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O padre Adelino Ascenso, no final da entrevista, dia 9 de Setembro. Foto © António Marujo/7MARGENS.

Rostos e Rumos

Adelino Ascenso, o padre missionário que quase foi monge budista

Uma rara experiência durante a juventude levou-o a sítios inóspitos como Katmandu, no Nepal. Na América Latina acompanhou na selva amazónica um pistoleiro durante dez dias. Adelino Ascenso, que está a terminar o seu mandato como superior geral da Sociedade Missionária da Boa Nova, é o último entrevistado do programa Rostos e Rumos, uma parceria da TSF e do 7MARGENS, cuja versão áudio pode ser escutada na página da rádio. O programa continua a ser transmitido nos primeiros domingos de cada mês, agora a partir das 15h00, e repetido na terça-feira seguinte, às 20h00.

 

Nascido em Souto de Carpalhosa, no concelho de Leiria, Adelino Ascenso foi imigrante na Alemanha durante sete anos, onde realizou exposições de pintura e foi professor de português e intérprete. O apelo do budismo fê-lo integrar uma comunidade e um mosteiro tibetano, no Nepal. Entretanto, um encontro com o bispo-coadjutor de Leiria à época, D. Serafim Ferreira e Silva, levou-o a apresentar-se à Sociedade Missionária da Boa Nova. Então, com 37 anos, decidiu ser padre missionário. Durante seis anos estudou filosofia e teologia na Universidade Católica Portuguesa, no Porto, e frequentou o seminário da Boa Nova, em Valadares, no concelho de Gaia.

Em 1998 foi ordenado padre, com 43 anos, e rapidamente se abriu à missão no Japão, onde esteve até 2014. De 2009 a 2012 foi professor na Universidade Católica de Osaka. Nos dois anos seguintes desenvolveu pastoral nas paróquias japonesas e desencadeou atividades no campo do diálogo interreligioso.

Em 2014 foi chamado a Portugal na sequência de ter sido eleito superior-geral da Sociedade Missionária da Boa Nova. Governou este instituto missionário por 12 anos. De 2023 a 2026 foi presidente da CIRP, a Confederação dos Institutos Religiosos de Portugal.

Doutorou-se em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, e editou dois livros em português, O Silêncio e A Mística do Arado. Prepara já as malas para regressar de novo ao país do sol nascente.

 

7M/TSF – Padre Adelino Ascenso, as enxurradas de Agosto no Nepal trouxeram-lhe à memória os tempos passados num mosteiro budista naquele país. Foi mais um rugido da natureza, aquela tragédia?

ADELINO ASCENSO – Foi uma terrível tragédia que nos deve levar todos a refletir as razões de tal tragédia. Principalmente o aquecimento global, etc. Trouxe-me bastantes recordações de lugares e de pessoas, de tal forma que dentro de três ou quatro dias eu irei novamente para o Nepal.

Chegarei a Katmandu daqui a uns dias para ver como está a situação. Espero visitar o mosteiro onde eu passei algumas semanas há 41 anos, precisamente.

Manuel Vilas Boas, Adelino Ascenso, Sociedade Missionária da Boa Nova, Rostos e Rumos

Momento da entrevista, dia 9 de Setembro. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M/TSF – Sabemos que o mundo oriental o perseguiu vários anos de tal modo que pouco faltou para ser monge budista. Que passos deu entre o budismo o padre Adelino Ascenso, que é hoje um padre missionário católico?

Por natureza não tomo decisões sobre o joelho. As decisões que tomo são profundamente ponderadas. Eu não digo exactamente que pensei ser monge budista. Eu pensei na hipótese de refletir sobre essa possibilidade. Ainda estava muito longe de uma decisão de ser monge budista.

O que é certo é que encontrei nesse mosteiro uma profundidade que eu não tinha encontrado no ocidente. Quando encontrei essa profundidade foi quando pensei: eu não me sentiria bem aqui neste mundo?…

Mas imediatamente veio o pensamento seguinte: e se eu voltasse às minhas raízes culturais e religiosas e escavasse lá para encontrar este mistério que eu encontro aqui? Aquela mesma história de sempre: muitas vezes é necessário a pessoa sair do centro e ir para lugares longínquos para se perceber que o tesouro está afinal em sua casa.

