Adolfo Nicolás (1936-2020): O imitador de Charlot que chegou a geral dos jesuítas

| 21 Mai 20

P. Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas

P. Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas. Foto © Cúria Geral da Companhia de Jesus

 

Quando foi escolhido para responsável dos jesuítas no Japão, o padre Adolfo Nicolás decidiu ir viver num bairro pobre. Nas Filipinas fez o mesmo. Os que o conheciam dizem que era um excelente conversador e grande imitador de Chaplin. Espanhol, esteve quatro décadas no Japão até ser escolhido, em 2008, como o 30º geral dos jesuítas. O padre Arturo Sosa, que lhe sucedeu no cargo, recorda-o como um “homem sábio, humilde e livre, dedicado ao serviço total e generoso”.

 

O padre jesuíta espanhol Juan Masiá Clavel, que levava já 35 anos no Japão em 2008, previa duas coisas: que o seu colega Adolfo Nicolás, na altura com 71 anos, seria eleito como novo geral dos jesuítas e que renunciaria à escolha. “Tinha fundamentos sólidos para ambos os vaticínios, mas não acertei no segundo”, dizia então, num depoimento que escreveu a propósito da escolha do “papa negro”, designação pela qual é popularmente conhecido o responsável máximo dos jesuítas.

Adolfo Nicolás Pachón morreu nesta quarta-feira, 20 de Maio, em Tóquio, para onde regressara depois de abandonar o cargo de geral dos jesuítas, para o qual tinha sido eleito a 17 de Janeiro de 2008, após quase duas semanas de reunião da 35ª congregação geral da Companhia de Jesus, por 217 eleitores. Um “homem sábio, humilde e livre, dedicado ao serviço total e generoso”, disse quinta-feira, no momento de anunciar a morte, o seu sucessor, o venezuelano Arturo Sosa.

Nascido em Villamuriel del Cerrato (próximo de Palência, no norte de Espanha, entre Valladolid e Burgos), a 29 de Abril de 1936, Adolfo entrou na Companhia de Jesus com 17 anos e foi para o Japão em 1964, com 28 anos. Estudou três anos em Roma, foi provincial (responsável máximo) dos jesuítas japoneses entre 1993 e 1999 e coordenador dos provinciais da Ásia Oriental e Oceania, entre outras notas da sua biografia.

Ainda no pontificado de João Paulo II, antes de 2005, o seu nome chegou a ser proposto para reitor da Universidade Gregoriana, que é dirigida pelos jesuítas em Roma, mas cujo responsável máximo tem de ser aprovado pelo Vaticano. No entanto, vários cardeais da época vetaram o seu nome para o cargo, tendo em conta as ideias e práticas do padre Nicolás no campo do diálogo inter-religioso.

Na altura da sua eleição, sintetizava, numa conferência de imprensa: “O mundo não era como eu pensava em Espanha. A Ásia mudou-me, para entender os outros, aceitando o que é diferente. Na Espanha eu era um pouco intolerante, a religião era entendida como fidelidade a uma série de práticas religiosas. No Japão, vi que a verdadeira religiosidade é mais profunda.”

 

O Japão? “Sensibilidade musical”

P. Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas.

Adolfo Nicolás no terraço da Cúria dos jesuítas em Roma: “Papa negro” entre 2008 e 2016, sentiu sempre o apelo do Oriente. Foto © Cúria Geral da Companhia de Jesus

 

Em Setembro de 2016, um mês antes de deixar o cargo, em entrevista à revista dos jesuítas italianos La Civiltà Cattolica, explicava o que o fascinava na cultura japonesa e com a qual o Ocidente deveria aprender: “Sensibilidade musical. Os japoneses estão entre os povos mais musicais do mundo. A religião é muito mais parecida com este sentido musical do que um sistema racional de ensinamentos e explicações. Os japoneses – graças também às raízes do budismo – vivem uma profunda sensibilidade, uma abertura às dimensões da transcendência, da gratuidade, da beleza que subjazem às nossas experiências humanas.”

Este fascínio não deixava de chamar a atenção para os riscos contemporâneos da mesma cultura: “Esta é uma sensibilidade que hoje em dia está ameaçada por uma mentalidade puramente económica ou materialista, que nos impede de alcançar dimensões mais profundas da realidade. A missão hoje no Japão e na Ásia pode ajudar-nos a descobrir, ou redescobrir, a sensibilidade religiosa como sentido musical, como consciência e apreciação das dimensões da realidade que são mais profundas do que a razão instrumental ou as concepções materialistas da vida.”

