Adultos. Com A grande, sff. (II)

| 20 Dez 2022

Eu vou morrer, eu vou morrer
Mas antes vou aproveitar bem
Se eu não crescer, eu vou morrer
debaixo das saias da mãe,
onde eu ‘tou tão bem”.

(Capitão Fausto, Os dias contados)

 

crescer, rapazes

“Chegaremos mesmo à vida adulta – e este chegar pressupõe todo um processo de desenvolvimento e de maturação interior – capazes de ser adultos?”  Foto: Direitos reservados

 

O primeiro propósito deste texto está cumprido: citar os Capitão Fausto. Não garanto que cumpra o segundo, ou seja, perceber como olhamos hoje para a idade adulta no chamado Ocidente[1].

Preguicei, arrastei de mais esta segunda parte. As ideias iniciais [o primeiro texto com este título pode ser lido aqui] pareciam bonitas e bem estruturadas: evitar lugares-comuns sobre adultos infantis, criticar construtivamente o pós-modernismo-urbano-depressivo e o mercado de trabalho, temperar com Zygmunt Bauman e Byung Hul Chan – e duas ou três ideias sobre o que a Igreja Católica poderia fazer para melhor acompanhar esta fase da vida.

Como todo o pecado, a preguiça tem vantagens, e uma delas é deixar as ideias macerar, destilar as respostas que vão aparecendo, outra é permitir que as questões se afinem por si. E cair na conta de que há uma série de perguntas difíceis de formular com clareza: Qual é a marca de água desta fase da vida? Ou devia ser? O que se espera de uma pessoa adulta? É razoável esperar isso nesta ponta da Europa no século XXI? Não há quadros de referência das Nações Unidas, da União Europeia ou da OCDE que lhes possam sequer começar a responder. Graças a Deus.

 

Co-autores da vida

Na minha cabeça de miúda de cinco anos, um “crescido” era alguém que podia fazer o que quisesse, sem prestar contas a quem quer que fosse. Ou seja, alguém autossuficiente e autónomo. Era uma imagem muito infantil, mas apontava, de forma incipiente, para a ideia de poder criar a vida, de ser radicalmente responsável por si próprio, de ser autor – tal e qual como um escritor – do livro da sua vida.

É essa a minha marca de água da vida adulta: a agência, entendida como a capacidade de agir sobre o mundo, seja no trabalho, na família ou na comunidade. E, antes de mais, a de agir conscientemente sobre si próprio numa perspectiva realista: agir dentro do meu contexto, da minha história, na medida das minhas limitações e potencialidades, e abdicando de delírios revolucionários de alteração da natureza humana, ou da adoração de unicórnios de “correr atrás dos meus sonhos e realizar o meu potencial como ser humano”. Agir em conjunto com os que me são próximos e, para quem crê, também com Deus. Co-autores, e não apenas autores.

E agora sim, as perguntas. Será que somos socialmente educados para ser autores da nossa vida? Chegaremos mesmo à vida adulta – e este chegar pressupõe todo um processo de desenvolvimento e de maturação interior – capazes de ser adultos? Seremos puxados a ficar num “mas antes vou aproveitar bem” eterno, no quentinho de uma vida em diminutivo mal assumida? Ou estarei apenas insatisfeita com o mundo ao meu redor, ou seja, comigo mesma? Muito provavelmente é só esta última. Não tenho como experimentar estas hipóteses, mas posso revisitar as observações que me fizeram levantá-las.

(Mea culpa: reconheço as trapaças metodológicas, desde mudar o propósito do texto a meio até ao brincar ao método científico com o desplante típico de quem não prestou atenção às aulas de laboratório)

 

“Mas no fundo, no fundo tudo tem de mudar”

“Quando o país rebentar…” [2]

Já rebentou, queira ou não. Teima em não abrir a notificação, mas rebentou. É muito possível que, em Portugal, tenhamos atingido um estado de “crise permanente”. As causas serão múltiplas, mas, agora, quero olhar para as consequências.

Em crise, reagimos aos sucessivos imprevistos, ajustamos continuamente as expectativas. Desenrascamos, desengomamos, desembrulhamos, o prefixo des- é bastante elucidativo. Vamos vendo. Todas as decisões são de curto prazo, não equacionamos o médio, nem o longo. E não processamos o que nos acontece, porque não há tempo, em sentido literal e emocional, para o fazer. Não há como um abanão para nos puxar pela criatividade, pelo pensar fora da caixa, para nos levar a arriscar. Mas é impossível construir uma vida a ser abanado em permanência. Sobrevive-se e existe-se, apenas.