 

7M/TSF – O padre Adelino Ascenso tem hoje 71 anos. Nasceu em Souto de Carpalhosa, em Leiria, em 30 de Outubro de 1954. Como viveu a sua infância?

Vivi a minha infância como uma criança da aldeia.

 

7M/TSF – Não era um monge pequenino?

Não. Aliás, aos meus onze anos de idade quiseram que eu fosse para o seminário menor e eu recusei-me peremptoriamente. E foi aí, precisamente, que começou a minha vocação, com uma recusa.

Mas eu vivi os meus primeiros onze anos na aldeia, uma vida normal de aldeia. Nasci, de facto, na freguesia de Souto de Carpalhosa, numa aldeia pequenina chamada Vale da Pedra. E aí passei a minha infância.

 

7M/TSF – O que é que recorda do seu pai e da sua mãe?

Recordo do meu pai uma religiosidade forte, da minha mãe também, mas não tanto. E também uma grande liberdade, porque a partir do momento em que eu disse que não queria entrar no seminário, foi a minha mãe que me disse: se não queres entrar, não entras. Liberdade total.

 

7M/TSF – O padre Ascenso viveu o 25 de Abril de 1974 ainda em Portugal. O que é que guarda dessa data?

Guardo muitas recordações, porque eu tinha 19 anos de idade, num tempo em que todos os jovens tinham projectos e sonhos, e queriam lutar pela realização desses sonhos. Estar em Portugal, viver em Lisboa, precisamente nos tempos da Revolução, foram tempos extraordinariamente efervescentes. E eu não fiquei alheado, também me envolvi, como se envolveram os jovens que buscavam alguma coisa.

 

7M/TSF – E o serviço militar?

O serviço militar veio mais tarde. Fiz o serviço militar 15 meses em Portugal, que foi algo que me custou imenso…

 

7M/TSF – Por onde é que andou?

Eu não saía de Portugal, estive em Évora, em Elvas, Santa Margarida e Vila Real.

Festa de portugueses em Berlim: “Fazer tudo à maneira de Portugal”. Foto © Helena Araújo

Festa de portugueses em Berlim: “Eu não me sentia tão imigrante, propriamente dito, porque tentei entrosar-me na cultura”, recorda o padre Adelino Ascenso. Foto © Helena Araújo

7M/TSF – Entretanto, decidiu ir viver para a Alemanha, porquê?

Fundamentalmente porque a minha mãe estava na Alemanha, era imigrante na Alemanha. Foi essa a razão principal.

 

7M/TSF – Sentiu-se a fazer a experiência de imigrante de outros portugueses ou a sua condição era diferente?

Eu sempre tive um grande carinho pelos nossos imigrantes que lá procuravam fazer a sua vida. Por isso é que digo, entre parênteses, que nós portugueses não temos o direito de sermos xenófobos, nem temos o direito de travar a possibilidade daqueles que vêm de outras nações para constituir uma vida melhor. Fecho parênteses.

Ao mesmo tempo que tinha um grande carinho pelos imigrantes portugueses que estavam lá, eu não me sentia tão imigrante, propriamente dito, porque tentei entrosar-me na cultura. Aprendi a língua e procurei entrar na cultura, de tal forma que os meus contactos, as minhas amizades passaram a ser principalmente alemães. Mas nunca deixei a minha personalidade de português, como é óbvio.

 

7M/TSF – Além de dar aulas de português e ser intérprete, dedicou-se à atividade artística, foi pintor. O que procurava na arte?

A sobrevivência espiritual, a sobrevivência interior, aquilo que eu buscava na arte é o que eu busquei e continuo a buscar nas minhas viagens, nos meus passeios, nos meus escritos, etc: uma busca interior.

