
“Que esperança concreta comporta esse advento, essa vinda que os cristãos celebram como já tendo acontecido na história, mas que dizem estar ainda para a frente, como vinda salvadora que põe fim à história?” Foto © Lauren Neely
Que esperam os católicos neste Natal de 2023? A pergunta está mal formulada. Recomecemos então: Quem esperam os católicos neste Natal de 2023? Sabemos a resposta em várias declinações: o menino Jesus; Deus incarnado; Deus feito homem; Deus connosco. Sim, mas que esperança concreta comporta esse advento, essa vinda que os cristãos celebram como já tendo acontecido na história, mas que dizem estar ainda para a frente, como vinda salvadora que põe fim à história?
Regressamos, portanto, à pergunta inicial: que esperam os católicos neste Natal de 2023?
O fim do plano de extermínio do povo palestiniano levado a cabo pelo exército israelita a tal “moralmente autorizado” pelo bárbaro massacre de 7 de outubro? A recuperação pela Ucrânia da soberania sobre todo o seu território e a assinatura de um tratado de paz justo com a sua vizinha Rússia?
O termo da guerra civil no Sudão e o regresso da população do Darfur às suas aldeias onde possa voltar a viver, ao fim de 20 anos, dias de pacífica normalidade?
Acordar no dia 13 de dezembro com a notícia de que na COP28 se chegou a acordos ambiciosos e certificáveis para garantir que a temperatura média do planeta não sobe mais do que 1,5 graus Celsius?
Comemorar neste domingo 10 de dezembro os 75 anos da Declaração dos Direitos Humanos convictos de que todos e cada um dos habitantes deste mundo terá a possibilidade de ver reconhecidos e concretizados todos os direitos fundamentais que ela lhe garante?
Se Aquele que os cristãos esperam nada tem a ver com estas interrogações maiores que nos afligem e às quais poderíamos acrescentar uma longa lista de outros sofrimentos mais imediatamente próximos de nós – o acolhimento dos migrantes e a fome, a pobreza, o desemprego e a exclusão, a falta de habitação acessível, o descrédito da democracia entre cada vez maiores franjas da sociedade – que nos importa a Sua vinda?
Tratemos, pois, de participar na festa que anda no ar nesta época, trocando presentes, preparando refeições que juntam as famílias e desejando festas felizes aos que conhecemos (ou nem por isso…). Já não é pouca coisa aproveitar este tempo para reparar as feridas acumuladas nos ambientes profissionais, familiares e outros em que as nossas vidas se desenrolam.
Contudo, talvez o nascimento Daquele que os cristãos se preparam para celebrar tenha alguma relação com as violências mais brutais do nosso tempo. Não pelo poder de lhes pôr termo, ou sugerir soluções miraculosas para elas. Menos do que isso. Diferente disso. Aos cristãos, o Deus nascido em Belém (terra em que este ano não há Natal) diz que é possível resolver todas aquelas questões. Diz não ao fatalismo. Então, se é possível, é, como diria São Paulo VI, absolutamente necessário trabalhar para que se construam as respostas capazes de eliminar de vez as causas que alimentam tais processos de produção de morte, destruição e marginalização. Se é possível acabar com eles, a indiferença é inaceitável e a participação no caminho para os erradicar é imperiosa.
Por outro lado, a promessa Desse que está para nascer é a de que ficará connosco para sempre. Uma companhia. Uma presença. Alguém íntimo de cada um, mas também princípio de uma fraternidade sem exclusões. Um Deus que está connosco participando da nossa insuficiência, acompanhando-nos na experiência da nossa impotência.
Pode acontecer que, continuando entregues à liberdade de criar e reproduzir o mal, a abertura dos horizontes do possível e a certeza dessa indestrutível companhia sejam razões suficientes para disseminar a alegria transformadora de quem vive o advento de uma nova terra e de uns novos céus.