Privilegiados à parte, Portugal terá vivido assim nos últimos 10 ou 15 anos, a navegar à vista, e num inegável processo de empobrecimento. Boa parte dos portugueses abaixo dos 30 anos cresceu e tornou-se adulta num país sem perspectivas de crescimento, baixos salários, pouco competitivo, cada vez mais desigual e estruturalmente estagnado e anestesiado. E cada vez mais social e economicamente dependente do Estado. Os dados alarmantes sobre a saúde mental e emocional dos adolescentes – jovens adultos daqui a nada – não nos deveriam surpreender.

Estas circunstâncias têm, de certeza, consequências no nosso desenvolvimento. Condicionam as opções de estudos ao possível, ao mais seguro, ao que se pode pagar e que dê emprego rápido. Ajudam ao fatalismo e à rigidez resignada do “as coisas são o que são” e a uma percepção de ausência de escolha, e a um cansaço permanente, em que não é possível “ver” e avaliar com um mínimo de clareza as opções disponíveis e tomar verdadeiramente a vida nas mãos, nem arriscar verdadeiramente.

crescer

 “Crescer”: “Boa parte dos portugueses abaixo dos 30 anos cresceu e tornou-se adulta num país sem perspectivas de crescimento, baixos salários, pouco competitivo…”

“Trabalhar nunca me fez bem nenhum”

De facto, não. Não pelo trabalho em si, mas pela forma disfuncional como o olhamos. A realidade laboral hoje é uma mistura de Picasso com Dali, um cubismo surrealista impossível de absorver. E tão cheia de sentido como Dada.

Num plano, trabalhar sem horários, sem respeito por necessidades básicas como o sono, o descanso ou a fome, os olhos postos no próximo prazo, no próximo projecto, na próxima avaliação ou no próximo trabalho mesmo. Sempre no futuro, qual viciados à procura do próximo pico. Mas sem nunca sermos bem senhores do que fazemos ou produzimos – não do que criamos ou imaginamos, isso é subversivo – tornando-nos aos poucos nas funções que assumimos, iludindo-nos sobre a nossa importância e maturidade. Para provar o quê a quem? Para fugir de quê e de quem? Mais do que a alienação do trabalho de que falava Marx é a alienação de si próprio pelo trabalho, da verdade de si próprio, que é promovida e aplaudida.

E se não sabemos quem somos, como podemos reivindicar-nos autores da nossa vida?

Num outro, que o intersecta, o dos “trabalhos da treta”[3], aqueles em que o próprio trabalhador não consegue justificar a sua existência e, bem lá no fundo, acredita que o seu trabalho não serve para nada. Com o desenvolvimento da automação seria expectável que trabalhássemos menos horas, e dedicássemos mais tempo às nossas vidas e aos nossos interesses[4]. Isso não aconteceu e, como Graeber nota, mais do que à expansão do sector dos serviços, assistimos à criação do “sector administrativo”, onde se inclui a advocacia de negócios (que odeia estimadamente), o lobbying, os recursos humanos, as relações públicas e as administrações académicas e de saúde. A tese dirige-se apenas ao sector privado, mas diria que se aplica também ao público, que cresceu desmesuradamente desde o pós-guerra. O teste para identificar um trabalho da treta é uma pergunta simples: se a minha função desaparecesse, faria alguma diferença? E há que enfrentar a dureza da resposta.

Não é a relevância económica destes trabalhos que é contestada – são aliás, mais bem pagos do que trabalhos realmente necessários – mas sim a sua falta de propósito e de contributo para o bem comum, e que é moral e espiritualmente lesiva para quem os desempenha, até porque o trabalho se tornou a medida do valor das pessoas. A tese é atrevida e um tanto simplista, mas tem graça e dá que pensar, principalmente depois da pandemia. Dá que pensar também que – caso a hipótese esteja só parcialmente certa – muitos destes empregos são bem pagos e atraem os bons alunos, pelo que podemos estar a triturar muitos dos nossos bons recursos…

E há aquele outro plano – paralelo, perpendicular e oblíquo aos outros dois – de trabalhar para nos mantermos à tona, pagar as contas, rezando para não haver uma ida surpresa ao dentista, sem muita esperança de algum dia chegarmos a um ponto diferente daquele de onde se partiu. Porque tem de ser. Porque só pode ser assim.

 

Pode ser que eu venha a controlar

Vai sonhando, meu querido. Os cabelos da tua cabeça e o número dos teus dias estão contados.