 

7M/TSF – E a atividade artística que continua a ser importante para si e ainda pinta?

Pinto de forma diferente. Procuro pintar de forma diferente.

 

7M/TSF – Mas com pincéis?

Não com pincéis, mas através da escrita, por exemplo. A pintura era uma forma de exprimir aquilo que me ia no interior. Agora não tenho pincéis, mas tenho outros instrumentos que uso para tentar exprimir aquilo que me vai no interior.

 

7M/TSF – O que é que pintava?

Era principalmente em estilo surrealista. Posso dizer que houve uma altura em que eu fui bastante influenciado pelo Salvador Dalí. Pintava a óleo sobre tela e também tinha uma técnica muito específica, muito minha, que era de esferográfica sobre cartolina. Que era um trabalho muito minucioso e que me dava muita satisfação.

Artur Bual, Pietà, acrílico sobre tela, s_ data

Artur Bual, Pietà, acrílico sobre tela, sem data: “O que guardo da relação com o Artur Bual, posso resumir em três palavras: encontro, omelete e transcendência.”

7M/TSF – Sei também que foi amigo do pintor Artur Bual, um homem de esquerda que pintou muitos Cristos. O que é que guarda dessa relação?

O que eu guardo da relação com o Artur Bual, posso resumir em três palavras: encontro, omelete e transcendência. Explico.

Encontro, porque vem-me sempre à memória o encontro que tive com o Artur Bual. Eu era o director artístico de uma galeria de arte em Leiria e quis organizar uma exposição com seis dos pintores mais conhecidos nessa altura. O Artur Bual era um deles. Contactei-o, encontrámo-nos pela primeira vez no Bairro Alto, num jantar, e a partir daí foi-se estabelecendo e alicerçando uma amizade. Ele foi a Leiria para me ajudar a montar a exposição e a partir daí houve este encontro que deu possibilidade à construção da tal amizade.

Uma amizade tão profunda que eu passava muitas noites no ateliê dele: à noite, depois de outras pessoas, outros amigos terem ido embora, eu acompanhava-o até à casa dele, às tantas da noite, e comíamos a omelete, que a mulher dele, a Guilhermina, tinha já preparado e tinha deixado para nós. E ela já estava a dormir.

 

7M/TSF – Era uma omelete a sério, não era nenhuma pintura…

Era uma omelete a sério. Nós comíamos a omelete – a segunda palavra.

A terceira é a transcendência, porque as nossas conversas roçavam sempre o transcendente. Eu uma vez disse ao Artur Bual: já muita gente que escreveu sobre ti, mas que eu saiba, nunca ninguém escreveu sobre a religiosidade em Artur Bual. Eu gostava de escrever sobre isso, o que é que achas? Ele ficou contentíssimo. Só consegui escrever esse trabalho, que depois foi publicado, quando eu estava na Gregoriana, em Roma, já ele tinha morrido. Mas deu-me muita satisfação escrever sobre a transcendência, a dimensão mística e cristológica em Arthur Boal.

 

7M/TSF – E como é que foi essa expressão?

O Artur Bual era um homem de uma religiosidade visceral.

 

7M/TSF – Era um homem de esquerda.

Era um homem de esquerda, mas isso não tem nada a ver com ser de esquerda ou de direita. Pelo contrário, até a esquerda, muitas vezes se aproxima mais dos direitos do ser humano. Mas aí não havia essa distinção.

O Artur Bual era profundamente humano. Por isso é que digo que a cristologia dele era visceral, o que se nota nos seus quadros – não só nos Cristos, mas principalmente nas pinturas abstratas.

A viagem de barco é de cortar a respiração, no meio de uma luxuriante floresta. Foto © Tony Neves

Floresta amazónica: “Quando regressámos, a mulher do pistoleiro disse-me que ele foi para a selva pela primeira vez sem as armas, por eu lhe ter dito que detestava armas.” Foto © Tony Neves

7M/TSF – Depois da Alemanha, em 1984, foi viver cerca de um ano na Ásia. Passou quase o mesmo tempo na América do Sul e aí viveu dez dias com um pistoleiro. Que aventuras foram essas, padre Adelino? As pistolas eram a sério?

