Pré-publicação

“Adolescência”, de Leonor Xavier: “Mexer no passado é olhar para o presente”

| 21 Fev 2022

Perplexidades, descobertas, olhares. Adolescência, o livro póstumo da jornalista e escritora Leonor Xavier, que morreu dia 12 de Dezembro passado, em Lisboa, e era colaboradora do 7MARGENS, é uma espécie de diálogo da autora que agora revisita partes do seu diário adolescente com a menina que, entre os 12 e os 17 anos, se vai espantando com as coisas do mundo e da fé, com a pobreza e as desigualdades, com a descoberta da amizade e do amor.

No prefácio, a autora cita uma amiga que diz que “mexer no passado é olhar para o presente” e explica como surgiu esta ideia: “Por puro acaso e sem nenhuma intenção, abro um caderno. Vou lendo em diagonal, folheio umas páginas, em desordem interior começo a rever os anos da minha adolescência. Descubro o retrato de uma época, de um desfile de preceitos e costumes, de adjetivos e expressões hoje desaparecidos em jeito de dizer, no quotidiano da nossa fala. Entre casos e circunstâncias, o diário guarda as inquietações, os desacertos, os sofrimentos, as teimosias, as incertezas.”

A partir daí, Leonor Xavier escolheu alguns excertos e comentou-os. Esse diálogo interior, distanciado e diacrónico permitiu construir uma obra original, que revela o olhar arguto, profundo e sensível de Leonor Xavier.

O livro (ed. Temas e Debates) será apresentado pela também jornalista e escritora Inês Pedrosa. A sessão decorre nesta terça-feira, 22, em Lisboa, a partir das 18h30 no espaço cultural do El Corte Inglés, em Lisboa. O 7MARGENS publica a seguir alguns excertos.

 

Leonor Xavier. Foto © Direitos reservados. 

 

24 fevereiro 1957

«Costumo ir à missa do meio dia e um quarto no Patronato, mas hoje não vou porque não posso ficar em jejum até essa hora. Fui para a igreja cedo e consegui não ficar em pé. Havia muito mais pessoas mais velhas do que eu mas eu senti muito mais o ambiente. Nas missas do meio dia vai imensa gente conhecida para mostrar toiletes e penteados. Tenho reparado que nas missas dessa hora as pessoas vão-se quase todas embora depois da bênção. Sei que os rapazes vão em grupo esperar as raparigas à missa do meio dia na Igreja de Fátima, à do meio dia e um quarto em S. Sebastião e à da uma hora na Estrela. Tenho ouvido conversas à saída e trata-se de festas, de assaltos, de vestidos e de idas a qualquer parte.

Dizia a mulher do cônsul da Turquia em Portugal: “Para que é preciso ir à missa? É uma estupidez ir ver os gestos do padre e ajoelhar-se para romper as meias!’” E, no entanto, esta senhora ia à missa porque “os seus deveres diplomáticos a obrigavam”.»

 

Vivíamos entre pecados veniais, mortais, e pecados contra a Santa Madre Igreja.

Veniais, os leves, como dizer mentiras, ser preguiçosa, brigar com os irmãos ou comer chocolates a mais. Estes, eu escrevia numa folha de papel, como uma cábula que ia dizendo ao padre, na confissão.

Mortais, eram os pecados graves, aqueles que na hora da morte levariam os faltosos diretamente para o inferno. Abortar. Roubar. Cometer adultério.

Faltar à missa era pecado contra os Mandamentos da Igreja (palavras sempre escritas com letra maiúscula), ir à missa era um acontecimento social, de igreja e horário concretamente escolhidos. E na missa eu tinha de ter a cabeça coberta por um véu, tapar os braços com mangas compridas, usar meias. Não devia sentar-me de pernas cruzadas. Tudo em nome da moral, da decência, do respeito, do pudor.

Para receber a Comunhão, tínhamos de estar em jejum desde a véspera. Trincar ou mastigar a hóstia, não podíamos.

Para muitos, a missa era uma rotina de domingo, não uma expressão de fé. A celebração em latim não se percebia, o altar estava longe. O sermão era longo, desinteressante, maçador. Com o Ite Missa Est e a bênção final, a saída era imediata, alívio e murmúrio de encontros e contentamento.