Somos colectivamente obcecados pela segurança e pelo controlo, muito embora não saibamos sequer o que andamos a tentar controlar: nós, os outros, a vida, o tempo, a realidade, ou Deus. Tragicomicamente avessos ao risco, mas disfarçamos bem com as viagens exóticas, os “novos desafios profissionais”, a “inovação e o empreendedorismo”, e a hiperactividade. Tudo o que nos possa distrair ou possa adormecer as emoções socialmente dominantes: a ansiedade e o medo de ver a realidade tal como ela é. Uma era de dissociados.

Por um lado, negamo-la ao atafulhar os sentidos em comida, consumo, entretenimento, e “ruído e confusão”. Por outro, lutamos com ela ao tentar regulá-la e analisá-la à exaustão: vivemos sufocados por planos, regras, directivas, regulamentos e actos normativos no geral, e atafulhados em recomendações, estudos, certificados, qualificações e certificações, trespassados por modelações e conceitos, sempre para minimizar o risco de uma má decisão ou sermos apanhados de surpresa. Passando pela indústria de livros e podcasts sobre a vida de sucesso onde nos ensinam o mais elementar bom-senso, devidamente atestado por John Roe, M.D ou Jane Doe, PhD (atenção, que há livros absolutamente fenomenais).

Talvez todo este caldo cultural, muito centrífugo, nos leve a crer que somos mais autores da nossa vida, senhores assumidos das nossas decisões do que na verdade somos. Menos autoconscientes do que queremos admitir. Menos adultos.

 

Debaixo das saias da mãe

Não se está assim tão bem, e a “mãe” precisa de ir à vida dela.

Jovens consideram que não lhes são oferecidas condições para…” ou “activistas entendem que o Governo deve garantir …” são dois títulos de notícias fictícias que podiam ser reais. Muito do discurso público traduz subtilmente esta ideia de dependência do Estado e, em menor grau, de organizações internacionais que deveriam assegurar todas as condições para que as pessoas vivam a sua vida. Não acho, de todo, que esta postura seja sinónimo de mimo ou de petulância, mas sim de impotência ou de passividade ou submissão adquirida. E é, obviamente, expressão de uma imensa frustração. Há muitas razões que explicam este fenómeno mas, mais uma vez, as consequências interessam-me mais: a perda do sentido criativo sobre o mundo, e o risco de nos submetermos a existir entretidos no espaço definido pelo poder político em abstracto.

Num dos rascunhos deste texto, escrevi, creio que a propósito da questão do trabalho: “É, de alguma forma, um direito que nos está a ser negado, o de ser autor da sua própria vida, e de assumir o risco de uma existência plena.” Ao reler a frase, dei conta que caíra, fácil, na armadilha. O espírito do tempo não ajuda, mas esse direito ninguém – muito menos o mercado – mo pode conceder ou negar, é meu.

Enquanto ia escrevendo, lembrei-me frequentemente da abertura de Murphy, de Samuel Beckett, a minha imagem do inferno, ou seja, de uma vida não assumida plenamente: “The sun shone, having no alternative, in the nothing new. Murphy sat out of it, as though he were free, in a mew in West Brompton.”

Talvez sejam só sintomas de um fim de época (já houve tantos…), do início da falência do capitalismo ou do estertor final da modernidade. Talvez seja o esboço de uma nova forma de estar, talvez sejam tantas outras coisas. Sei, sim, que cada um de nós pode dar ao Sol uma alternativa, basta olhar para dentro. E, que graças a Deus, este tempo não é para gente morna.

(Banda sonora recomendada: Capitão Fausto, têm os dias contados, 2016; A Invenção do dia Claro, 2018)

 

Notas
[1] Para definir Ocidente, vou recorrer à observação de Norman Davies: “Western Civilization is essentially an amalgam of intellectual constructs which were designed to further the interests of their authors.”
[2] Todos os subtítulos são retirados de canções dos Capitão Fausto, por esta ordem: Morro na Praia, Maneiras Más, Morro na Praia, Maneiras Más e os dias contados.

[3] O termo foi proposto por David Graeber em 2013 no ensaio On the phenomenon of bullshit jobs (https://www.atlasofplaces.com/essays/on-the-phenomenon-of-bullshit-jobs/) e, desenvolvido, em 2018, no livro “Bullshit jobs: a theory”.
[4] Esta era previsão de John Maynard Keynes, tal como explicado no artigo.

 

Marta Saraiva é diplomata, exercendo atualmente funções na Missão de Portugal junto do Conselho da Europa.

 

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