Nas margens da filosofia (LVIII)

Admirável Mundo Novo

| 18 Out 2023

Imagem do trailer do filme “Admirável mundo novo” baseado na obra de Aldous Huxley.

 

Admirável Mundo Novo[1] foi um dos livros que marcou a minha adolescência. Lembro-me que o li em inglês, quando era aluna do Instituto Britânico e que ao longo da vida muitas vezes o reli, tal como faço com outras obras que me marcaram e cuja releitura me dá sempre imenso prazer. Na altura do meu primeiro encontro com esse livro partilhei as angústias de um dos seus personagens principais – John, o selvagem que habitou numa reserva e que subitamente se viu confrontado com os avanços da civilização. Apesar da simpatia que esta figura sempre me despertou nunca pensei que alguma vez me sentiria como ela, desfasada do mundo em que me é dado habitar – aderi com relativa facilidade ao universo da internet e dos telemóveis, abandonando sem saudades a máquina de escrever e o telefone fixo. Noto, no entanto, que o espartilho da técnica se vai tornando cada vez mais invasivo e que as pessoas da minha geração começam a ter dificuldades em se habituar a este novo modus vivendi. Por isso relato duas experiências que recentemente vivi e que não só me fizeram perceber a nostalgia da expressão “no meu tempo”, como me consciencializaram de que esse tempo já não é o de hoje, por muito actualizada que me possa sentir em muitos campos.

Retomando a figura do Selvagem e do seu espanto perante uma civilização desconhecida, relembro o choque que senti este ano ao verificar que a primeira parte do exame nacional de filosofia do 11º ano era constituída por exercícios de escolha múltipla. A resposta exigida aos alunos era a mera aplicação dos termos verdadeiro ou falso, sem que lhes fosse pedida qualquer justificação da sua escolha. A ausência dessa justificação transformava a prova de filosofia num jogo de sorte e de azar. Tudo o que se me afigurava importante cultivar nessa iniciação da filosofia a adolescentes – a capacidade de circunscrever um problema, a análise das suas implicações, a aplicabilidade das questões filosóficas à nossa vida – era omitido ou desprezado como desnecessário. Um(a) aluno(a) com sorte poderia obter uma alta pontuação se respondesse correctamente a esse bloco de questões.

Durante anos regi na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa a cadeira de Didáctica da Filosofia na qual se pretendia ensinar a ensinar. E um dos objectivos dessa minha prática era exigir que esses futuros professores fomentassem nos seus alunos as capacidades de ler, de compreender e de interpretar textos e livros, aplicando-os sempre que possível à vida, de modo que a filosofia pudesse ajudá-los a viver melhor. Ler e comentar textos e livros era então para mim (e continua a sê-lo) o melhor método para adquirir um vocabulário específico, para perceber o modo como se aborda uma temática, para nos tornarmos cúmplices de um autor.

Foi ao ler a Ética de Espinosa que percebi ser este o filósofo da minha vida, e tal facto não teria acontecido se me tivesse cingido aos textos soltos que comentávamos nas aulas. Daí a importância que sempre atribuí à leitura de recensões a livros, propondo-as muitas vezes como trabalho essencial das cadeiras por mim leccionadas. E penso que seria importante fomentar nos alunos do ensino secundário a leitura completa de pequenas obras filosóficas que lhes permitisse ganhar amor a esta disciplina, fazendo-os perceber a importância da mesma para as suas vidas futuras. O facto de se admitir que as questões de filosofia poderiam resolver-se por escolha múltipla ou com a simples aposição de um “certo” ou “errado” provocou em mim uma estranheza comparável à do selvagem John perante um “admirável mundo novo.”

Num contexto completamente diferente – uma recente experiência como visitante de um hospital ultramoderno do nosso país – fez-me recordar (revivendo-o) o espanto do Selvagem John ao ser confrontado com os avanços técnicos da civilização. A minha situação era a de acompanhante de um doente, ajudando-o a orientar-se nos múltiplos exames a que se deveria submeter antes de ser operado. E, de repente senti-me transportada para um “admirável mundo novo” onde para cada serviço havia necessidade de uma senha e onde o processo para a obter implicava o recurso a diferentes máquinas, até que nos fosse entregue a senha salvadora que nos levasse ao sítio pretendido. Obtida a senha era necessário escolher o elevador adequado e qualquer engano nos poderia transportar para uma área diferente da pretendida, tendo como consequência o reiniciar do processo. Chegados finalmente ao local certo, de novo era preciso recorrer a máquinas, até que por fim se obtinha um número de chamada. Nova estadia frente a um écran gigantesco e finalmente, depois de mais uma espera, o acesso ao número que permitia a consulta ao médico pretendido. Aconteceu que dessa consulta resultou o internamento do doente que eu acompanhava. E ao visitá-lo depois da operação senti-me de novo o Selvagem John perante portas que para serem abertas exigiam a exibição de uma senha e quartos com televisões gigantescas permanentemente ligadas. Note-se que a quebrar a agressividade desse mundo robotizado tínhamos a competência e a amabilidade de médico(a)s e de enfermeiro(a)s. Mas devo dizer que só deixei de ser habitada pelo espanto quando regressei a casa e abri a porta com uma chave, sem recurso a senhas.

Admirável mundo novo onde pessoas como eu terão de aprender a viver de um modo diferente.

 

[1] Aldous Huxley, Brave New World, London Chatto &Windows, 1972 (existem várias edições portuguesas, entre as quais lembro Admirável Mundo Novo, Lisboa, Antígona, 2013).

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é Professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

 

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