Ser católico era bem parecer em sociedade, assim como frequentar a igreja e as suas obras de misericórdia, pertencer aos movimentos cristãos, concordar com convenções, proclamar preconceitos.

Nas conversas que eu ouvia, os casais separados eram malvistos e os casados pelo civil eram ditos «registados», por esses motivos desfaziam-se relações, acabavam amizades.

Dizia-se que os judeus eram maus porque crucificaram Jesus, que os maçons pisavam Nosso Senhor nhós- tia consagrada, que os evangélicos eram «protestantes».

Se morressem, as crianças não batizadas iam para o limbo e lá ficariam por toda a eternidade.

Não convinha ter amigos filhos de pais separados, por serem más companhias. Como bem o diz Vasco Pulido Valente, em parêntesis pessoal de memória, enquanto comenta as relações entre Salazar e o cardeal Cerejeira: «Entre as amigas, a minha mãe era conhecida por ser anticlerical e havia certas famílias que não a queriam receber ou que os filhos brincassem comigo, nem me convidavam para as festas, pois eu seria uma má influência.» [João Céu e Silva, Uma Longa Viagem com Vasco Pulido Valente, Lisboa, Contraponto, 2021, p. 11.]

No país modelado entre Estado e Igreja, de religião não era de bom tom falar.

Abençoado Papa João XXIII, criador do Concílio Vaticano II, cinco anos depois desta página do meu diário. Entre outubro de 1962 e dezembro de 1965 iriam definir-se as grandes mudanças.

Em Portugal, a liberdade religiosa só foi admitida em 1974, a Lei da Liberdade Religiosa só foi promulgada em 2001. E apesar dos sinais de rancor perante as diferenças, apesar das desconfianças que provocam a xenofobia, a Comissão da Liberdade Religiosa confirma hoje a livre vivência de culto e espiritualidade, entre nós.

 

Leonor Xavier. Foto © Direitos Reservados.

 

21 agosto 1957

«A mãe ralhou-me hoje por causa dos ciganos. Descobriu que eu queria ir ao acampamento e ficou zangada comigo porque tem medo que me façam mal.

Acho muito injusto que se faça um juízo tão errado sobre esses ciganos que têm tanto direito como nós que podem ter os mesmos defeitos e qualidades das pessoas vulgares. Deve ser muito duro sofrer-se por não se ser da mesma raça das outras pessoas. Quando conseguirei eu demonstrar isto? Eu já sei a fundo como é a vida dos ciganos e como é mentira tudo o que se ouve dizer. Eles não têm a mesma educação que nós por isso eu admiro-os pelo respeito que me têm. Posso garantir que nunca disserem alguma coisa à nossa frente ou foram ingratos nem nos roubaram como diz a mãe. Sinto que eles precisam de ajuda de ter confiança alguém, de se sentirem com os mesmos direitos do que as outras pessoas. Afinal o que é isto a que se chama justiça? Jesus disse: amai-vos uns aos outros como eu vos amei. E até as pessoas mais formidáveis não o cumprem. Eu conheço os ciganos porque tive simplesmente confiança e acreditei neles. É por isso que o Miguel, a Pepi ou a Madore nunca me mentiram e têm confiança em mim. Mas eu queria tanto que a mãe compreendesse que me deixasse ajudar os ciganos. Quando será que eles sentirão confiança e ajuda à sua volta? Quando será que eles sentirão a justiça?»

 

À beira do Parque Eduardo VII, junto ao Marquês de Pombal, assustaram-me as vezes em que mulheres velhas ciganas, vestidas de saias largas pretas até aos pés, me perseguiam, cada vez mais perto, quase a puxar por mim, a querer agarrar-me a mão para me ler a sina. Quanto mais depressa eu andava, mais elas acertavam o passo, quando desistiam ficavam a ameaçar-me de desgraças, cheias de mau-olhado em cima de mim.

Dizia-se que os ciganos roubavam crianças, que eram mentirosos e ladrões, que entupiam as estradas com carroças, que eram gente mal lavada e má. Esses eram os ciganos pobres, depois havia os ricos, que usavam correntes de ouro ao pescoço, andavam em bons automóveis, moravam em boas casas, passavam uma semana inteira a dançar nas festas de casamento. Isso era o que se dizia, sem mais ser conveniente falar.

