maior e melhor formação de padres e leigos, do investimento em celebrações mais estimulantes e toda uma série de recomendações quanto à catequese das crianças, ao acompanhamento dos jovens, à relação dos movimentos com as paróquias, ao funcionamento dos conselhos paroquiais e outros aspetos da vida eclesial pouco conformes com o carácter sinodal desta.

A par de contributos mais anódinos e rotineiros, algumas das verificações críticas são, por vezes, bastante contundentes, assim como a formulação de propostas de mudança no modo de ser Igreja, na necessária atenção aos descartados, às minorias de toda a espécie e ao compromisso para os acolher e para alterar situações de exclusão. 

O inquérito do 7MARGENS pedia aos responsáveis diocesanos que fizessem um balanço do caminho percorrido e indicassem os temas mais comuns dos contributos de paróquias, grupos, movimentos e outras estruturas. Entre as 21 dioceses portuguesas (20 territoriais e a das Forças Armadas e Segurança), houve cinco que não responderam: Algarve, Santarém, Viana do Castelo, Viseu e Bragança-Miranda, escudando-se esta última com o argumento de que, estando a diocese sem bispo, isso não seria oportuno.

Esta avaliação feita pelos diversos responsáveis diocesanos – todos eles padres, como referido em anterior artigo do 7MARGENS acerca da composição das comissões não é, porém, passível de uma síntese que faça justiça à diversidade das questões abordadas e das recomendações feitas, para além de que os processos sinodais nas dioceses se encontram em fases diferentes, tendo umas publicado a síntese final, outras ainda a recolher contributos de grupos e comunidades.

Clericalismo, participação e escuta

No entanto, na panóplia dos aspetos que se opõem a uma Igreja verdadeiramente sinodal, o clericalismo surge como nota dominante: “A estrutura eclesial na Diocese e na Igreja em geral permanece ainda excessivamente clerical, formal, centralizada e ritualista” – escreve o padre Manuel António do Rosário, de Beja, enquanto em Braga, Sérgio Torres reconhece existir “muita dependência da figura do pároco, com pouca importância atribuída aos órgãos de participação e de corresponsabilidade” e, na diocese de Portalegre e Castelo Branco, Amândio Bártolo Mateus afirma: “a Igreja fez cristãos para obedecerem à hierarquia e ao seu magistério, não fez cristãos conscientes da sua identidade e capacitados.”

Sobre este tema, a síntese diocesana de Coimbra faz um diagnóstico mais taxativo: “Os pastores misturam-se pouco com as ovelhas. Somos uma Igreja ainda muito centrada no clero, uma ‘hierarquia conservadora’, que não olha todos da mesma forma (mulheres, LGBTQ, recasados, prostitutas, doentes físicos e psiquiátricos, quem tem opiniões diferentes…). Somos ainda uma Igreja piramidal, com poucas pessoas e envelhecida.” Por seu turno, o responsável pela comissão de Aveiro, Licínio Cardoso, escreve: “O Povo de Deus quer e reclama mais tempo e mais oportunidades para ser ouvido por parte dos ‘pastores’ a quem ’acusa’ de não terem tempo.” 

Entre as consequências deste clericalismo que impede a Igreja de ser sinodal e viver a sinodalidade, a Diocese de Coimbra sublinha: “o discernimento não é a prática habitual da comunidade. Não existe, na nossa Igreja local, um método de discernimento em conjunto, pois as pessoas envolvidas não são ouvidas de forma a poderem tomar decisões. Deste modo, ‘somos apenas incluídos na fase do agir de acordo com. Somos uma comunidade responsável no que nos é proposto, mas não somos incluídos na tomada de decisão’.” No que é acompanhada pelo diagnóstico feito em Aveiro: “Há ainda dificuldades e receios para dialogar, decidir e assumir compromissos que envolvam a comunidade paroquial no seu todo. Nota-se que não há hábitos de pensar e refletir a ação pastoral”. 

Na Diocese de Leiria-Fátima, ao apresentar os elementos para a síntese, o padre José Augusto Rodrigues nota que “metade das [pessoas que enviaram] respostas afirma que nunca ouviu falar, não conhece, não sabe se existe, não sabe como funciona, não sabe para que serve o Conselho Pastoral”. No Funchal a situação é olhada pelo padre Manuel Ramos como requerendo “uma maior corresponsabilidade dos cristãos na vida da Igreja para que o caminho conjunto seja mais eficiente e credível no mundo”. Na síntese da diocese de Setúbal – que, a par da de Coimbra, são até agora os dois documentos mais interessantes e fecundos – pede-se taxativamente “mais diálogo entre leigos e clero” e “mais participação de todos em tudo: incluindo na eleição do bispo”. E em Leiria-Fátima salienta-se ainda que “a larga maioria das respostas” afirma que “não existe uma cultura nem uma prática de avaliação na Igreja, tal como não existe uma efetiva prestação de contas das responsabilidades assumidas”.

