Adeptos de um deus menor

| 4 Nov 2020

Querer defender a fé, ou o Deus da sua devoção, quando supostamente atacados é ridículo, porque a fé não se defende assim e porque se esse Deus Todo-Poderoso precisa de defensores é porque não será assim tão poderoso.

Vigília em memória dos jornalistas do Charlie Hebdo assassinados em Janeiro de 2015. Foto © Ozias Filho.

 

Boa parte dos crentes de hoje, em todo o mundo, vivem mergulhados numa profunda contradição. Este fenómeno verifica-se em praticamente todas as religiões e não só nas monoteístas. Acontece com cristãos, muçulmanos, judeus, hindus, budistas e outros. Sentem necessidade e talvez até obrigação moral, de combater todos aqueles que supostamente vão contra a sua crença e ética religiosa, mas também contra a divindade da sua devoção ou figuras de referência como os profetas.

Assim, fazer chacota da fé alheia pode desencadear hoje a libertação dos piores demónios nos religiosos. Vemos isto com o caso das caricaturas de Maomé e o bárbaro assassínio dos jornalistas do Charlie Hebdo, em Paris, mas também com filmes de mau gosto que retratam um Jesus gay ou Maria como uma virgem pouco virgem.

O que parece é que os autores de tais reacções parecem estar mais interessados em impor a sua fé a terceiros do que em defender “a honra” das suas figuras religiosas. Se um dito crente mata meia dúzia de jornalistas apenas porque tiveram o azar de trabalhar num órgão de comunicação que publicou uns cartoons considerados ofensivos por alguns fiéis duma religião, ou se um dito crente mata a tiro um médico que trabalha numa clínica americana que realiza operações de interrupção voluntária de gravidez, isso diz mais daqueles que matam do que dos que são assassinados.

Mas que raio de deuses são esses tão sensíveis que se sentem ofendidos pelas parvoíces dos simples mortais? Decerto serão deuses talhados à imagem e semelhança do ser humano, portadores duma baixíssima autoestima, com um locus de controlo externo e que estarão inteiramente à mercê do que qualquer pessoa diz deles, dos caluniadores e blasfemos. Que raio de deuses são esses que não se conseguem defender a si mesmos, que necessitam dos simples mortais para o fazer? Que poder têm então?

Esses fiéis insistem em ver o seu deus quando se olham ao espelho. E então enxergam a sua imagem projectada de falta de amor e de perdão, de mesquinhez, de baixeza de espírito, de intolerância, de insegurança e orgulho parvo. Orgulho religioso mas parvo. É como se Deus fosse um ser frágil, incapaz e impotente, que necessita que os que o adoram executem vingança em seu nome. Mas, quando estes o fazem, estão a contrariar exactamente o carácter, discurso e pensamento desse mesmo Deus, numa demonstração eloquente de clara esquizofrenia religiosa. Afinal, para defender a honra do meu deus ou dos seus profetas, fazem exactamente o contrário daquilo que ele lhes mandou fazer…

De resto o próprio Jesus Cristo deixou bem claro que essa era a forma errada de reagir à incredulidade. Um dia, quando iam em viagem, o Mestre enviou mensageiros à sua frente a uma aldeia samaritana para preparar pousada a fim de pernoitarem ali. Mas os samaritanos recusaram-se a acolhê-los pois desconfiaram que iam a caminho de Jerusalém, e a disputa histórica entre Samaria e a Judeia era exacerbada. Então os discípulos, indignados, tiveram uma ideia peregrina: “E os seus discípulos, Tiago e João, vendo isto, disseram: Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma, como Elias também fez?” (Lucas 9:54). Mas Jesus repreendeu-os de imediato: “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E foram para outra aldeia” (55,56).

Tiago e João, afinal, portaram-se como estes crentes de hoje que vivem a religião do orgulho e da vingança. Tiveram dificuldade em aceitar que os samaritanos poderiam ter outras ideias em matéria de religião e consideraram a sua morte por castigo divino. Por vezes parece que ouço Jesus repetir aquelas palavras a estes extremistas modernos, adeptos do ódio e da vingança. Sim, eles “não sabem de que espírito são”, e desconhecem, tragicamente, que Jesus Cristo não veio para destruir mas para salvar as almas dos homens. De todos os homens, judeus, samaritanos ou gentios.

Samaria recorda-nos o episódio passado junto ao poço de Sicar entre Jesus e a mulher que lhe perguntou, a certa altura, se era no monte Gerizim ou em Jerusalém que se devia adorar. A resposta foi que havia de chegar o dia em que não se adoraria em nenhum desses lugares, porque “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4:24). Ou seja, não importa o local mas sim a atitude. E sobre a atitude destes adeptos dum deus menor, estamos conversados.

Deus não precisa de defensores, e se queremos defender a fé, então sigamos o que ela mesma nos ensina e não o contrário. É que a Grande Comissão não compele os fiéis a defender uma crença mas apenas a anunciar o evangelho. Nada mais.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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