Adélia Prado: Espírito em Corpo de Mulher

| 26 Fev 19 | Cultura e artes, Literatura e Poesia, Últimas

Nestes últimos tempos de violência contra as mulheres, pela onda crescente de notícias sobre horror, tortura e morte, sofremos sinais de tragédia, de prantos e lutos, a ensombrecer-nos os dias. 

Atrevo-me, neste contexto, a dizer que a escritora brasileira Adélia Prado inspirou este meu pequeno texto, no sentimento divino das mais comuns circunstâncias da nossa humana condição. Mulher casada, professora primária, mãe de cinco filhos, moradora na pequena cidade de Divinópolis, no Estado de Minas Gerais, Adélia Prado foi de repente, aos 40 anos, a grande revelação na literatura brasileira do século XX, quando Carlos Drummond de Andrade a distinguiu e nomeou, em uma das suas crónicas do Jornal do Brasil.

“Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: está à lei, não dos homens, mas de Deus,” escreveu Drummond. Impressionado o editor, naquele mesmo ano de 1976 era publicado com sucesso imenso, o primeiro livro “Bagagem”. Tive a sorte de viver esse raro momento, de acompanhar e de poder ler a obra de Adélia Prado. Em épocas lineares ou complexas por que passei, desde aí mantenho os seus livros ao alcance da mão.  

Em verso e prosa, Adélia descobriu a mistura entre as pequenas tarefas de casa, as pessoas que a rodeiam, as coisas e os bichos, o sentir e o pensar, o silêncio da dúvida, a presença de Deus imediata e consciente, na inteireza da sua história de mulher. No romance Cacos para um Vitral, há esse seu olhar sobre o mundo de dentro e de fora, há o sentido espiritual da vida, há a expressão do estado puro de sensualidade, na experiência jubilosa da alegria.

Vamos, assim, seguindo o percurso de Glória, a personagem principal desta história, quase real em tão perfeita ficção.

A mulher, em discurso interior que ganha voz e exclama : “Muitos anos mais tarde, muitos anos mesmo, num instante de graça, surpreendeu-se tão absolutamente em si mesma que não tinha mais a consciência de si, um momento em que escrevia. Sentiu-se visitada de Deus! Então é assim que se é! Eu também sou, possuo um ser perceptível aos outros e não há perigo de que me desintegre em fragmentos de areia. Que belo dia foi aquele de sua epifania. Glória lembrava-se e agradecia de novo, tinha um ser. Era ela mesma um ser.”

A mulher que descobre e afirma a sua fé com firmeza: “Quando dois se amam ninguém é devedor, porque o amor cobre a multidão dos pecados e eleva os humildes e abate os poderosos de seus tronos. Glória viu que recitava o Magnificat, por puro gosto literário, o que nela era também uma forma de rezar, sua melhor forma, talvez .”

A mulher no dom pleno da sua sensualidade: “Ao abraço da paz o homem virou-se e pegou na mão de Glória e bem explicitamente: “A paz de Cristo esteja com a senhora”. Um homem belo, piedoso, feliz, pegava sua mão com força e lhe desejava a paz. Há pessoas cujos corpos nos apelam. No futuro se poderá fazer sem escândalo o que desejei fazer agora, pensou ela, tocar o homem, reter sua mão, à toa, só porque é bom, porque o sangue gosta. Dentro da igreja ou não.”

Um sabor em espírito de mulher, na prosa de Adélia Prado. Aqui e em modo de ponto final, a sua evocação de Guimarães Rosa: “Ele dizia que a gente tem de escrever com a barriga. Ou é a vida que se está escrevendo, ou é nada”.

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