Acompanhamento, proximidade e cuidado

| 31 Mar 19

«“Como é que nunca levas papéis para as reuniões?” – perguntei eu ao Padre Aureliano.
“Se levasse papéis estaria mais preocupado em contar-vos o que escrevi do que em escutar o que tem para me dizer. Um sacerdote não é um instrutor, mas um educador…”, respondeu o Padre Aureliano»

Este diálogo é partilhado por Pablo d’Ors no seu livro (edição espanhola) Entusiasmo. O ‘acompanhamento’ é uma palavra que se vai impondo no léxico da Igreja Católica, ainda que no agir pastoral nem sempre estejamos predispostos para esta dimensão. É sempre mais fácil criarmos critérios, normas, leis e termos uma espécie de formatação ou modelo nos quais tudo tem que se encaixar. Talvez ao padre Aureliano fosse mais fácil levar um texto, mas perderia a capacidade de escuta, que é a primeira realidade de quem quer acompanhar. Escutar para perceber as motivações que cada um traz dentro de si, angústias e problemas, ou sonhos e esperanças, ou ainda caminhos de vida ou opções a realizar.

No Sínodo dos Bispos sobre os jovens, a fé e o discernimento vocacional [que decorreu em Outubro], duas palavras surgem do Documento Final proposto ao Papa: acompanhamento e discernimento. Os jovens reclamam e clamam por uma Igreja que os acompanhe e ajude nas opções e caminhos da própria vida. Ainda estamos a aprender como nos voltamos verdadeiramente para esta realidade, sendo um permanente desafio não só a uma pastoral juvenil diocesana, mas também à nossa forma de assumirmos os jovens nas nossas comunidades.

Durante muito tempo, o acompanhamento era algo próprio das comunidades educativas organizadas, sobretudo religiosas ou em alguns movimentos. Hoje ele tende a ser uma atitude permanente da nossa pastoral, ajudando a criar formas de proximidade, de escuta e processos de acompanhamento e discernimento. Talvez nos falte vencer alguma boa vontade de ‘alguém que tenha jeito para’, e apostarmos numa certa competência formativa com ofertas organizadas. Por um lado há a atitude de proximidade, do pastor, do catequista, do animador, do cuidador, do acompanhante, assistente, conselheiro ou diretor espiritual (etc.); por outro, há a necessidade de se criarem respostas efetivas para um acompanhamento da vida das pessoas à luz da fé.

Estranho o facto de alguns movimentos da Igreja, outrora fonte de militância e assistentes de referência no acompanhamento de cristãos, hoje penem para encontrarem nomeação de assistentes diocesanos ou nacionais. Estranho ainda o facto de termos casas que tendem em ser Centros de Espiritualidade e vivam mais na marcação de grupos do que em serem fator de proposta de crescimento humano e espiritual. Estranho ainda a dificuldade que vai acontecendo, um pouco por todo o país, de termos responsáveis por serviços de jovens ou de vocações – áreas de ação da Igreja que são afirmadas como prioritárias – e que se queixam da falta de disponibilidade ou da dispersão de tarefas que impede uma real e eficaz disponibilidade para uma estratégia de acompanhamento.

Quem procura um diretor espiritual a quem se dirige? Quem procura colocar uma inquietação vocacional, a que porta bate? Quem vive uma fragilidade ou angústia, familiar ou no sofrimento, como sentir a proximidade da Igreja? Em Itália é bastante comum encontrarem-se paróquias com oferta de um espaço ao qual se dá o nome de “Centro de Escuta”; há dioceses que têm propostas a partir de Centros de Espiritualidade de formas de acompanhamento espiritual e também acompanhamento a famílias/casais em situação de fragilidade. Vão surgindo muitos Centros na sociedade civil que vão dando esta resposta porque as pessoas querem ser apoiadas e ajudadas, e talvez nos esteja a faltar, em Igreja, uma maior assertividade nas nossas respostas.

Somos ágeis em nos organizarmos para tratar papéis (cartório, secretaria), termos horários de atendimento e funcionários para esses fins; eficazes no cuidado e orientação das situações sociais, mas talvez lentos e negligentes em respostas de escuta e acompanhamento da vida das pessoas. Há jovens em momentos-chave da vida, há inquietações vocacionais, há situações de luto, fragilidade da doença, mediação conjugal e familiar, e tantas outras situações que merecem mais que um amadorismo capaz, um bom senso na proximidade, mas também alguma competência na nossa resposta organizada.

Num tempo em que a atitude pastoral sugere sobretudo acompanhamento de processos – ‘pastoral de gestação’ – necessitamos de reforçar uma cultura de acompanhamento que favoreça o discernimento individual e comunitário e que a atitude de Jesus com os seus discípulos seja a nossa atitude pastoral, de proximidade e cuidado a cada pessoa.

 

João Alves é padre católico da diocese de Aveiro e pároco da paróquia da Vera-Cruz

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