“Ad Gentes” – Fé Imatura

| 22 Jul 2023

(Este texto foi-me sugerido pela leitura de um artigo de João Valério, publicado no 7MARGENS, em 09/07/2023, do qual cito algumas expressões e que, julgo, se entenderá como espécie de diálogo fraterno.)

Charles Nicolas Cochin II (Paris, 1715-1790), A Vinda do Espírito Santo no Pentecostes.

Charles Nicolas Cochin II (Paris, 1715-1790), A Vinda do Espírito Santo no Pentecostes.

 

Não saberemos nunca – enquanto por cá andarmos caminhando – o que é uma Fé madura. Não nos é possível conhecer o grau e a qualidade da confiança íntima de cada um para com o Senhor, nem o da graça que o Senhor conceda a cada um. Fé é confiança.

Seja porque alguém se sente bem nas práticas eclesiásticas, seja porque nelas se sente mal e delas se afasta, seja porque nunca nelas participou, por circunstâncias várias – porque não lhe foram apelativas ou porque lhe pareceram relutantes ou por outras razões, como por puro ou deficiente desconhecimento –, nunca poderemos saber do verdadeiro estado de maturidade da Fé de cada um e do mistério de cada um. É verdade que os tempos são desafiantes, não só para a Igreja Católica, como para todas as Igrejas, como para quem o “ser cristão” é desígnio e sentido de existência e de relação, e também para quem, por algum modo, teve acesso à Boa Nova, que é Jesus.

A Igreja Católica “parece não conseguir responder às inquietações humanas” [– escreve João Valério]. Os seus templos esvaziam-se e perdem-se “referências cristãs na sociedade”, os adultos contemporâneos parecem ser “sem transcendências, sem verdades, sem limites, sem moral e sem política”, numa auto-suficiência que carrega “uma expetativa de total liberdade e realização plena (e por isso tão apelativa) descartando Deus” como desnecessário ou enganador, porque “impede a realização do indivíduo”.

Quando isto acontece, quando na Alemanha, num só ano, a Igreja Católica vê afastar-se meio milhão de cristãos, quem poderá dizer que isso acontece por fé imatura? Porque não pensar que foi por exercício daquela liberdade apelativa, de mais radical aproximação ao Senhor, a mais profunda característica da vocação humana e da vocação cristâ? Ninguém deu maior testemunho de liberdade (desafiante) que Jesus, ninguém foi mais claro nessa perceção que S. Paulo: “Fostes chamados para serdes livres, fazei-vos servos uns dos outros através do amor” (Carta aos Gálatas, 5,13).

É caso para lembrar com frequência o que nos narram os Atos dos Apóstolos no seu capítulo 10. Pedro, precisamente Pedro e o que Pedro significa, não entendia a Fé do pagão Cornélio e dos pagãos que estavam com ele. As regras (eclesiásticas de então) impediam-no de compreender: “de facto, agora compreendo que Deus não faz diferença entre as pessoas. Pelo contrário, Ele aceita quem O teme e pratica a justiça, seja qual for a nação a que pertence”, e “Pedro ainda estava a falar, quando o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra. Os fiéis de origem judaica, que tinham ido com Pedro, ficaram admirados por o dom do Espírito Santo também ser derramado sobre os pagãos” (At. 10, 44). O Espírito Santo derramou-se sobre os pagãos sem precisar que os batizassem. Os já batizados ainda se interrogavam se deviam batizar quem já recebera o Espírito Santo.

O afastamento experimentado em relação à Igreja, dos que saem e dos que não entram, efetivamente, não é uma questão de “número de sócios”, mas revelador de realidades de crise a resolver, revelador de “problemas complexos e enraizados”, que não são compreensíveis apenas pelas “fragilidades humanas”, que mancham a “imagem da Igreja”. O problema não é a imagem das Igrejas. O problema é o da Fé nas Igrejas, enquanto instituições de poder, nas suas estruturas, no seu discurso, na sua sacralidade, no seu indispensável conluio com os poderes mundanos. Não é o de confundir Fé em Jesus, Fé no Evangelho e Fé (confiança) nas Igrejas.

A imagem que se pretende para as Igrejas não é consentânea com os critérios testemunhais da Boa Nova, quer sob o ponto de vista de leitura exterior, quer sob o ponto de vista interior às comunidades cristãs. Será por “má intenção”? Será por “extremo zelo”? Será que a Boa Nova é ferramenta desadequada para o nosso critério de Fé? Será porque se misturam questões disciplinares com conteúdos essenciais, como os dogmas que definem a experiência religiosa? Não será porque essas questões não se fundamentam na radicalidade da Boa Nova, mas fundamentam-se numa história de poder, de domínio sobre as pessoas, sobre as consciências, sobre as sociedades, construindo comunidades formais, sem ou com pouca comunhão efetiva de conversão mútua ao conviver cristão?

Apela-se, com toda a razão, para a “radicalidade da Boa Nova de Jesus”. Essa radicalidade, “extremo zelo” que as estruturas eclesiásticas não testemunham, mas contra-testemunham com a sua representação poderosa (pomposa, burocrática e centralizadora) com a sua tendência para a unicidade de discurso e de liturgia, fica bloqueada, bloqueando a “experiência de liberdade em que somos convidados a um caminho que pode tomar inúmeras formas e que integra a criatividade humana”. A radicalidade da Boa Nova não se deixa prender nem por sábios discursos dogmáticos, nem por subtilezas de teologias académicas, nem por liturgias eclesiásticas sem relação existencial ao quotidiano das nossas vidas, nem por exibições massivas a que dão o epíteto de comunidades cristãs. A Boa Nova são factos simples, são Palavras simples duma Revelação de amor, tão desprendido e tão livre que o mundo não suportou e matou, mas se revelou e revela como Ressurreição, para ressurreição de todos.

 

José Veiga Torres, nascido e batizado na paróquia de Santa Maria Maior, da cidade de Viana do Castelo, a 30 de Agosto de 1930, reside em Coimbra; foi professor universitário e é autor do livro Desafio aos Cristãos e a outras gentes – da “condição humana” para a vocação humana. Contacto: joseveigatorres@sapo.pt

 

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