Eu era curiosa, desobediente, atrevida. A uma distância da casa do avô onde passávamos o verão, no pinhal que em vez de árvores tem hoje casas, muros e ruas, havia um acampamento de ciganos. Com famílias de pessoas grandes e pequenas, tendas, animais, enormes panos amarfanhados estendidos no chão, roupas misturadas, pedras à volta de cinzas de carvão, panelas.

Não sei como, quando, porquê. Terei ido uma vez e outra e outra, àquela hora do meio da tarde em que fingia ir a casa de uma amiga, mas fugia para aquele acampamento, feliz por avançar no que era proibido, por me sentir livre de fazer o que me desse na vontade.

Lembro-me de me espantar com a desordem, com o tom das vozes. De fazer amizade com os miúdos, de ficarmos nuns cantos do pinhal sem gente. De ter gostado de alinhar com o Miguel, que tinha a minha idade. Não calculo as conversas. Lembro-me de uma zaragata, tudo a correr no meio das tendas, tudo a gritar, a derrubar trouxas e coisas. Tive medo, tanto que sou capaz de recordar.

Por lá andei um bom bocado de tardes, a perceber modos bem diferentes daqueles que eram os meus, de educação e condições de vida.

A mãe soube. Eu escrevi no diário. Nestas férias dos 14 anos, empreendi a indignação, inventei maneiras de salvar o mundo.

Acrescento a atualidade às memórias. Em 2017, de acordo com o Alto-Comissariado das Nações Unidas, eram cerca de 3% da nossa população, 37 mil, as pessoas ciganas em Portugal. Dessas, só perto de 10% tinham concluído o terceiro ciclo do ensino básico. No total de beneficiários do Rendimento Social de Inserção (RSI), no nosso país, são menos de 4% as pessoas ciganas que o recebem.

Ensaios de estudiosos, teses de especialistas e investigadores têm sido divulgados, com dados recentes e provados. Mais não desenvolvo. Conhecemos as diversas sensibilidades e ideologias quanto à cultura e tradição ciganas.

Na justa opinião de António Guerreiro, à partida é na margem da sociedade que entre nós se situam os ciganos: «Eles quase não existem no espaço público, só existem porque são objetivados, sinal de que não há racismo mais violento e socialmente aceite do que aquele de que são vítimas e que os encerra em espaços culturais que têm aspetos odiosos, mas que assim nunca serão alterados.» [António Guerreiro, Público, 6 de agosto de 2021.] Em leitura sobre o tema, aprendo que o comissário dos Direitos Humanos do Conselho da Europa comentou as condições deploráveis em que vivem os ciganos em Portugal.

Os adolescentes de hoje têm as notícias ao seu alcance. O voluntariado em que muitos se envolvem é a sua maneira de pensar e reagir contra a desigualdade.

 

Escultura em Alcochete evocativa da greve do sal, de 1957. Foto reproduzida do blogue Coisas de Alcochete.

 

16 setembro 1957

«Têm-se ouvido uns rumores por aqui. Estão 21 homens presos em Lisboa por causa da greve do sal. Ao princípio não liguei muito mas agora quando posso avaliar a miséria de muitas famílias durante seis semanas em que não trabalharam já é diferente. Agora vejo como é grande a exploração do trabalho. Cada moio de sal – parece-me que são 15 canastas – vale 400, 500, 600 e até 800 escudos e os homens que carregam 18 canastas de 60 quilos (três de graça por causa dos prejuízos) ganham 30$00 desde há vinte anos.

Aqui a fortuna de três ou quatro ganha-se à custa da miséria de muitos. Este ano era de muito sal mas os salineiros já tiveram prejuízos enormes porque foram obrigados a contratar varinas, que levam quase o triplo pelo carregamento do sal.

Diz-se que foram uns que chamaram a Pide para cá, mas não se sabe ao certo. Até disseram que o Senhor Prior é o principal comunista de Alcochete. Afinal ele tem feito muitíssimo bem a esta gente desde que começaram a ser presos.

Se isto fosse noutra terra já tinham torcido o pescoço ao principal daquela família. No Montijo, que tem sempre uma opinião diferente, até aí, quando um salineiro vinha a sair do vapor quase se atiraram a ele. Os aldegalegos, como se chamam os de lá, até ofereceram trabalho a quem não o tivesse. Tenho pena destes pobres homens que quanto mais trabalham mais explorados são. Porque não há justiça? Quando será que os homens se considerarão iguais uns aos outros? É uma das coisas que nunca acontece.