Na linha do que o Papa Francisco tem defendido, Adolfo Nicolàs defendeu, logo na primeira homilia que fez como novo geral dos jesuítas, que a Companhia deveria apontar a sua missão para “outras nações, outras comunidades não geográficas, mas humanas, que reclamam a [sua] assistência: os pobres, os marginalizados, os excluídos”. E acrescentava: “A sociedade só tem lugar para os grandes, não para os pequenos. Todos os menosprezados, os manipulados, todos esses são talvez para nós essas nações que têm necessidade da mensagem de Deus.”

Concretizando essas ideias, Nicolás foi viver para um bairro pobre quando desempenhou o cargo de provincial do Japão, deslocando-se diariamente de comboio para o trabalho. Fazia o mesmo em Manila.

Essa identificação com o pensar e o agir do actual papa, jesuíta como ele, confirmou-o o próprio várias vezes. Em 2015, numa curta declaração numa reportagem da SIC, dizia, acerca de Francisco, que considerava “um bom jesuíta”:  “Fala com as pessoas simples e na sua linguagem. Este é o forte do Papa Francisco. Usar a linguagem simples para coisas profundas“.

José Alves Martins, outro jesuíta, que vive em Timor-Leste desde 1974, também comentava o “sentido de grande abertura” do colega às outras religiões”.

Versado em semiótica e filosofia, áreas em que se especializou (Paul Ricoeur, estudo dos símbolos, Bíblia), outros apontam que Nicolás era bom conversador e bem-humorado. Masiá conta: “Herdou o humor da sua mãe e, entre amigos, as suas anedotas e a sua imitação de Chaplin fizeram-nos rir com frequência.” E outro jesuíta português, Hermínio Rico, confirma o seu “gosto por contar anedotas e recordar histórias do seu Japão”, nos momentos de lazer ou convívio.

 

“Somos bons, mas distraídos”

P. Adolfo Nicolás, antigo superior-geral dos jesuítas.

A felicidade? “Dar aos outros o que temos vivido”, dizia. Foto © Cúria Geral da Companhia de Jesus

 

Os jesuítas são uma das mais importantes ordens religiosas católicas. São responsáveis por duas centenas de universidades e instituições de ensino superior, organizações de promoção da justiça e desenvolvimento (Serviço Jesuíta aos Refugiados, rede de apoio a doentes de sida em África, Leigos Para o Desenvolvimento), mais de 700 escolas de diferentes níveis e quase três mil centros educativos (principalmente na América Latina) ou por cerca de 300 meios de comunicação (rádios, centros de televisão e produção, revistas e editoras).

Apesar de continuarem a ser uma das ordens que mantém atracção vocacional, o número de membros tem estado em queda: há meio século, eram cerca de 35 mil, em 2008, quando Adolfo Nicolás foi eleito estavam um pouco abaixo de 20 mil e hoje são cerca de 17 mil. Há jesuítas a trabalhar em diversas áreas científicas, há vários entre os mais importantes teólogos do mundo, há jesuítas artistas como Marko Ivan Rupnik (autor do painel da Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima), muitos deles orientam cursos e retiros.

Num encontro com noviços jesuítas portugueses, reunidos em Cernache (Coimbra), em Junho de 2014 (naquela que foi a sua segunda visita a Portugal), recordava o padre Nicolás: “Quando me elegeram para ficar em Roma, em 2008, ao princípio perguntava-me como ia ser. Fui ler os clássicos: voltei a ler Inácio, Francisco Xavier, Francisco de Assis, João da Cruz – os clássicos da espiritualidade. A sua grande preocupação é a distracção. Não as distracções na oração, mas as da vida. Muitas vezes não vemos o que Deus faz no mundo, o que o Espírito nos está a dizer… estamos distraídos. As distracções são o que nos faz mais dano! Somos bons, basicamente bons, mas distraídos.”

O seu horizonte era, por isso, o serviço e a disponibilidade para com os outros: “O ‘eu’ tem de ir sendo eliminado a pouco a pouco. Se não, trará grande dificuldades. As grandes dificuldades que tive como provincial do Japão foram com pessoas mais preocupadas consigo do que com a missão e o serviço aos outros”, dizia na mesma ocasião.

Dizia ainda que a Igreja precisa de profundidade, pois corre o risco da superficialidade; da criatividade, porque hoje há “perguntas novas”; e da vida no Espírito, para responder às pessoas que “buscam”. E insistia: “O que realmente importa é servir aos outros. Se querem ser felizes como religiosos, esqueçam-se de vocês e encontrem a felicidade em servir. E Deus vos acompanhará toda a vida. Aí está a nossa felicidade: dar aos outros o que temos vivido.”

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