Adela Cortina e o conceito ético de “aporofobia”

| 8 Out 19 | Entre Margens, Últimas

Nas margens da filosofia (IX)

 

O nome de Adela Cortina é conhecido e respeitado na filosofia contemporânea, nomeadamente nos campos da filosofia política e da ética aplicada. Uma das teses que mais veementemente tem defendido é a necessidade de uma educação para os valores, algo a que a Escola e a Universidade deveriam prestar mais atenção. Num dos seus recentes livros cunhou o conceito de “aporofobia” [1], dissertando sobre o modo como a pobreza é encarada na sociedade actual e como tal situação é incompatível com a democracia, pois esta implica e exige o direito à inclusão.

O termo “aporofobia”, inicialmente inexistente em castelhano já foi incluído no Diccionario de la Real Academia e o desiderato da filósofa é universalizá-lo em várias línguas. Ao analisarmos etimologicamente este vocábulo parece-nos pertinente a sua utilização em português: “àporos” em grego significa pobre e “phóbos” traduz-se como medo ou receio. Deste modo, à semelhança do que se passa com o termo “xenofobia” (receio do estrangeiro) “aporofobia” passaria a significar o receio do pobre e, consequentemente, a sua recusa.

Foto © António Marujo

 

Note-se que, quando identifica este sentimento, a filósofa usa o termo castelhano “rechazo”, habitualmente traduzido por “rejeição.” Ora a perspectiva que a nossa sociedade tem do pobre não se circunscreve à ignorância do mesmo pois mais do que ignorarmos os pobres procuramos deliberadamente afastá-los das nossas preocupações, de modo a exorcizarmos problemas de consciência e a podermos viver o nosso quotidiano sem que a injustiça da sua existência nos perturbe.

Ao analisar este sentimento que considera uma constante na sociedade em que vivemos, Cortina atribuiu-o à ausência de reciprocidade: os pobres nada nos dão em troca do que lhes oferecemos, o que, segundo a filósofa, levaria a uma atitude inconsciente de rejeição. A nossa sociedade é contratualista, aquilo que damos exige uma resposta, uma restituição. Se me envolvo num trabalho, terei a devida paga, se me comprometo com alguém exijo dele uma resposta simétrica. A pura gratuidade não habita o nosso inconsciente e daí a rejeição relativamente àqueles de quem nada podemos receber.

Aceito a pertinência da explicação apresentada, que no entanto integraria num contexto mais amplo pelo peso que tem em todas as sociedades – o medo ao diferente, ao que foge à norma, mesmo que esta seja mais um desiderato do que uma realidade visível. Os pobres põem em causa a ideia de uma sociedade estável, igualitária e democrática, algo que pensamos ter sido conquistado pelas sociedades livres mas que, na realidade, ainda é do domínio da utopia. Os pobres perturbam-nos porque são o reverso do bem-estar social que proclamamos; eles denunciam as contradições e fraquezas de uma sociedade que visa ser feliz. De facto, congratulamo-nos com direitos que consideramos adquiridos como é o caso do direito à educação e ao trabalho, mas fechamos os olhos a todos os que ficam de fora e cuja presença torna evidentes os efeitos perversos das sociedades que construímos.

Os pobres inquietam-nos (ou deviam-nos inquietar) porque constituem uma ameaça ao curso normal das nossas vidas. Tratamo-los como um problema a ser resolvido pelos governos e por isso os apagamos da nossa mente, impedindo que nos preocupem. Nada mais legítimo do que a ambição a “uma vida boa”, algo que desde Aristóteles colocamos como uma meta a alcançar. O que não implica esquecer a realidade que nos rodeia, tornando invisíveis todos aqueles que eventualmente constituam um obstáculo a esse objectivo. Importa assumir a pobreza como uma realidade que ensombra as sociedades ditas “evoluídas”, ou seja, aquelas que não são eticamente neutras e que explicitamente se orientam por valores.

É tão importante conhecer, problematizar e discutir os valores que nos regem (ou que nos deveriam reger) como estudar matemática, ciências físicas ou humanidades. Por isso estou em sintonia com a proposta feita por Adela Cortina de introduzir a ética como disciplina curricular obrigatória no currículo escolar. Urge fazê-lo não só pela necessidade de uma reflexão sobre conceitos determinantes – essencial em qualquer sociedade democrática – como também pela sua dimensão prática, orientadora da vida e das opções de cada um.

Uma iniciação à ética ajustada aos diferentes níveis escolares levaria ao estudo e problematização de uma série de conceitos e preconceitos que enformam o nosso quotidiano dos quais a “aporofobia” é significativa. Há que combater a ideia de que a ética é algo de pessoal, que cada um recebe da família e da escola e que se consolida com a experiência de vida. As virtudes não são inatas, são susceptíveis de aprendizagem. Também não são subjectivas nem se colocam no terreno da pura argumentação.

Enquanto professora de filosofia sempre defendi a presença desta disciplina no currículo escolar. As vicissitudes do actual programa do ensino secundário e a sua transformação em capacidade divinatória avaliada em testes de resposta múltipla[2], levantam-me dúvidas quanto ao seu presente interesse formativo. Pergunto-me se não seria mais interessante para os alunos e mais eficaz como preparação para uma cidadania plena, dar-lhes a conhecer e com eles pensar, questionando, os grandes problemas de ética que paulatinamente foram assumidos como conquistas civilizacionais: a liberdade humana, o respeito pela diferença, a responsabilidade pelos outros e pela Natureza, a dignificação do estatuto da mulher, etc. etc.

Não tenho dúvidas de que, com um programa deste tipo, se combateriam muitas das fobias que por falta de reflexão se têm aceite como verdades indiscutíveis.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

Notas

[1] Adela Cortina, Aporofobia, el rechaço al pobre, Barcelona, Paidós, 2017.

[2] Baseio-me nos últimos exames de filosofia do 11º ano, onde o peso maior da avaliação recaía sobre um questionário em que o aluno escolhia a resposta certa por meio de uma cruz.

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