Em Lamego, Diamantino Duarte refere que a tónica é posta na “necessidade notória de maior acolhimento e tolerância relativamente aos que estão afastados da Igreja”, no que é secundado pelo compromisso da Diocese de Setúbal para garantir o “acolhimento de todos e [dar] espaço para todos participarem nas várias missões da comunidade; especialmente aos jovens, mulheres, aos mais pobres, aos casais recasados, aos homossexuais, às famílias monoparentais e minorias”.

Jovens e mulheres

Temas recorrentes referidos por quase todos os responsáveis diocesanos são o da dificuldade de atrair os jovens e o da necessidade de reconhecer o papel das mulheres. Algumas dioceses retiveram a indicação dos grupos sinodais para que seja reservado “um lugar mais relevante à mulher na Igreja e na hierarquia da mesma” (padre Márcio Martins, Vila Real), ou para que “o papel da mulher na vida da Igreja e nos ministérios seja objeto de reflexão” (Setúbal), ou ainda para a “possibilidade de um dia as mulheres poderem também ser admitidas ao presbiterado, tal como sucede nas Igrejas protestantes” (Coimbra) e para que se dê “mais espaço às mulheres na estrutura da Igreja Universal, Diocesana e Paroquial” e se repense “a ligação entre sacerdócio e celibato” (Manuel Rosário, Beja).

“Para os jovens a religião deixou de ter relevância e a liturgia não atrai nem preenche”, alerta-se em Aveiro, enquanto em Beja a conclusão é semelhante: “Em muitas comunidades faltam crianças e jovens, e o seu futuro está, por isso, posto em causa.” O que não difere muito do que é reconhecido em Braga: “Nota-se ainda muita preocupação com o afastamento dos jovens da Igreja”. Mais genericamente existem múltiplas referências ao envelhecimento dos fiéis leigos, das comunidades e da ausência de linguagens e práticas que permitam aos jovens envolverem-se e participarem na vida eclesial.

Periferias e questões fraturantes

Em Lamego, dá-se conta de que “existe uma necessidade notória de maior acolhimento e tolerância relativamente aos que estão afastados da Igreja”, em Lisboa o padre Rui Pedro Carvalho constata que “a resposta da Igreja parece ainda ser muito limitada no que respeita às questões que envolvem as pessoas em uniões de facto, no divórcio, em recasamento e com orientação homossexual” e em Setúbal recomenda-se “uma abertura ao diálogo na abordagem de temas como: a homossexualidade, o divórcio, o papel da mulher, participação cívica e ambiental e o acesso à comunhão dos divorciados recasados”. 

Em Viana do Castelo a palavra de ordem é: “Ouvir os das ‘periferias’!” e em Vila Real aponta-se o pecado da “falta de acolhimento dentro da Igreja e em especial aos recasados”. Em Beja sublinha-se que “há sectores que merecem ainda mais atenção: migrantes; toxicodependentes; recasados; minorias; desmotivados e indiferentes; idosos não-institucionalizados; sem-abrigo” e no Funchal aponta-se para uma “maior corresponsabilidade dos cristãos na vida da Igreja para que o caminho conjunto seja mais eficiente e credível no mundo”.

Talvez a síntese do longo levantamento de situações críticas e de propostas de mudança possa estar contida na resposta vinda do padre Jorge Castela, da Diocese da Guarda: “Há um desejo manifesto por renovar a Igreja, por a transformar em espaço de diálogo e comunhão. Foi recorrente a sugestão de prosseguir com estes grupos de diálogo e reflexão.” Ou, como se afirma em Lisboa, reconhecendo a “necessidade de a Igreja assumir um papel mais interventivo na vida social e política, investindo no diálogo aberto, humilde e fraterno com a sociedade, incluindo os católicos, os cristãos não católicos, as outras religiões e as instituições civis.”

Como se percebe, lendo as respostas que nos foram enviadas e as sínteses diocesanas já publicadas, as urgências que surgem destacadas dependem em muito da capacidade de escuta e do empenho de quem formula as sínteses finais. O que será de novo patente quando, no final de julho, se conhecer a síntese nacional que a Conferência Episcopal Portuguesa publicar a partir dos documentos que já recebeu e vai continuar a receber das dioceses portuguesas.

 

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