Hoje fui com o meu irmão às Hortas, perto do Rio das Enguias, fomos de bicicleta pelo campo e só desmontámos quando começou a haver areia no caminho. Estive com um cordeirinho de um dia ao colo e gostaria de o ter trazido para casa. Vi os borreguinhos a mamar enquanto as mães comiam a erva e vi como elas são obedientes quando o cão ladra. A rapariga que as guardava tem menos um ano que eu e anda sozinha com o cão e as ovelhas que o pai a manda apascentar.

Como tive sorte. Deus permitiu que eu estudasse para poder tirar um curso, deu-me uns pais que podem vestir-me e calçar-me. Deu-me casa e família. Quase sempre não avalio estas coisas.»

 

Assim, separados, dois registos dos tempos e temas que vivi. Se eu não tivesse guardado os cadernos do meu diário, a confirmar o texto, quase que o diria inventado.

Espanta-me a escrita, que parece desajustada da minha idade. E começo pela greve, concretizando pormenores que de certeza sei pela Candinha, a minha melhor amiga de férias na quinta. (…)

O risco, a coragem, o susto pela passagem da PIDE, de tudo isto e mais nós as duas falamos. Ela é curiosa, vai apurando o que é segredado à boca pequena, os nomes dos denunciantes, as disputas, as maldades. Com ela eu vou aprendendo e partilhando as dores que por ondas vão passando, naquele estado de coisas.

Em outro parágrafo, comparo a minha condição de vida com a daquela menina guardadora de ovelhas, nada de anormal havia quando uma criança não ia à escola, o trabalho infantil supunha mais dois braços para ajudar ao sustento da família, quantos outros casos se passavam à nossa volta.

No diário, agradeço o meu privilégio de escola e estudo, de roupa, abrigo e proteção. Várias vezes, nestes anos, irei agradecer.

 

Leonor Xavier. Foto © Direitos reservados.

6 setembro 1958

«Vou para o D. João de Castro. Nunca mais andarei no liceu onde passei a minha crise dos doze anos, onde aprendi a viver mais com Deus, onde encontrei a ver- dadeira amizade, onde passei o melhor tempo da minha vida. Vou agora para o meio de desconhecidos num liceu lá tão longe. Há rapazes e eu nunca estive num liceu misto. Agora apareceram uma infinidade de perguntas. Como procederei? Como me mostrarei para com eles? Com quem deverei andar? Vê-los-ei como companheiros ou como rapazes? Tenho medo. Terei acertado a escolha da carreira? Dou para estudar latim, grego, literatura, línguas? Fico a pensar que nunca mais vou estar todos os dias com as minhas amigas. Continuaremos a encontrar-nos mas não é mais a mesma coisa.»

 

Liceu misto, ainda raridade, o medo da mudança, as perguntas que não acabam mais. Mal sabia eu que naquele liceu, à hora do intervalo, as meninas saíam da aula, alinhadas umas atrás da outra, muito direitinhas, andando uns largos metros até ao assim chamado Gineceu, espécie de reclusão para onde, como um rebanho, éramos encaminhadas.

O Gineceu era uma sala grande, com janelas acima dos nossos olhos, em bicos dos pés conseguíamos espreitar um pouco do que se passava no recreio lá fora, abaixo de nós. Assim se mantinham as raparigas afastadas dos rapazes e eles delas, contra a natureza mas a favor da moral se tratava de manter a separação dos sexos. No ambiente pidesco, até um contínuo, que hoje se chamaria «vigilante», tinha o direito de denunciar, para castigo, todo o ato que julgasse promíscuo ou pecaminoso, uma mão dada em surdina, uma mão a apertar um ombro, rapaz a tocar em rapariga ou ela a fazer-se a ele. Parece mentira, não é?

À hora da saída, mais intensas eram as proximidades, ferviam entusiasmos, nasciam abraços, graças, namoros.