As pistolas eram a sério. E os pistoleiros também eram a sério. E o perigo também era a sério. Ali não se brincava com nada, era tudo a sério. Não era nada falso.

Indo ao início: foram três anos de viagem; eu primeiro saí da Alemanha, deixei tudo o que tinha na Alemanha e parti para a Ásia: foi quando eu consegui entrar no Tibete, a partir do Nepal, em 1985.

 

7M/TSF – Katmandu estava na moda.

Katmandu estava na moda. Muita gente ia, muitos jovens iam em direção a Katmandu. Muitos perdiam-se e outros encontravam-se. Ou melhor, alguns encontravam-se e outros perdiam-se. Mas posso dizer que aí encontrei o meu caminho, porque foi precisamente num mosteiro budista tibetano em Katmandu, que decidi regressar às minhas raízes culturais e religiosas para ser sacerdote católico.

 

7M/TSF – Mas deixa-me saber, o que é que fez com o pistoleiro?

Sim. Depois, vim, regressei a Portugal e daí a uns meses, fui para a América do Sul. Viajei por diversos países, mas uma das aventuras mais impressionantes foi, precisamente, quando fui para uma aldeia de garimpeiros. Garimpeiros são exploradores de ouro. E onde há garimpeiros, há pistoleiros.

 

7M/TSF – Foi no Brasil?

Foi no Brasil, na selva amazónica, no estado de Mato Grosso. Aí, travei conhecimento com um pistoleiro. Esse pistoleiro ia para a selva para um serviço, disse-me ele, e eu, ingenuamente, perguntei se podia acompanhá-lo. Ele ficou, assim, um pouco espantado com a minha pergunta ingénua, mas viu que eu estava a falar a sério e disse: então, a partir de hoje, toma as refeições na minha casa, com a minha família; e assim foi. Daí a uma semana, partimos para a selva. Com muitos perigos, sim.

 

7M/TSF – E o que é que foram fazer?

O patrão dele, tinha um terreno no meio da selva e ele ia controlar as marcas do terreno. Mas aconteceu uma coisa, que relato muitas vezes e quase me comovo. Quando o conheci, bastou ele dizer uma frase, para saber que eu era português; perguntou-me: “Ó português, então, o que é que fazes aqui? Isto é uma zona muito perigosa. Andas armado, não é verdade?”

Eu não sabia que ele era pistoleiro. E eu disse: não, eu não ando armado, porque armas atraem armas. Eu detesto armas.

Mais tarde, depois dessa semana, a tomar as refeições em casa dele, com a mulher, a sogra, uma filhinha e ele próprio, fomos para a selva e regressámos daí a dez dias, depois de termos passado por muitos perigos, em que eu próprio passei por pistoleiro, para salvarmos a pele. E quando regressámos, a mulher dele disse-me uma coisa que me comoveu profundamente: “O meu marido foi para a selva pela primeira vez sem as armas. E fez isto em consideração para consigo, porque lhe tinha dito que detestava armas.”

Se ele tivesse levado as armas, houve uma situação, que depois me apercebi disso, em que teríamos corrido risco de vida: ele notou que alguém tinha mudado os marcos. E com certeza, disse-me ele depois, que os pistoleiros do outro patrão estariam ali perto.

Mas nada aconteceu, estabeleceu-se uma relação muito próxima entre nós. Ele pedia-me sempre que eu relatasse algo da espiritualidade oriental. Era um homem, um condenado, em busca do tal Deus possível.

Adelino Ascenso, Sociedade Missionária da Boa Nova, Rostos e Rumos

Padre Ascenso: “No budismo, seduzia-me a dimensão falante do silêncio.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS

7M/TSF – Nunca perdeu o pistoleiro.

