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[Entre Margens]

Acompanhar casais em crise: da necessidade à prática

| 12/03/2026

Períodos de sofrimento, cansaço e incompreensão. É assim que o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida descreve os momentos difíceis que um casal em crise pode viver, por vezes durante vários anos. No seu documento Itinerários Catecumenais para a Vida Matrimonial (2022), dedica a última parte ao acompanhamento desta realidade tão presente na nossa sociedade, desafiando as igrejas particulares à ação.

O sofrimento causado pela crise conjugal, em homens e mulheres, e seus filhos, está bem espelhado nas duas exortações apostólicas pós-sinodais, Familiaris Consortio e Amoris Laetitia. Ora, perante as evidências que a Igreja Católica reconhece como uma prioridade de intervenção, é justo questionar: Como ajudar pastoralmente os casais em crise? Como acompanhá-los, quando a relação é fria, distante, sem esperança? O que fazer quando a separação está iminente ou é já uma realidade? Como ajudar a prevenir ruturas, a reconstruir e a fortalecer o vínculo conjugal?

Acompanhar pastoralmente na crise conjugal exige uma resposta capaz, especializada, compassiva, próxima, preparada e realista. Com origem no Québec, Canadá, há 50 anos que o programa cristão católico Retrouvaille acompanha casais em todo o mundo e os frutos visíveis da sua ação em muitos milhares de casais levaram a que fosse apresentado, no Vaticano, no X Encontro Mundial das Famílias, como uma boa prática pastoral. Dado por casais e sacerdotes, o programa conta, atualmente, com mais de 250 comunidades em todo o mundo. Portugal junta-se, agora, aos sete países europeus com este programa: Itália, Espanha, França, Inglaterra e País de Gales, Irlanda, Holanda e Ucrânia. A Pastoral da Família em Portugal dispõe, assim, de um programa para acompanhar casais em crise, inclusivamente separados e divorciados.

Casal a dar as mãos. Foto Min An Pexels

É justo questionar: Como ajudar pastoralmente os casais em crise? O que fazer quando a separação está iminente ou é já uma realidade? Como ajudar a prevenir ruturas? Foto © Min An Pexels

 

O que é Retrouvaille?

Esta palavra francesa significa “reencontro”. Não se trata apenas de um reencontro entre duas pessoas, mas de voltar ao coração da relação, àquele espaço onde um dia nasceu o “sim” e onde Deus continua presente, mesmo quando já não é percebido. O nome traduz uma intuição profundamente pastoral: mesmo quando o amor está ferido, cansado ou aparentemente diluído, há sempre a possibilidade de se reencontrar, de redescobrir o outro com um olhar novo e de reabrir um caminho de esperança.

 

A quem se destina Retrouvaille?

O programa Retrouvaille destina-se a casais em crise, em circunstâncias muito diversas: problemas de comunicação, ressentimentos, desgaste da relação, infidelidade, feridas interiores, doença, relação à distância, problemas com a família de origem, dificuldades financeiras, alteração das condições de vida e outras situações. E destina-se, também, a casais que querem melhorar a sua relação.

Os testemunhos falam por si e Nicola e Antonella, Eric e Angela, e tantos outros casais mostram que Retrouvaille é para todos os casais que não querem desistir de si nem da sua família.

 

Como funciona Retrouvaille?

Retrouvaille ajuda os casais em crise, ensinando-lhes um método de diálogo baseado na comunicação mútua de sentimentos, de modo que o casal, em empatia redescoberta, lide com os seus problemas. Programa iminentemente prático e confidencial, conta com a participação de outros casais que passaram, eles mesmos, pela crise conjugal e a superaram. Os testemunhos atestam o grande benefício do método do programa Retrouvaille para quem o frequenta, mesmo sendo não crente ou de outra confissão religiosa.

A duração do Retrouvaille é de um fim de semana presencial e de doze encontros semanais de duas horas, para aprofundamento.  O apoio aos casais continua no CORE (Continuing Our Retrouvaille Experience – “continuando a nossa experiência de reencontro”), um encontro mensal entre os casais que participaram nos diferentes programas, para se apoiarem mutuamente. O suporte de outros casais é vital para que os casais em crise ou que desejem melhorar a sua relação se aninem na cura, perdão e reconciliação.

A diocese de Bragança realizou, de 6 a 8 de março de 2026, o primeiro Encontro Retrouvaille para casais, dando vida à “Pastoral do Vínculo”. Em bom tempo, a Pastoral da Família, os sacerdotes e as comunidades de todo o país dispõem de um serviço de ajuda às famílias feridas, periferias da nossa existência.

 

Liliana F. Verde é professora. Licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa, foi assistente de Línguas Comenius, na Finlândia. É especializada em Educação Especial, mestre em Ciências da Família e formada em Mediação Familiar.

 

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