 

13 novembro 1958

«Apesar de tudo as aulas não vão mal e os rapazes são cada vez mais simpáticos. Esses pequeninos nadas que ninguém nota são muito para mim. As criadas cá de casa vêm falar comigo, não ligam aos rapazes, mas principalmente a Maria dos Anjos vem ter comigo e conta-me as declarações do guarda do Metropolitano. E às vezes fico a pensar como seria bom ter a vida tão simples e contentar-me com tão pouco. O Carlos Manuel, que a ninguém fala de música hoje na aula de Grego perguntou-me: Ouviste ontem a Aida? E eu respondi-lhe e desatamos a falar e não paramos durante toda a aula. Ontem o Nuno deu-me o lugar no autocarro e o Paulo pediu-me que lhe segurasse os livros. O Jorge deu-me um rebuçado e o outro Jorge riu-se para mim durante a aula de Filosofia e no intervalo estivemos a conversar.

E depois o melhor de tudo é que eu entrei para a Obra de Assistência aos Pobres. Nem sei como fui à reunião com a Isabel. Ao terceiro tempo tive aula de Moral e o António disse ao padre Mafra à nossa frente que éramos as duas únicas da turma que podíamos interessar-nos nos pobres. Ao último tempo tive Francês e eles História. O António esperava por mim cá fora e levou-me à sala da JEC. Falou-se de pobres, de assistência e no fim de tudo no sábado a seguir as aulas da manhã vou pela primeira vez com a Isabel visitar a nossa pobre.»

 

“E voltou para seu pai…”. Ilustração © Sieger Köeder.

 

Fazia parte, era suposto, era caridoso, era cristão. O dever de visitar os pobres era Obra de Misericórdia que tinha a ver com o espírito da Ação Católica, na Juventude Escolar Católica, JEC, então importante ao ponto de dispor de área especial, uma sala no espaço do liceu. Mas no diário deste dia, quase se apaga a frase sobre «os pequenos nadas», ou a minha autoestima pelas confidências que me fazem as criadas. Sinal de confiança em mim, porque de rapazes ou de homens, de sedução ou de namoro, é suposto só se falar às escondidas.

Lembrando a Maria dos Anjos, as histórias que me contava, os conselhos que pedia, as cartas que me ditava para mandar aos pais, recordo hoje a condição das criadas de servir. Muitas, aos 10 anos, vinham ser criadas de meninos nas casas de família. Aos quinze já conheciam todo o serviço. Aos vinte eram mulheres feitas. As mais antigas na casa, essas que tinham o mando no universo das cozinhas, ensinavam às mais novas os preceitos de quartos e mesa, que como criadas de fora deviam conhecer. Quando chegavam da província, estas mais novas estranhavam a banheira com torneiras de abrir e fechar, a água quente e corrente para tomar banho. Quando agradavam, vinham as irmãs para Lisboa, servir a mesma família. Não sabiam ler nem escrever. Uma cama com lençóis e mantas, mesa de pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar na cozinha, acompanhado por um copo de vinho. Uma saída aos domingos de quinze em quinze dias, depois de servirem o almoço e antes de servirem o jantar. Um ordenado ao fim do mês. A pobreza acautelada.

Lembro-as com saudades. A Margarida (…). Ou a Teresa (…). Ou a Beatriz (…). Ou a Palmira (…).

Havia famílias em que os meninos passavam às vezes mais tempo com as criadas do que com as mães. Não porque as mães trabalhassem, mas por estarem mais ocupadas com outras mundanas prioridades. Obras de caridade, quermesses, vendas de Natal. Os chás, as canastas, os cinemas, que julgavam de maior importância.

Muito aflitivo, angustiante nos tempos de hoje, voltar a essas lembranças. Pensar naqueles modos de existir, naquelas vidas de prisão, vidas de raparigas trancadas em casa, emparedadas. (…)

Além dos saberes domésticos que aprendia, raramente uma criada de servir deixava de ser analfabeta. Esta é uma palavra que hoje pronuncio e escrevo como se um grosseiro palavrão fosse.

Lembro-me da Maria José Nogueira Pinto, que na liderança da Santa Casa da Misericórdia rejeitava a ideia de que toda esta condição fosse herança de pais para filhos, mais ainda para filhas mulheres.

Mas nesses anos não se pensava assim. E nem imaginava eu que fosse diferente. (…)

Os miúdos de hoje, neste nosso mundo, nem calculam como foi.