Não o perdi em dois sentidos. Uma vez ele pôs-me à prova: dentro da selva, íamos a subir um monte, e ele começou a acelerar, acelerar, acelerar, para ver se eu conseguia acompanhá-lo. Mas eu consegui acompanhá-lo, e então ele disse-me: passaste o exame. Não perdi o pistoleiro. Porque se o tivesse perdido, ter-me-ia perdido na selva.

E também nunca o perdi, porque escrevi sobre ele, e soube mais tarde que ele foi assassinado.

 

7M/TSF – Padre Ascenso, depois do pistoleiro, ainda nos anos 80, já está no Nepal, já víamos dizendo isso. Quis ser monge budista, Padre Ascenso. Também já me disse porquê, o que é que o seduzia verdadeiramente nessa ocasião?

Seduzia-me a dimensão falante do silêncio.

 

7M/TSF – Como?

A dimensão falante do silêncio. Através do silêncio. Entramos na dimensão abstrata. Fascinavam-me principalmente os métodos de meditação. Métodos de meditação muito humanos, digamos até muito antropológicos, e depois toda a mística misturada com o dia-a-dia, com o quotidiano, mas uma mística profunda.

É difícil explicar o que eu encontrava no budismo, além de usar paradoxos, como por exemplo a plenitude do vazio ou o silêncio falante. Nesses paradoxos encontra-se essa profundidade que eu intuía no budismo.

 

7M/TSF – Que mundo lhe caiu em cima para abandonar esse percurso de monge budista? Aos 43 anos é padre católico e missionário. O que determinou essa mudança radical?

Foi quando eu comecei a refletir e pensei: mas eu far-me-ei monge budista por quê? Porque não procurar a profundidade nas minhas raízes culturais e religiosas? Foi aí que essa interrogação, que foi uma pergunta retórica, me levou a regressar e a procurar escavar no meu mundo cultural e religioso até encontrar a profundidade que eu tinha encontrado lá. Porque eu estava convicto de que, na Igreja Católica, existia essa profundidade.

 

7M/TSF – Fala fluentemente japonês e tem até um cartão com o seu nome em grafia japonesa.  Que fascínio é esse pelo Oriente. E porque optou pelo Japão?

Optei pelo Japão porque a Sociedade Missionária [da Boa Nova] ainda não estava na Ásia e eu fiz uma proposta que nos abríssemos à Ásia. E os países que propus foram Índia ou Japão.

Para entrar na Índia como missionário era muito difícil. Teria que entrar-se como profissional e depois poderia obter-se um visto, mas teria que sair-se cada seis meses e voltar a entrar. Para o Japão obtinha-se imediatamente um visto por três anos sem grandes dificuldades.

Eu tinha proposto um destes dois países porque considerava tanto a Índia como o Japão um trampolim para outros países asiáticos. Sempre considerei que o futuro do cristianismo e da espiritualidade passaria muito pelo Oriente. Foi a partir daí que nos decidimos pelo Japão. A Sociedade Missionária foi corajosa, porque foi um risco, naturalmente. Não estávamos na Ásia ainda, muito menos no Japão. Foi um risco e um voto de confiança também. A Sociedade Missionária arriscou, nomeou-me para o Japão e fui para o Japão. Foi assim que aconteceu.

Adelino Ascenso, Sociedade Missionária da Boa Nova, Rostos e Rumos

“O Japão ficou, faz parte da minha identidade”, diz o padre Adelino Ascenso. Foto © António Marujo/7MARGENS

7M/TSF – Esteve lá doze anos?

Estive lá doze anos. Fui logo a seguir à ordenação, em 1998, até 2004. Depois fui para Roma. Estive em Roma quatro anos. Voltei ao Japão e estive mais seis anos.

 

7M/TSF – E depois é escolhido para ser superior-geral da Sociedade Missionária em 2014. Nessa ocasião, já estava há doze anos no Japão. Como é que encarou essa viragem? Foi o fim de um projecto?

É sempre um fim e um princípio. Eu escrevi a minha tese em inglês e ela foi traduzida para o japonês. Com base na tese, eu estava a entrar no campo académico no Japão: dava muitos cursos, muitos seminários, conferências sobre o Shusaku Endo, que era o [foco] da minha tese.

