Pedras que não são só pedras

“Adoramos cada pedaço de terra do nosso bairro e da Palestina”

| 22 Mar 2022

Esta reportagem faz parte de uma série de trabalhos do serviço de imprensa do Conselho Mundial de Igrejas, intitulada Iniciativa da Páscoa, que pretende retratar instantâneos da vida quotidiana dos palestinianos, muçulmanos e cristãos que vivem em Jerusalém e arredores, alguns dos problemas que enfrentam e o que lhes dá esperança. Neste texto, Samira Dajani-Budeiri fala da importância do seu bairro Xeque Yarrah e das memórias ligadas ao chão e aos lugares que percorre todos os dias, bem como da vontade de viver em paz e dignidade.

Samira Dajani-Budeiri em foto cedida pela própria: “Cada pedra faz-me pensar na minha família, nas memórias que criámos juntos e com os vizinhos.” 

Samira Dajani-Budeiri em foto cedida pela própria: “Cada pedra faz-me pensar na minha família, nas memórias que criámos juntos e com os vizinhos.”

 

“Tivemos de deixar a terra dos nossos antepassados, e até hoje ainda lutamos por justiça”, diz a palestiniana Samira Dajani-Budeiri. “Vivemos sob a ameaça de despejo desde 1972, quando várias organizações de colonos sediadas nos Estados Unidos afirmaram ter adquirido os terrenos em que se localizam as 28 casas do nosso bairro.”

Essas organizações afirmam-se proprietárias dos terrenos desde o século XIX, especificamente desde 1832, acrescenta ela. “Apresentaram documentos forjados, cuja autenticidade não pôde ser legalmente comprovada, nem através dos arquivos otomanos, nem através do registo predial”, explica. “Através de operações fraudulentas, conseguiram desalojar três famílias.”

Dajani-Budeiri gosta da sua casa. “Adoramos cada punhado de terra do nosso bairro e da Palestina”, diz ela.

Porque, para Samira, as pedras são muito mais do que simples pedras: “Cada pedra faz-me pensar na minha família, nas memórias que criámos juntos e com os vizinhos”, afirma. “As pedras e o jardim representam o tempo em que a família vivia em conjunto com dignidade e liberdade. Essas memórias e o que as pedras simbolizam são muito preciosas para mim.”

De facto, quando ela nos apresenta aos seus familiares, cada apresentação é acompanhada de uma memória. “Vivo com as minhas memórias, o meu marido e a minha filhinha”, diz. “Isso foi depois dos meus pais falecerem. Claro, a casa está aberta aos meus irmãos, filhos e netos.”

Esta palestiniana pergunta ainda: “Quando deixaremos de ser ameaçados de despejo? Anseio pelo dia em que possamos ver a luz ao fundo do túnel, ou seja, o dia em que a ordem de despejo for definitivamente cancelada e for confirmado que somos donos da nossa casa, de acordo com os documentos legais jordanos”, diz ela. “Espero também que o problema dos refugiados seja resolvido e que eles possam regressar às suas terras.”

Perguntada sobre quando se sentirá segura, conclui: “Sentimo-nos seguros assim que os nossos legítimos direitos forem reconhecidos”; “somos os legítimos proprietários, vivemos nas nossas próprias casas, nunca roubámos ninguém.”

Dajani-Budeiri apela à fraternidade do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e a todas as pessoas de boa vontade para continuarem a demonstrar solidariedade. “Gostaríamos que o CMI continuasse os seus esforços de comunicação para informar o mundo da nossa justa causa, para afirmar o nosso direito de permanecer nas nossas casas e para promover a revogação das leis de despejo em Jerusalém, na Cisjordânia e em Gaza”, diz ela. “Assisto com preocupação aos ataques dos colonos em Xeque Yarrah e na área de Karm Al-Mufti, bem como em Silwan, Jabal Al-Mukabir e na minha própria casa.”

Dajani-Budeiri espera também que o Conselho de Segurança da ONU aprove uma resolução contra o despejo da sua família e vizinhos. Despede-se com o seguinte apelo: “Por favor, continuem a demonstrar solidariedade para connosco na ONU e no Conselho de Segurança e nunca pensem nos direitos humanos com dois pesos e duas medidas.”

 

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