 

8 maio 1960

“Tu não me morrerás.” Escultura em Estocolmo. Foto © António José Paulino

 

«Morreu o Padre Veiga e eu fui ao enterro anteontem. Tive de pedir uma bata emprestada porque nós íamos representar o colégio. Cheguei a Tonda e na casa dele todos choravam. (…)

A mãe coitadinha era um dó. Já nem se aguentava de pé. Impressionou-me imenso. Tinha o coração a bater, a bater e faltava-me o ar e sentia um grande peso no estômago. Fui à igreja com a Odete e a São, ajoelhei e desatei a chorar. Aquela gente toda de preto, todos a chorar, os padres, as flores, o caixão. Foi uma caminhada até ao cemitério ao sol e ao pó, quase sem poder respirar. Muita gente, tudo calado e a chorar, alguns com flores e velas. (…)

 

Escreve o sábio frei Bento Domingues que «no mais fundo do amor humano existe o desejo de eternidade: Tu não me morrerás.» [Frei Bento Domingues, Público, 9 de maio de 2021.] Talvez assim eu tente dizer a intensidade do meu sentimento neste dia, por ouvir o pranto gritado da irmã, o quase desmaio da mãe, o coro das carpideiras, a procissão de gente atrás do caixão.

As pessoas naquelas terras de província celebravam a morte assim, tudo para mim era assustador e chocante. Mais tarde, várias vezes em Lisboa acompanhei outras mortes. Aí, no cemitério, a mais forte e densa impressão é o absoluto silêncio na caminhada em que, de olhos baixos, em cortejo se acompanha o caixão até à sepultura. A gritada ou calada celebração da dor é grande momento de encontro. A viagem, a partida, a ausência, a distância, a despedida são verdade vivida do nosso modo de ser. Assim se vê e se sente e exprime, nestas horas de nós, portugueses.

Diz-se que desde já vai desaparecendo o ritual, os novos tempos implicam cremação, a pandemia globalizou a falta de espaço, o fim do abraço, o beijo não existe, a máscara esconde lágrimas, interesses, paixões. O luto que não foi celebrado.

Aos mais novos, a iniciação há de chegar como seja.

 

 

19 novembro 1960

«Tenho mudado tanto. Em cada dia fico um bocadinho mais diferente. Tudo o que era mal agora é bom. O que era justo é injusto. Julgo saber tudo mas não sei nada. E Deus, amo-o sempre de maneira diferente cada dia, acredito que ele há de vir e ser aquele Jesus homem que eu imagino, o Deus que eu concebo. Pode-se ter uma conce- ção de Deus?»

 

Quatro anos passaram desde o primeiro retrato de mim. Cresci. Deixei de estar triste, o tom de melancolia acabou. Agora e desde sempre, existe a pergunta, a procura, a não certeza. Entre céu e terra, o espetáculo do mundo. Em ponto final.

 

Lisboa,19 de julho de 2021

 

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O Estado de Carnataca, no sudoeste da Índia, tornou-se, no passado dia 15 de setembro, o décimo estado daquele país a adotar leis anticonversão no âmbito das quais cristãos e muçulmanos e outras minorias têm sido alvo de duras perseguições, noticiou nesta sexta-feira, 23, o Vatican News, portal de notícias do Vaticano.

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O filme A Carta (The Letter) será lançado no YouTube Originals no dia 4 de outubro, anunciou, hoje, 21 de setembro, o Movimento Laudato Si’. O documentário relata a história da encíclica Laudato Si’, recolhe depoimentos de vários ativistas do clima e defensores da sustentabilidade do planeta e tem como estrela principal o próprio Papa Francisco.

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“Espero por vocês em Assis.” Assim terminava a carta que o Papa escreveu aos jovens em maio de 2019, convidando-os a participar na Economia de Francisco. Apesar de uma pandemia o ter obrigado a adiar dois anos este encontro, e ainda que as dores no joelho o tenham impedido de vir pelo seu próprio pé, Francisco cumpriu a sua promessa, como só os verdadeiros amigos sabem fazer. Este sábado, 24, logo pela manhã, chegou à cidade de Assis para se juntar aos mil participantes do encontro A Economia de Francisco. Escutou atentamente os seus testemunhos e preocupações, deu-lhes os conselhos que só um verdadeiro amigo sabe dar, selou com eles um pacto e até reclamou por não terem trazido cachaça (bem sabemos que é próprio dos amigos rabujar e fazer-nos rir). Mas sobretudo provou-lhes que acredita neles e que é com eles que conta para fazer do mundo um lugar melhor.

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