Esse mundo terminou. Foi uma derrocada total. Mas começou outro mundo. Quando nós estamos a atingir algo que nos vai dar muita satisfação, acontece algo que nós consideramos quase uma desgraça, um corte, mas que pode desembocar numa crise, é, uma possibilidade de crescimento. Eu aceitei, chorei – não em público, mas chorei. A partir daí, assumi de corpo inteiro.

O Japão ficou, faz parte da minha identidade, mas eu assumi totalmente esta função.

 

7M/TSF – Foi superior-geral durante dois mandatos e surgiu a possibilidade de ter um terceiro mandato. A Sociedade Missionária estava à deriva nessa ocasião?

Não. A Sociedade Missionária não estava à deriva. O que acontece, hoje em dia, é que cada vez é mais difícil encontrar pessoas que estejam dispostas a assumir cargos de responsabilidade que têm a ver com pessoas e instituições. Cada vez é mais difícil porque as situações cada vez são mais intrincadas.

 

7M/TSF – Em Julho passado, o padre Adelino Ascenso foi substituído pelo padre Luís Castro, biblista de formação, e a Sociedade Missionária vai festejar 100 anos da fundação em 2030. A congregação foi fundada pelo Papa Pio XI para servir a missionação nas colónias, sob a égide do Estado Novo. Essa herança já é passado?

Uma herança é uma herança. Continua sempre. Sob a égide do Estado Novo, eu colocaria isso entre parênteses, porque quando se pensa nesse sentido, dá a entender que a Sociedade Missionária, nessa altura, seria como um braço estendido do Estado Novo, que não era. Temos exemplos de padres que sofreram também as consequências de serem profetas.

 

7M/TSF – E foram mortos, alguns.

Alguns foram mortos, sim. Chamamos-lhes mártires. A Sociedade Missionária foi fundada em 1930, e o Papa Pio XI escreveu aos bispos portugueses a pedir formadores, padres das suas dioceses, para aqueles que iam ser os três seminários da Sociedade Missionária que estava a ser fundada: o Seminário de Cernache do Bom Jardim, o Convento de Cristo, em Tomar, e o Seminário de Cucujães. E houve cinco dioceses que enviaram padres para a formação dos primeiros membros da Sociedade Missionária, que estava a nascer.

O que é muito curioso e nos leva à relação intrínseca com o Papa e com as dioceses. Portanto, aí está a nossa dimensão de “diocesaneidade”. Aliás, nós dependemos diretamente do Dicastério para a Evangelização, cujo prefeito é o Papa.

Livro, A Mística do Arado, Adelino Ascenso

“Todos precisamos de lavrar o nosso coração”, diz Adelino Ascenso a propósito do seu livro A Mística do Arado.

7M/TSF – Dentro de poucos anos, a Sociedade Missionária vai festejar 100 anos de fundação. Que festas vão ser essas?

Essa celebração em 2030 começou [a ser preparada] em 2023, praticamente sete anos. Há muitas actividades que vão sendo desenvolvidas conforme o programa que foi estruturado no início e que vai sendo activamente renovado.

Nós não queremos que seja um ponto de partida. Também não é um ponto de chegada. É como que um ponto de passagem. Temos de ter sempre qualquer objectivo: quando caminhamos pelo deserto temos uma pedra ou uma rocha e caminhamos em direcção a essa rocha; conforme vamos caminhando já o horizonte se vai mudando e nós continuamos e vemos uma outra rocha e apontamos para a outra rocha.

A Sociedade Missionária é Igreja, porque é uma parcela pequenina da Igreja Universal.

 

7M/TSF – A Sociedade Missionária não ordena nenhum membro em Portugal há dez anos. Actualmente, a maioria dos seus membros é de Angola, Moçambique e Brasil. O instituto ainda tem futuro?

Claro que tem. A Sociedade Missionária é a Sociedade Missionária da Boa Nova, já não é a Sociedade Missionária Portuguesa [primeiro nome do instituto].

