Adorar a Deus em espírito e verdade

| 21 Abr 20

Uma pandemia como a que vivemos actualmente desafia a nossa fé por três razões. Primeiro, toda a confiança que possamos ter em Deus parece não nos livrar do contágio e da possível morte. Depois, obriga-nos a relegar para o plano individual aquilo que normalmente é vivido de forma pública e comunitária. Por fim, afasta-nos (no caso do catolicismo) daquilo que é a principal fonte da graça, o sacramento da eucaristia. A confissão lá se vai mantendo com as devidas distâncias entre o sacerdote e o penitente.

Houve quem achasse que a fé e o cumprimento dos preceitos religiosos fossem suficientes para evitar o contágio, mas semelhante atitude é mais uma provocação às autoridades civil e sanitária do que propriamente uma manifestação de fé. É também uma forma indirecta de desprezar a ciência feita pelo homem, que está na base das medidas agora em vigor. Temos o exemplo da comunidade ultraortodoxa de judeus Haredi, que se recusou inicialmente a prescindir das celebrações comunitárias e a cumprir as medidas de confinamento social. Foi preciso a covid-19 entrar-lhes pela porta dentro (um quarto das infeções em Israel foram adquiridas nas sinagogas) para perceberem que se tratava de uma questão de vida ou de morte.

A questão da ciência leva-nos, de certo modo, à relação entre esta e a religião. Se uns vêem aqui uma oportunidade para o diálogo e enriquecimento mútuo (tem sido esta a posição oficial da Igreja Católica), outros teimam em afirmar que as duas são incompatíveis. Em rigor, ciência e a religião são duas formas de explicar a realidade: a primeira explica a realidade material e contingente, na qual se inclui o mundo natural; a segunda a realidade metafísica. Fazem-no de forma autónoma e com métodos distintos, mas, no final, ambas procuram chegar à verdade nos respectivos domínios. Ora, se Deus é, como diz o Credo, criador de “todas as coisas visíveis e invisíveis” (o mesmo é dizer, materiais e metafísicas), ciência e religião só podem complementar-se, nunca voltarem as costas. Se fossem incompatíveis, não teríamos o conhecido biólogo Kenneth Miller a escrever Finding Darwin’s God ou o Papa João Paulo II a escrever a Fides et Ratio.

As medidas de contenção social são sempre baseadas na melhor evidência científica disponível à data, que sabemos que sofre sempre uma evolução à medida que o conhecimento se vai acumulando (veja-se o caso do uso generalizado das máscaras, que agora já é recomendado pela maioria dos organismos que acompanham a pandemia desde o início). Desprezar este conhecimento seria como desprezar a capacidade racional com a qual o próprio Criador nos dotou. Não é, aliás, a razão humana uma das “provas” de termos sido criados à “imagem e semelhança” de Deus?

 
A fé, o grande motor da vida

O segundo aspecto – a vivência pública e comunitária da fé – não é de somenos importância. A celebração comunitária da fé, como o caso da missa de domingo, é fundamental para darmos graças, que é a única coisa que podemos dar em troca a Deus por tudo quanto nos dá. Há quem não suporte assistir ao testemunho público da fé por considerar que a mesma só ao próprio diz respeito. Só que isto é a antítese da fé. O testemunho é a forma de partilhar com o outro aquilo que me transcende e que não cabe em mim. Espiritualmente, é também uma questão de vida ou de morte. Pelo testemunho são também outros levados à conversão. Foi o caso de Tertuliano, que se converteu por causa do testemunho dos mártires (daí a sua máxima “o sangue dos mártires é semente para os cristãos”).

Durante a pandemia não têm faltado testemunhos: um senhorio em Brooklyn dispensou os seus cerca de 200 inquilinos de pagar a renda do mês de Abril; dezenas de sacerdotes já morreram por terem mantido a assistência espiritual aos moribundos (em Itália já foram mais de 100); numa performance algo original onde cada membro cantou a partir de casa, um conhecido coro de uma igreja de Nova Iorque presenteou o Papa Francisco no Domingo de Páscoa com um lindíssimo cântico alusivo à ressurreição; e assim podíamos continuar, pois histórias destas não faltam por esse mundo fora. Estes testemunhos demonstram como a fé não pode ser limitada por nenhuma medida de contenção social e que, no final, é o grande motor da vida.

O facto de estarmos agora impedidos de celebrar pública e comunitariamente a fé não deve ser razão para desespero. Não só o Senhor prometeu estar no meio daqueles que se reúnam em Seu nome (cf. Mateus 18, 20), seja em casa ou na igreja, como sabemos pelo diálogo com a Samaritana “que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade.” (João 4, 23).

O último aspecto é talvez o mais relevante, pois o cristão sem os sacramentos é como o soldado sem armas num campo de batalha. Não deve ter sido fácil para a Igreja em inúmeros países cancelar todos os actos públicos de eucaristia. Afinal de contas, a eucaristia é “fonte e centro de toda a vida cristã” (Vaticano II, Lumen Gentium, 11). De certo modo, a Igreja pôde fazê-lo porque Deus, apesar de ter ligado a salvação aos sacramentos, não ficou Ele próprio prisioneiro dos seus sacramentos (Santo Agostinho).

Só assim é possível aquilo que a Igreja designa por “comunhão espiritual”, uma prática muito recomendada quando não é possível receber o Sacramento (talvez agora tenhamos uma ideia daquilo por que passam os católicos da Amazónia quando ficam mais de um ano à espera de receber a sagrada comunhão!). Apesar da oração de Santo Afonso Maria de Ligório ser a mais conhecida, é mais fácil recordar uma oração atribuída aos padres piaristas e que foi popularizada por São Josemaria Escrivá: “Senhor, desejo receber-Te com a pureza, humildade e devoção com que a tua Santíssima Mãe te recebeu, com o espírito e o fervor dos santos.” Ainda que não possamos receber Jesus sacramentalmente, que O recebamos ao menos espiritualmente. Só assim pode tudo ficar bem!

 

Gonçalo Forjaz de Lacerda é investigador no National Cancer Institute (EUA) e autor do blog Um Católico em DC

 

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