Mesmo que o fosse [ainda], faz tudo parte do dinamismo da Igreja. Em Junho do ano passado, convidaram-me para ir à Suíça falar sobre a internacionalidade num instituto suíço. E o que eu lhes disse foi o seguinte: se vos abris à internacionalidade, obedecendo a um instinto de sobrevivência, é absolutamente errado, não vai funcionar. Agora, se vos abris à internacionalidade, isto é, receber candidatos de outras nações, tendo em conta a consciência de que a Igreja é dinâmica, então sim, então estamos no caminho certo.

Eu acredito nisso: nós estamos no caminho certo. A Sociedade Missionária é internacional, entrou no dinamismo da Igreja; não há ordenações em Portugal mas há ordenações em Angola, Moçambique, algumas no Brasil. Até temos neste momento um que veio do Japão.

 

7M/TSF – A prática religiosa da Europa começa a estar dependente também dos continentes africano e asiático. Como observa o fenómeno dos conventos e seminários vazios em Portugal?

Eu responderia novamente com o dinamismo da Igreja. Nos primeiros séculos da Igreja, no norte de África, havia uma efervescência de cristianismo. Depois, a maior parte dos institutos nasceram no hemisfério norte. Agora, as vocações vêm do hemisfério sul. Daqui a muitos séculos possivelmente há uma outra volta. É o dinamismo da Igreja. Isso não me assusta minimamente.

 

7M/TSF – Publicou o livro O Silêncio, em 2017 e A Mística do Arado, em 2021. Que mensagem quer fazer passar? O que é isso da mística do arado? Vamos ser todos agricultores?

Eu espero bem que sim, que sejamos todos agricultores. Todos precisamos de lavrar o nosso coração. Se não prepararmos o terreno para semearmos, corremos o risco de não ter um terreno acolhedor para recebermos a semente. Cada um deve trabalhar-se no seu interior. Isso é arar o seu próprio interior. Nesse sentido, espero que todos sejamos agricultores.

Adelino Ascenso, Sociedade Missionária da Boa Nova, Rostos e Rumos

“Dizia-me o Artur Bual: “Sabes, Adelino, às vezes a poesia tem palavras que saem da boca do poeta, vão pelo universo, tocam no infinito e regressam.” Foto © António Marujo/7MARGENS

7M/TSF – Dentro em breve, vai voltar para o Japão. Um missionário católico num Japão enigmático, com menos de um por cento de católicos, o que é que pode fazer, de facto? Um missionário ocidental escuta o quê?

Não vou agora cair no erro de dizer que escuta o silêncio, mas muitas vezes também escuta o silêncio. Escuta o clamor do outro. Escuta o clamor da natureza. Escuta as palavras não ditas. Escuta aquilo que está nos gestos. Dizia-me uma vez o Artur Bual: “Sabes, Adelino, às vezes a poesia tem palavras que saem da boca do poeta, vão pelo universo, tocam no infinito e regressam.”

 

7M/TSF – Como é que se pode guardar a esperança neste mundo de guerras malditas, de Inteligência Artificial perturbadora e do vazio espiritual que parece reinar?

Numa luta constante, procurar dar sentido às coisas. [O antigo Presidente checo] Vaclav Havel dizia: a esperança não é a consciência de que as coisas virão a estar melhores, mas sim a consciência de que algo faz sentido. Portanto, nunca podemos de forma nenhuma perder a esperança.

 

7M/TSF – Que música quer escolher para traduzir estas viagens e peregrinações que fez pelo mundo?

Essa é a pergunta que me deixa sempre embaraçado, porque há tantas músicas que foram importantes na minha vida. Mas, um dos meus compositores favoritos é o Bruckner. Temos Franz Liszt, temos Gustav Mahler. Houve uma altura em que eu não gostava muito do Gustav Mahler, depois comecei a entrar mais na música dele. Por exemplo, aquela parte final da sinfonia número 2, a Ressurreição, de Mahler, é algo extraordinário…

 

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